{"id":349323,"date":"2025-03-05T01:34:52","date_gmt":"2025-03-05T04:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349323"},"modified":"2025-03-05T02:37:16","modified_gmt":"2025-03-05T05:37:16","slug":"xango-e-deuses-nordicos-livram-o-baiano-lucio-de-pesadelos-noturnos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/xango-e-deuses-nordicos-livram-o-baiano-lucio-de-pesadelos-noturnos\/","title":{"rendered":"Xang\u00f4 e deuses n\u00f3rdicos livram o baiano L\u00facio de pesadelos noturnos"},"content":{"rendered":"<p>O monstro apareceu de madrugada, quando Diego dormia profundamente. Uma criatura, literalmente, de pesadelo. Estava distante, ainda n\u00e3o dava para perceber seu focinho medonho, apenas o formato grotesco de seu corpanzil e leves efl\u00favios de sua aura maligna. Diego acordou aos gritos e n\u00e3o dormiu mais pelo resto daquela noite chuvosa em Salvador.<\/p>\n<p>Na madrugada seguinte, quase a mesma coisa. Agora, por\u00e9m, eram dois vultos monstruosos, diferentes entre si, mas igualmente apavorantes.<\/p>\n<p>Aproximavam-se devagar, mas de um modo que parecia inexor\u00e1vel. A aura maligna estava mais forte, seu odor de carni\u00e7a quase o fez vomitar.<\/p>\n<p>Bem cedo, t\u00e3o logo saiu do quarto, Diego correu para a igreja evang\u00e9lica que costumava frequentar. O pastor n\u00e3o o ajudou, limitou-se a repetir frases feitas do tipo \u201cO sangue de Jesus tem poder\u201d. Tem, ele acreditava nisso, era crist\u00e3o devoto \u2013 mas repetir essas palavras antes de dormir seria o suficiente para enfrentar monstros?<\/p>\n<p>Saindo da igreja, procurou ajuda m\u00e9dica. Nova decep\u00e7\u00e3o. O primeiro profissional a ser procurado simplesmente achou que ele estava fantasiando e o encaminhou a um colega, que lhe prescreveu um medicamento tarja-preta para \u201cdormir sem sonhos\u201d. Algo como remover o sof\u00e1 da sala para impedir um adult\u00e9rio. Felizmente, o terceiro m\u00e9dico consultado fez algo \u00fatil: o encaminhou a um analista.<\/p>\n<p>&#8211; Acho que ele \u00e9 junguiano \u2013 esclareceu o doutor. \u2013 Eles lidam com sonhos. Se ele n\u00e3o conseguir ajud\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>O subtexto era claro: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 lascado!\u201d<\/p>\n<p>O psic\u00f3logo analista (ou seja, junguiano) ouviu o relato e deve ter acreditado nele, pois observou:<\/p>\n<p>&#8211; A solu\u00e7\u00e3o para um ataque de pesadelo deve ser buscada no universo on\u00edrico. Convoque for\u00e7as protetoras para apoi\u00e1-lo, em seus sonhos.<\/p>\n<p>Diego n\u00e3o saiu muito convencido, mas uma passagem de Marcel Proust, no segundo volume do romance Em busca do tempo perdido, o convenceu a pelo menos tentar. Era a seguinte:<\/p>\n<p>\u201cSe um pouco de sonho \u00e9 perigoso, n\u00e3o \u00e9 menos sonho que h\u00e1 de cur\u00e1-lo, e sim mais sonho, todo o sonho.\u201d<\/p>\n<p>Diego tratou de seguir ao p\u00e9 da letra os conselhos do junguiano e do romancista. Convocou em seu aux\u00edlio os deuses do machado \u2013 o n\u00f3rdico Thor e Xang\u00f4, do pante\u00e3o iorub\u00e1 \u2013 e dois poderosos senhores da guerra com suas espadas de ferro: Ogum, do candombl\u00e9, e Ares, do Olimpo. Tratou de reverenci\u00e1-los com a queima de ervas rituais do candombl\u00e9. Sabia que n\u00e3o era a maneira adequada de atrair as vibra\u00e7\u00f5es de Ares e Thor, mas estava desesperado, n\u00e3o sabia o que fazer.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou a sonhar, as divindades n\u00e3o vieram. Os monstros sim, agora tr\u00eas, em marcha lenta mas inexor\u00e1vel. J\u00e1 distinguia o focinho de cada um, e o odor pavoroso \u2013 diferente em cada caso, todos semelhantes em sua malignidade \u2013 o fez vomitar.<\/p>\n<p>Diego acordou ao alvorecer, e passou o dia estranhamente calmo. Queimou as ervas rituais, mas tinha consci\u00eancia de que nada mais poderia fazer.<\/p>\n<p>Depois que adormecesse, os quatro monstros de pesadelo \u2013 tinha certeza de que j\u00e1 seriam quatro \u2013 se aproximariam mais e mais. Em poucas noites ele estaria ao alcance de suas garras imundas, come\u00e7ariam a feri-lo e em seguida dilacerariam seu psiquismo. Qual seria o efeito disso em seu corpo f\u00edsico? Tremeu s\u00f3 de pensar.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo come\u00e7ou a sonhar, os quatro monstros se aproximaram. E os quatro deuses tamb\u00e9m. Os dos machados esmagaram membros e cr\u00e2nios; os das espadas feriram mortalmente os que haviam sobrevivido ao choque inicial. Diego acompanhou todo o combate on\u00edrico. Depois, agradeceu de todo cora\u00e7\u00e3o a suas entidades protetoras e teve uma noite de sono tranquilo, sem pesadelos.<\/p>\n<p>Desde essa noite, ele se esfor\u00e7a por sonhar. Sonhar muito, sonhar sempre. Continua a se consultar com o psic\u00f3logo junguiano e rel\u00ea continuamente as palavras de Proust, que parecem dirigidas a ele:<\/p>\n<p>\u201cQuando um esp\u00edrito \u00e9 inclinado ao sonho, n\u00e3o devemos mant\u00ea-lo afastado deste (&#8230;). \u00c9 preciso conhecer inteiramente os nossos sonhos para n\u00e3o mais sofrer com eles (&#8230;).\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O monstro apareceu de madrugada, quando Diego dormia profundamente. Uma criatura, literalmente, de pesadelo. Estava distante, ainda n\u00e3o dava para perceber seu focinho medonho, apenas o formato grotesco de seu corpanzil e leves efl\u00favios de sua aura maligna. Diego acordou aos gritos e n\u00e3o dormiu mais pelo resto daquela noite chuvosa em Salvador. 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