{"id":349568,"date":"2025-03-07T09:47:18","date_gmt":"2025-03-07T12:47:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349568"},"modified":"2025-03-07T09:49:22","modified_gmt":"2025-03-07T12:49:22","slug":"mascara-cai-na-visita-surpresa-da-namorada-ao-rapaz-coberto-de-farinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mascara-cai-na-visita-surpresa-da-namorada-ao-rapaz-coberto-de-farinha\/","title":{"rendered":"M\u00e1scara cai na visita surpresa da namorada ao rapaz coberto de farinha"},"content":{"rendered":"<p>\u2014 Vamos juntos l\u00e1, tio, deve ter havido alguma coisa, por isso ele n\u00e3o escreve, n\u00e3o responde&#8230; Vamos, se n\u00e3o, eu vou fazer greve de fome!<\/p>\n<p>E Clarinda punha-se a chorar, sentada em sua cama, cabe\u00e7a encostada no ombro da tia.<\/p>\n<p>O tio, de olhos complacentes, mirava aquela cena, com uma express\u00e3o de mais nada a fazer. Agoniava-o o desespero da sobrinha.<\/p>\n<p>Os acontecimentos se passavam na humilde habita\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, no sub\u00farbio carioca do Engenho de Dentro, h\u00e1 muitos anos. Numa pequena casa, com a frente ajardinada, moravam Afonso e C\u00e9lia, com a sobrinha Clarinda, que, \u00f3rf\u00e3 pequena, viera preencher a aus\u00eancia de filhos daquele casal.<\/p>\n<p>Clarinda havia come\u00e7ado a namorar um rapaz, 2.\u00ba Tenente do Ex\u00e9rcito, que conquistara a tia C\u00e9lia e toda a vizinhan\u00e7a. As mexeriqueiras da rua esticavam os pesco\u00e7os para fora da janela toda vez que o viam indo em dire\u00e7\u00e3o da casa da jovem Clarinda, para aquele namorinho de sof\u00e1, com direito a x\u00edcaras de caf\u00e9 e fatias de bolo. E a visita acabava, no m\u00e1ximo, \u00e0s dez da noite.<\/p>\n<p>Por vezes, vinha domingo de manh\u00e3, e acompanhava a fam\u00edlia na missa da igreja de S\u00e3o Jos\u00e9. Quem por ali passasse, veria aquele grupo, formado pelo casal apaixonado, seguido por tia C\u00e9lia, n\u00e3o raro de bra\u00e7o dado \u00e0 Gertrudes, uma vizinha bem idosa que era remotamente sua parenta, e, atr\u00e1s, de passo lento e olhar atento, o tio Afonso.<\/p>\n<p>Afonso fora o \u00fanico a quem os sorrisos e mesuras do 2.\u00ba Tenente \u2013 Aldo era o nome dele \u2013 n\u00e3o conquistaram. O velho tinha-lhe sempre o \u201cp\u00e9 atr\u00e1s\u201d, como uma vez dissera sua esposa. Por isso, nos eventuais sumi\u00e7os de Aldo, que de quando em vez se repetiam, n\u00e3o dava corda \u00e0s demandas da sobrinha, mas o desespero da jovem o consumia.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa estar, minha filha, ele aparece. Volta e meia ele some, mas sempre volta.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, tio, j\u00e1 s\u00e3o quase onze dias sem not\u00edcias. Ele pode ter sofrido um acidente, pode estar doente. Eu n\u00e3o consigo parar de pensar nele. Meu Aldo&#8230;<\/p>\n<p>E mais a jovem chorava, de solu\u00e7ar.<\/p>\n<p>Afonso e C\u00e9lia entreolharam-se como a dizer, silenciosamente, que algo deveria ser feito.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea me d\u00e1 o endere\u00e7o certinho dele, minha filha, amanh\u00e3 o tio vai l\u00e1 e tira isso a limpo. Em que quartel ele est\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei, tio. Ele falou vagamente sobre estar na Vila Militar, mas foi transferido. Nas \u00faltimas cartas que trocamos, as dele vieram com endere\u00e7o de Itacolomi.<\/p>\n<p>\u2014 Que estranho, ele \u00e9 do Ex\u00e9rcito ou da Aeron\u00e1utica?*<\/p>\n<p>\u2014 Ah, titio!