{"id":349150,"date":"2025-03-02T09:14:56","date_gmt":"2025-03-02T12:14:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349150"},"modified":"2025-03-02T09:14:56","modified_gmt":"2025-03-02T12:14:56","slug":"esquerda-precisa-dar-um-jeito-de-deter-o-avanco-da-direita-no-brasil-ou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/esquerda-precisa-dar-um-jeito-de-deter-o-avanco-da-direita-no-brasil-ou\/","title":{"rendered":"Esquerda precisa dar um jeito de deter o avan\u00e7o da direita no Brasil, ou&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Os n\u00fameros das elei\u00e7\u00f5es parlamentares da Alemanha confirmam o cen\u00e1rio antevisto pela unanimidade dos analistas, t\u00e3o claras eram as evid\u00eancias do crescimento da extrema-direita e do neonazismo, que l\u00e1 floresceu para incendiar o mundo e construir uma era de horror. Agora, com matizes tirados da modernidade, ressurge amea\u00e7ador, empolgando majoritariamente a Europa Ocidental, em crise econ\u00f4mica, pol\u00edtica e mesmo de identidade. O neonazismo \u00e9 uma doen\u00e7a que nem a guerra, nem a fome, nem a barb\u00e1rie dos campos de concentra\u00e7\u00e3o conseguiram erradicar. Nascida com a crise de 1929-1930, recrudesce com o esgotamento capitalista e a fal\u00eancia das alternativas at\u00e9 aqui cogitadas.<\/p>\n<p>L\u00e1 e c\u00e1, sempre que a esquerda, na busca do voto conservador (ou da governan\u00e7a, governabilidade, composi\u00e7\u00e3o, concilia\u00e7\u00e3o, ou disso ou daquilo), abandona seu leito natural e se alia \u00e0 direita \u2013 muitas vezes subsumindo seu discurso \u2013, \u00e9 esta quem avan\u00e7a eleitoralmente e, principalmente, vence politicamente. Hoje, a direita dirige o discurso planet\u00e1rio e \u00e9 vitoriosa do ponto de vista ideol\u00f3gico, pois seus valores se fazem presentes em todo o mundo, instalando-se no pensar, no formular e no fazer dos advers\u00e1rios hist\u00f3ricos, que assim se transformam em reprodutores inconscientes dessa ideologia.<\/p>\n<p>O capitalismo, al\u00e9m de dominar o aparato militar, avan\u00e7a sobre cora\u00e7\u00f5es e mentes: o Estado de bem-estar social, promessa da social-democracia do p\u00f3s-guerra, foi substitu\u00eddo pelo neoliberalismo. O indiv\u00edduo toma o lugar da sociedade. Os EUA, em decl\u00ednio, reivindicam a unipolaridade, e o trumpismo vitorioso \u00e9 a voz da &#8220;nova&#8221; ordem mundial: belicismo, intoler\u00e2ncia, expansionismo, avan\u00e7o do sionismo, nacionalismo excludente, racismo desabrido.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o de Hitler em 1933 foi alimentada pela crise econ\u00f4mica que chegara ao seu cl\u00edmax em 1930, mas foi facilitada pelo recuo da social-democracia. Doutrinariamente oportunista, essa corrente viu na ascens\u00e3o do futuro F\u00fchrer um meio de derrotar seus inimigos figadais: os comunistas. Hitler esmagou a ambos.<\/p>\n<p>O fracasso do governo de centro-esquerda (SPD) semeou o crescimento dos neonazistas nas elei\u00e7\u00f5es deste ano, assegurando \u00e0 AfD seu resultado mais expressivo desde sua funda\u00e7\u00e3o, em 2013, e garantindo o retorno da direita (CDU\/CSU) ao posto que Angela Merkel controlou durante dezesseis anos.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es alem\u00e3s expuseram, mais uma vez, o avan\u00e7o das for\u00e7as reacion\u00e1rias caminhando pelo terreno deixado livre pela esquerda tradicional.<\/p>\n<p>Quando um lado recua incondicionalmente e n\u00e3o como condi\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria para o ataque, esse movimento deixa de ser t\u00e1tico: cada recuo torna-se condicionante do pr\u00f3ximo. O outro lado, em contraste, negocia cada recuo seu; recua quando \u00e9 necess\u00e1rio, taticamente, para evitar ou minimizar perdas \u2013 ou ainda para tomar impulso e voltar a avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Quando as tropas russas de Kutouzov, na campanha de 1812, abriram caminho para o ingresso do ex\u00e9rcito napole\u00f4nico, n\u00e3o estavam de fato recuando, mas se preparando para uma ofensiva: a Batalha de Borodino. Derrotados no front de Stalingrado, em 1943, os ex\u00e9rcitos nazistas recuavam sob o peso da grande derrota. N\u00e3o era um recuo t\u00e1tico, desejado como artimanha, mas o fim da linha.