{"id":349137,"date":"2025-03-01T14:31:33","date_gmt":"2025-03-01T17:31:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349137"},"modified":"2025-03-01T14:31:33","modified_gmt":"2025-03-01T17:31:33","slug":"da-aurora-a-madrugada-o-frevo-se-mantem-vivo-distante-morando-em-mim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/da-aurora-a-madrugada-o-frevo-se-mantem-vivo-distante-morando-em-mim\/","title":{"rendered":"Da aurora \u00e0 madrugada, o frevo se mant\u00e9m vivo, distante, morando em mim"},"content":{"rendered":"<p>Quem j\u00e1 foi, nunca deixa de ser. O carnaval mora na gente, como um frevo entranhado na alma, feito brasa que pode at\u00e9 parecer adormecida, mas nunca se apaga. Eu que o diga, um pernambucano que deixou Recife h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas, mas que nunca conseguiu \u2014 nem quis \u2014 deixar o frevo para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>A saudade aperta nesta \u00e9poca. O cora\u00e7\u00e3o se aperta junto. Porque o carnaval de Pernambuco n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma festa; \u00e9 um estado de esp\u00edrito. N\u00e3o importa onde eu esteja \u2014 seja na Bras\u00edlia dos \u00faltimos 32 anos, seja agora em Foz do Igua\u00e7u \u2014, quando os primeiros acordes de Vassourinhas ecoam, alguma coisa dentro de mim se reaviva. O corpo j\u00e1 n\u00e3o obedece como antes, \u00e9 verdade, mas a mem\u00f3ria dan\u00e7a sozinha, puxando um passo invis\u00edvel que resiste ao tempo.<\/p>\n<p>Pernambuco sabe fazer carnaval como poucos. No Clube Portugu\u00eas, nos antigos bailes onde se misturavam as fantasias, as marchinhas e aquela anima\u00e7\u00e3o quase ritual\u00edstica. Nas ladeiras de Olinda, onde o suor da multid\u00e3o se mistura ao sabor da cerveja gelada e ao frescor adocicado que explode no ar em jatos breves, deixando um rastro ef\u00eamero de euforia. No Recife Velho de Guerra, onde o Galo da Madrugada ergue o estandarte e arrasta, num transe coletivo, milhares de foli\u00f5es que parecem movidos por um motor invis\u00edvel: a paix\u00e3o pelo frevo.<\/p>\n<p>E se tem algo que diferencia nosso carnaval, \u00e9 essa mistura que iguala todo mundo. A aristocracia do Recife se rende ao pov\u00e3o. O doutor e o ambulante, o turista e o brincante, o cabra do sert\u00e3o e o menino do sub\u00farbio \u2014 todos viram uma massa s\u00f3, dan\u00e7ando no mesmo compasso fren\u00e9tico, com os p\u00e9s queimando o ch\u00e3o quente ao ritmo do trombone e da orquestra. N\u00e3o h\u00e1 trio el\u00e9trico que chegue perto dessa vibra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas confesso: perdi o \u00edmpeto carnavalesco. N\u00e3o sou mais de me jogar na folia como antes, talvez porque o tempo nos ensine outros prazeres, outras formas de celebrar. Mas a ess\u00eancia ficou. E se hoje o Jo\u00e3o Zisman que escreve de Foz do Igua\u00e7u j\u00e1 n\u00e3o sobe e desce as ladeiras de Olinda, o menino pernambucano que habita em mim ainda sente o arrepio quando escuta os metais do frevo. Ainda v\u00ea, nos olhos da mem\u00f3ria, o colorido das sombrinhas rodando no ar e o suor escorrendo na testa de quem dan\u00e7a.<\/p>\n<p>E talvez seja por isso que me chamou a aten\u00e7\u00e3o o Carnaval da Aurora \u00e0 Madrugada de Foz do Igua\u00e7u. O nome j\u00e1 carrega a promessa de festa sem fim, daquela energia que s\u00f3 o verdadeiro esp\u00edrito carnavalesco consegue produzir. Mas mais do que um nome, o Carnaval da Aurora \u00e0 Madrugada se consolidar\u00e1 como o grande marco da folia igua\u00e7uense. Com sua identidade pr\u00f3pria, sua vibra\u00e7\u00e3o e seu povo animado, Foz mostra que tem tudo para fazer hist\u00f3ria no calend\u00e1rio carnavalesco.<\/p>\n<p>E que grata surpresa foi descobrir que Foz tamb\u00e9m sabe celebrar! Aqui, a cidade se veste de cores, a m\u00fasica invade as ruas e o povo se entrega \u00e0 festa com entusiasmo genu\u00edno. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 apenas um evento que observo de longe \u2014 \u00e9 agora, tamb\u00e9m, o meu carnaval. \u00c9 onde vejo a mesma ess\u00eancia de celebra\u00e7\u00e3o que me marcou desde menino, onde a cultura se manifesta em dan\u00e7a, m\u00fasica e encontro.<\/p>\n<p>Porque o frevo, meu amigo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma dan\u00e7a. \u00c9 uma marca de pertencimento. \u00c9 um elo que nem a dist\u00e2ncia, nem o tempo, nem a idade conseguem romper. O carnaval pode ter ficado l\u00e1 atr\u00e1s, mas o Recife continua aqui dentro. E sempre que fevereiro chega, eu fecho os olhos e volto. Nem que seja s\u00f3 por um instante, s\u00f3 por uma nota, s\u00f3 por um passo invis\u00edvel que s\u00f3 eu vejo \u2014 e que ningu\u00e9m nunca vai conseguir me tirar.<\/p>\n<p>Agora, entre as lembran\u00e7as do passado e a alegria do presente, celebro o frevo que ainda dan\u00e7a em mim e o samba que me acolhe em Foz. Afinal, quando o carnaval chega, pouco importa onde estamos. O que importa \u00e9 que ele sempre encontra um jeito de nos levar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem j\u00e1 foi, nunca deixa de ser. O carnaval mora na gente, como um frevo entranhado na alma, feito brasa que pode at\u00e9 parecer adormecida, mas nunca se apaga. 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