{"id":349424,"date":"2025-03-06T04:03:03","date_gmt":"2025-03-06T07:03:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349424"},"modified":"2025-03-06T04:04:59","modified_gmt":"2025-03-06T07:04:59","slug":"chao-de-giz-e-metafora-de-paixao-que-transformou-o-chifre-em-uma-cancao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chao-de-giz-e-metafora-de-paixao-que-transformou-o-chifre-em-uma-cancao\/","title":{"rendered":"Ch\u00e3o de giz \u00e9 met\u00e1fora de paix\u00e3o que transformou o chifre em uma can\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Acabou o carnaval. Ent\u00e3o, feliz 2025. Sem fantasias, o Brasil est\u00e1 de volta \u00e0 normalidade. Eu tamb\u00e9m. \u00c0 luta. Carregada de verdades inquestion\u00e1veis, mas impublic\u00e1veis, a cultura popular nordestina est\u00e1 dividida entre o sol, o sert\u00e3o, a seca e a resist\u00eancia. No Nordeste, as quatro maiores verdades s\u00e3o o cuscuz est\u00e1 pronto, vem por forr\u00f3, d\u00e1-me um xero no cangote e l\u00e1 vem o corno. As tr\u00eas primeiras s\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvias como a presen\u00e7a de um fole no arrasta-p\u00e9 de S\u00e3o Jo\u00e3o. J\u00e1 a do corno me foi contada por um cabra macho nascido em Bunda, pitoresca e rotunda cidade da Tail\u00e2ndia. Nordestino adotivo, ele \u00e9 do tipo que acha prefer\u00edvel ser corno do que nunca ter chegado perto de uma gazela.<\/p>\n<p>Considerando que s\u00f3 tem chifre quem n\u00e3o papa direito (do verbo comer), at\u00e9 que a m\u00e1xima \u00e9 de alt\u00edssima relev\u00e2ncia. Considerandos \u00e0 parte, segundo o mach\u00e3o do agreste, existe um antigo costume no Nordeste para pegar o Ricard\u00e3o. \u00c0s vezes, Tonh\u00e3o, mas sempre o enlameador de honra. Sem delongas cornuc\u00f3pias, diz o amigo obscuro que, quando o corno quer saber se foi tra\u00eddo, ele espalha p\u00f3 de giz debaixo da janela do quarto do pagador. \u00c9 bater e valer, pois, ao deixar a masmorra er\u00f3tica alheia, o bonit\u00e3o do trem fumegante, do tipo chamin\u00e9, marca o piso com as pegadas, mas n\u00e3o interrompe o dever do gastador.<\/p>\n<p>A\u00ed n\u00e3o tem jeito. O chifre est\u00e1 posto. Com esse artif\u00edcio, pelo menos o corno n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo a saber. Admito a gargalhada do leitor. Todavia, alerto para n\u00e3o zoar do vizinho. Ele \u00e9 corno, mas \u00e9 seu amigo. Al\u00e9m disso, sugiro n\u00e3o zoar nenhum de seus vizinhos e amigos suspeitos. Afinal, como diz a campanha rural da TV Globo, corno \u00e9 agro, corno \u00e9 tec, corno \u00e9 top, corno \u00e9 tu. E da\u00ed? Quem n\u00e3o \u00e9 ou nunca foi? N\u00e3o \u00e9 demais lembrar que corno \u00e9 assim mesmo: tudo que v\u00ea quer ler. \u00c9 curioso at\u00e9 debaixo da cama.<\/p>\n<p>N\u00e3o gostei da brincadeira, mas foi o que consegui para iniciar o par\u00e1grafo cum um outro alerta: N\u00e3o subestime seu chifre. Um dia voc\u00ea ainda vai precisar dele. Na verdade, todos n\u00f3s. Falei <em>en passant<\/em> do santo que me confidenciou a hist\u00f3ria do giz, mas acho que devo contar seu milagre: ele \u00e9 o autor do p\u00f3 m\u00e1gico e capaz de descobrir chifres na cabe\u00e7a de pobres, ricos, covardes, mach\u00f5es e at\u00e9 de deputados e senadores. O cabra casou quatro vezes e levou chifre com as quatro esposas. Cansado do peso na cabe\u00e7a, procurou um marceneiro na cidade vizinha e encomendou uma mulher de madeira. Foram apenas seis meses de felicidade. Quase morreu de desgosto ao descobrir que o cupim estava comendo sua deusa.<\/p>\n<p>Pelo menos a hist\u00f3ria do giz debaixo da janela rendeu uma obra-prima musical carregada de met\u00e1foras. A descoberta n\u00e3o \u00e9 minha. N\u00e3o conhe\u00e7o a autoria, mas n\u00e3o posso escond\u00ea-la dos leitores de <strong>Notibras<\/strong>. O protagonista da hist\u00f3ria \u00e9 o cantor e compositor paraibano Z\u00e9 Ramalho, autor de Ch\u00e3o de giz. Aos 17 anos, estudante de medicina, ele se apaixonou perdidamente por uma mulher mais velha, muito rica e casada. Z\u00e9 tinha medo do p\u00f3 de giz, mas embarcou na aventura. O corno que se vire. Foi, foi e acabou fondo. Corria o risco da camisa de for\u00e7a, mas se deu bem com a camisa de v\u00eanus.<\/p>\n<p>Ao perceber que a paix\u00e3o poderia levar seu nome para a lama, a dondoca se evadiu antes de o caldo entornar. No fundo do po\u00e7o, o autor desandou nas met\u00e1foras. A primeira foi o piso em suposta homenagem ao nome da amada (talvez, Giza). Gr\u00e3o vizir era o marido poderoso. J\u00e1 o saquinho em que, ami\u00fade (repetidas vezes), escondia os recortes de jornais com fotos da socialite virou o pano de guardar confetes. Ao optar por n\u00e3o ser mais um cigarro na boca da mulher, o moleque d\u00e1 o grito de liberdade e diz: &#8220;No mais estou indo embora&#8230;&#8221; Bom ou ruim, aperreado ou arrochado, pelo menos o romance proibido de Z\u00e9 Ramalho com a rica\u00e7a me rendeu uma frase capaz de encerrar esta narrativa com alguma gra\u00e7a: Atr\u00e1s de um corno manso h\u00e1 sempre uma mulher feliz. Oxente! Arre-\u00e9gua! Sem fuleiragem, meu rei, essa hist\u00f3ria de corno n\u00e3o \u00e9 comigo. L\u00e1 ele.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabou o carnaval. Ent\u00e3o, feliz 2025. Sem fantasias, o Brasil est\u00e1 de volta \u00e0 normalidade. Eu tamb\u00e9m. \u00c0 luta. Carregada de verdades inquestion\u00e1veis, mas impublic\u00e1veis, a cultura popular nordestina est\u00e1 dividida entre o sol, o sert\u00e3o, a seca e a resist\u00eancia. 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