<\/p>\n<p>Em 1938, no regresso a Londres ap\u00f3s o Acordo de Munique, Neville Chamberlain, primeiro-ministro brit\u00e2nico, declarava que a Europa havia conquistado a paz. Mas os fatos mostrariam que a capitula\u00e7\u00e3o do Reino Unido simplesmente oferecia mais tempo ao nazismo para preparar-se para a guerra. J\u00e1 no ano seguinte, a Alemanha avan\u00e7ava sobre os Sudetos, na ent\u00e3o Tchecoslov\u00e1quia. O que se seguiu \u00e9 conhecido.<\/p>\n<p>Nossa hist\u00f3ria tamb\u00e9m registra uma sucess\u00e3o de recuos aparentemente t\u00e1ticos que se converteram em derrotas estrat\u00e9gicas. Na contemporaneidade, \u00e9 exemplar o recuo das for\u00e7as progressistas em 1961, ao concordarem com a reforma constitucional negociada entre Tancredo Neves e os militares sediciosos, que esvaziava os poderes do presidente da Rep\u00fablica, quando a na\u00e7\u00e3o, de p\u00e9 e nas ruas, clamava por avan\u00e7o. Ali, com nosso recuo, come\u00e7ava a constru\u00e7\u00e3o do golpe de 1964 e o avan\u00e7o da direita comandado pelas baionetas.<\/p>\n<p>O crescimento da direita, onda que percorre o mundo, \u00e9 fruto da crise do capitalismo (como nos anos 1920-1940) somada ao desencanto das grandes massas com governos de esquerda e centro-esquerda que falham em resolver seus problemas. O quadro se agrava quando a esquerda abdica da luta concreta.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es alem\u00e3s, confirmando todos os progn\u00f3sticos, o fracasso do governo da social-democracia de Scholz foi o outro lado do assustador crescimento da direita, que agora chega tamb\u00e9m \u00e0 Am\u00e9rica do Sul e se instala confortavelmente entre n\u00f3s, alimentada pelos primeiros passos do trumpismo arrogante no governo do mais poderoso e belicoso imp\u00e9rio moderno. A direita de Friedrich Merz (CDU\/CSU) e Merkel (que governou entre 2005 e 2021) sagrou-se majorit\u00e1ria, com 28,6% dos votos, os quais, somados aos 20,8% conquistados pela direita fascista (AfD), totalizam 49% dos votos e das cadeiras no Parlamento. O nome do novo primeiro-ministro j\u00e1 foi anunciado: Friedrich Merz, l\u00edder da CDU.<\/p>\n<p>Se a grande vit\u00f3ria sorriu para a direita, o grande perdedor foi o SPD, partido da social-democracia, at\u00e9 aqui liderado por Olaf Scholz, que obteve apenas 16,4%, uma queda vertiginosa de 50% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00faltima elei\u00e7\u00e3o. Outro partido que perdeu subst\u00e2ncia eleitoral foi o Gr\u00fcne (Verdes), que mais definha quanto mais se aproxima da direita. Obteve 8,8% dos votos, uma queda de 38% em compara\u00e7\u00e3o com os n\u00fameros de 2021. Se somarmos os votos da direita tradicional (CDU\/CSU), liderada por Friedrich Merz (28,6%), aos votos dados \u00e0 extrema-direita neonazista da AfD, liderada por Alice Weidel (20,8%), vemos que 49,2% do eleitorado alem\u00e3o se alinhou com a direita e extrema-direita nesta elei\u00e7\u00e3o. A direita nazista obteve seus maiores ganhos na antiga RDA, e no Oeste da RFA, sua \u00e1rea mais pobre.<\/p>\n<p>Seria bom que a esquerda brasileira se pusesse a pensar sobre esses n\u00fameros.<\/p>\n<p>Entretanto, \u00e9 preciso registrar que a extrema-direita teve um grande salto: cresceu nada menos que 79,5% no apoio do eleitorado, dobrando sua bancada no Bundestag. E a esquerda? O Die Linke, apesar de possuir, ainda, uma pequena bancada, cresceu 41%. Ali\u00e1s, nesta elei\u00e7\u00e3o, cresceram apenas a extrema-direita (AfD) e a esquerda socialista (o citado Die Linke), ou seja, as for\u00e7as que n\u00e3o tomaram emprestado ao advers\u00e1rio seus programas.