{"id":349236,"date":"2025-03-03T06:56:45","date_gmt":"2025-03-03T09:56:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349236"},"modified":"2025-03-03T07:22:45","modified_gmt":"2025-03-03T10:22:45","slug":"olga-no-barco-a-deriva-escapa-de-naufragio-e-vai-encontrar-sua-turma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/olga-no-barco-a-deriva-escapa-de-naufragio-e-vai-encontrar-sua-turma\/","title":{"rendered":"Olga, no barco \u00e0 deriva escapa de naufr\u00e1gio e vai encontrar sua turma"},"content":{"rendered":"<p>\u201cTodo abismo \u00e9 naveg\u00e1vel a barquinhos de papel\u201d.<br \/>\n(<em>Desenredo<\/em>, Guimar\u00e3es Rosa)<\/p>\n<p>A rigor, n\u00e3o era um abismo. N\u00e3o para humanos. N\u00e3o passava de um rodamoinho espremido entre pedras, em um corguinho. Mas para Olga, a formiga, era um abismo sim, e dos cascudos.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando ela passeava, distra\u00edda, em uma folha de papel. De repente, sentiu que a folha era levantada, mexida, remexida, jogando-a de um lado para outro. N\u00e3o caiu no ch\u00e3o, esbarrava em eleva\u00e7\u00f5es na folha que, podia jurar, antes n\u00e3o estavam ali, pareciam ter surgido do nada.<\/p>\n<p>Olga escutou um som forte. Menos grave que um trov\u00e3o de tempestade, por\u00e9m mais pr\u00f3ximo. Olhou para cima e viu que parecia sair do focinho de um grand\u00e3o pequeno \u2013 um riso de crian\u00e7a, diria um observador isento.<\/p>\n<p>Ouviu sons incompreens\u00edveis:<\/p>\n<p>&#8211; O barco t\u00e1 pronto. Vamos colocar no riachinho.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, Luisinho.<\/p>\n<p>A formiguinha teve a sensa\u00e7\u00e3o de se deslocar pelo alto e, depois, de descer l\u00e1 de cima. Percebeu que a folha em que se encontrava estava na correnteza de um rio caudaloso \u2013 o c\u00f3rrego, traduziria o observador. E come\u00e7ou a navegar.<\/p>\n<p>Se Olga fosse portuguesa, e o barquinho de papel estivesse em \u00e1gua salgada, poderia chamar-se de \u201chero\u00edna do mar\u201d, parafraseando o belo hino lusitano. Mas o barco estava em um riacho (de \u00e1gua doce, claro), ela era brasileira de quatro costados e n\u00e3o se considerava absolutamente heroica. Nem mesmo uma audaz navegante \u2013 pegando carona em parte do t\u00edtulo de um conto de Guimar\u00e3es Rosa, o estudioso dos barquinhos de papel. N\u00e3o passava de um bichinho curioso, que se inclinava na borda da folha, quer dizer, do barco, para olhar a paisagem.<\/p>\n<p>\u201cEngra\u00e7ado, sempre achei que as flores ficassem quietas em seu lugar, s\u00f3 se movendo um pouco com o vento\u201d, pensou a navegante. \u201cMas n\u00e3o, elas deslizam r\u00e1pido na margem desse rio\u201d.<\/p>\n<p>Entregue a essas digress\u00f5es filos\u00f3ficas sobre a realidade e a apar\u00eancia das coisas, bem como sobre sua percep\u00e7\u00e3o a nossos sentidos, Olga n\u00e3o percebeu o mergulho do barco no rodamoinho assustador. As pedras castigaram a embarca\u00e7\u00e3o, que correu o risco de se desfazer. Mas, bem ou mal, confirmando a predi\u00e7\u00e3o roseana, conseguiu atingir, com sua ilustre passageira, um trecho de \u00e1guas mansas.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o barco fora seriamente atingido, e ali mesmo, no remanso, come\u00e7ou a se desfazer. \u201cQue bom, tudo est\u00e1 voltando ao normal\u201d, pensou a formiguinha, ao ver a folha retomar seu formato original (embora estivesse ensopada e afundando com rapidez). Olga tratou de deslizar para a \u00e1gua.<\/p>\n<p>Formigas n\u00e3o nadam, mas boiam que \u00e9 uma beleza. Foi o que fez o bichinho, impulsionando seu corpo com as seis pernas. Subiu pela margem e, j\u00e1 esquecida da viagem e das reflex\u00f5es sobre a realidade e a apar\u00eancia do mundo f\u00edsico, tratou de procurar sua turma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTodo abismo \u00e9 naveg\u00e1vel a barquinhos de papel\u201d. (Desenredo, Guimar\u00e3es Rosa) A rigor, n\u00e3o era um abismo. N\u00e3o para humanos. 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