<\/p>\n<p>Entre n\u00f3s, o crescimento da direita \u2013 e, consequentemente, a crise das esquerdas \u2013 \u00e9 uma constante desde julho de 2013. Desde ent\u00e3o, a perplexidade domina as reflex\u00f5es. Em 2022, um grande arco de alian\u00e7as permitiu, com dificuldade, deter o avan\u00e7o do neofascismo com a elei\u00e7\u00e3o de Lula, mas n\u00e3o ofereceu meios para a constru\u00e7\u00e3o de uma maioria pol\u00edtica. E a intentona de janeiro de 2023 (ainda n\u00e3o totalmente desvelada) demonstra o n\u00edvel de infiltra\u00e7\u00e3o do extremismo de direita nas estruturas do Estado, a come\u00e7ar pelas for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es que garantiram o retorno de Lula \u00e0 Presid\u00eancia, o candidato da direita obteve, no segundo turno, 49,1% dos votos. A esquerda foi derrotada na maioria dos governos estaduais que disputou, perdeu nas elei\u00e7\u00f5es para a C\u00e2mara dos Deputados (80 cadeiras num coletivo de 513) e no Senado conquistou apenas seis das 27 em disputa. Assim, o governo nasce minorit\u00e1rio e ref\u00e9m de uma alian\u00e7a parlamentar conservadora, na qual fisiologismo \u00e9 mato. Esse arranjo instala, sem reforma constitucional e sem consulta \u00e0 soberania popular, um estranho &#8220;presidencialismo&#8221;, mais que mitigado, no qual o Congresso controla a governan\u00e7a por meio do controle da elabora\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento da Uni\u00e3o e da aplica\u00e7\u00e3o das verbas p\u00fablicas (pela qual n\u00e3o tem, contudo, qualquer responsabilidade) por um sistema esdr\u00faxulo de emendas.<\/p>\n<p>Limitado politicamente e condicionado pela maioria conservadora tanto do ponto de vista pol\u00edtico quanto program\u00e1tico, o nosso \u00e9 um governo ainda \u2013 ainda! \u2013 indefinido. N\u00e3o podendo ser um projeto de centro-esquerda, trata-se de um governo por ser \u2013 e cada vez mais pr\u00f3ximo de um pleito decisivo para os rumos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>As pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica registram a desaprova\u00e7\u00e3o do governo, a queda da popularidade de Lula e a ascend\u00eancia do pensamento de direita, que j\u00e1 se fazia sentir desde as elei\u00e7\u00f5es de 2018. Essas mesmas pesquisas (vide 163\u00aa Pesquisa CNT de Opini\u00e3o, 24\/02\/2025) mostram que 31,8% do eleitorado se declara de direita, 18,8% de esquerda e 16,3% &#8220;de centro, centro-direita e centro-esquerda&#8221;. Agora, s\u00e3o os n\u00fameros que exp\u00f5em a disputa que n\u00e3o conseguimos enfrentar: a batalha ideol\u00f3gica, a constru\u00e7\u00e3o de um pensamento pr\u00f3prio e a defesa de nossas teses.<\/p>\n<p>Uma das formas de ajudar o governo a sair das cordas \u00e9 a esquerda retomar o proselitismo e assumir a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Uma das formas de o governo ajudar a esquerda e o movimento democr\u00e1tico-progressista de um modo geral \u00e9 abandonar o taticismo est\u00e9ril, o enredamento numa governabilidade duvidosa, e construir um projeto estrat\u00e9gico claro. A experi\u00eancia mostra que jamais avan\u00e7amos \u2013 e jamais avan\u00e7aremos \u2013 governados no pensamento e na a\u00e7\u00e3o por um projeto de concilia\u00e7\u00e3o. Este tem sido o principal instrumento ideol\u00f3gico da classe dominante para a conserva\u00e7\u00e3o do statu quo, do qual depende sua sobreviv\u00eancia. Mas a esquerda deve ser, sempre, movimento, a\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre uma esperan\u00e7a. Desta vez, precisamos olhar para o fracasso da centro-esquerda alem\u00e3, considerar a ascens\u00e3o (embora severina) da esquerda socialista (buscando entend\u00ea-la), arrega\u00e7ar as mangas e focar no enfrentamento \u00e0 direita, com discurso e organiza\u00e7\u00e3o adequados.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia de Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os n\u00fameros das elei\u00e7\u00f5es parlamentares da Alemanha confirmam o cen\u00e1rio antevisto pela unanimidade dos analistas, t\u00e3o claras eram as evid\u00eancias do crescimento da extrema-direita e do neonazismo, que l\u00e1 floresceu para incendiar o mundo e construir uma era de horror. 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