<\/p>\n<p>Ficou acordado que, no dia seguinte, iriam Afonso e Clarinda diligenciar, em Itacolomi, o paradeiro de Aldo. E n\u00e3o houve quem demovesse a jovem da ideia de acompanhar o tio. Nem as recomenda\u00e7\u00f5es de C\u00e9lia:<\/p>\n<p>\u2014 Mas e se ele estiver doente, minha filha? Fica aqui comigo, o seu tio vai l\u00e1 e traz as not\u00edcias.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, titia. Eu quero ir junto. N\u00e3o posso mais esperar sem saber. E, se ele estiver doente, quero j\u00e1 fazer algo por ele.<\/p>\n<p>Era ainda cedo, umas 10 horas da manh\u00e3, quando a cena descrita se passou. Mas era domingo, e o transporte at\u00e9 as lonjuras de Itacolomi n\u00e3o era f\u00e1cil. Portanto, a expedi\u00e7\u00e3o ficou acertada para o dia seguinte, no qual at\u00e9 um t\u00e1xi se poderia contratar, e mais barato.<\/p>\n<p>Restou \u00e0 pobre Clarinda ficar sonhando acordada, o resto do dia, com o namorado que n\u00e3o chegava e n\u00e3o dava not\u00edcias. Ela se lembrava das vezes em que, debru\u00e7ada sobre a mureta entre o jardim da casa e a rua, divisava Aldo dobrar a esquina, de farda, vindo em sua dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o raro, cumprimentava as senhoras da vizinhan\u00e7a, e fazia qualquer gra\u00e7a com as crian\u00e7as sentadas, brincando, pr\u00f3ximas do meio-fio.<\/p>\n<p>E vinha com garbo e eleg\u00e2ncia, encher de luz e contentamento o sorriso da namorada.<\/p>\n<p>Invariavelmente tomava sua m\u00e3o ao chegar perto, beijava-a delicadamente, e dizia o quanto ficara com saudades.<\/p>\n<p>Entravam e deixavam-se ficar na sala, naquele id\u00edlio, mas sempre em companhia de Afonso, ou de C\u00e9lia. At\u00e9 a velha Gertrudes, eventualmente, vinha acompanh\u00e1-los.<\/p>\n<p>C\u00e9lia servia-lhe caf\u00e9, bolo e, quando vinha aos domingos, ficava para almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>Afonso, apesar do comportamento generoso da esposa e da sobrinha para com o tal 2.\u00ba Tenente, olhava-o de esguelha, de um jeito meio desabrido. Fixava-se bem nos detalhes. O bigodinho fino e louro, os tra\u00e7os de bilontra. Dava-lhe o benef\u00edcio da d\u00favida, mas tinha, como sempre, o \u201cp\u00e9 atr\u00e1s\u201d. Era-lhe inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>A noite passou por sobre o Engenho de Dentro e, na segunda-feira bem cedo, Clarinda, com a toillete impec\u00e1vel, j\u00e1 esperava o tio terminar de tomar o desjejum para sa\u00edrem. Ansiosa, apertava as m\u00e3os e, instintivamente, rezava. Ficara na esperan\u00e7a de uma visita inesperada, da chegada de not\u00edcias, ou mesmo de resposta ao telegrama que pusera nos Correios na quinta-feira anterior, \u00e0 tardinha. Mas nada&#8230; E a busca por Aldo em Itacolomi se revelava o \u00faltimo recurso.<\/p>\n<p>A dupla saiu de casa e, pr\u00f3ximo da esta\u00e7\u00e3o de trem, contrataram um t\u00e1xi a pre\u00e7o certo. Partiram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Ilha do Governador e, antes das dez horas da manh\u00e3, l\u00e1 j\u00e1 se encontravam, em demanda do endere\u00e7o gravado no envelope da mais recente carta.<\/p>\n<p>Clarinda nunca tivera informa\u00e7\u00f5es precisas sobre a vida do namorado. Sabia que, quando ele n\u00e3o estava no quartel, ficava na casa de uma tia-av\u00f3 que o criara e a quem muito ajudava. Tinha orgulho do valor que Aldo dava \u00e0 fam\u00edlia, pois assim provava ser bom rapaz.<\/p>\n<p>No endere\u00e7o, entretanto, n\u00e3o encontraram casa de fam\u00edlia, mas uma padaria. Afonso, curioso, checou duas vezes para saber se n\u00e3o se enganava e, deixando a sobrinha no t\u00e1xi, entrou no estabelecimento, perguntando ao homem no balc\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Bom dia, cavalheiro. O senhor conhece o 2.\u00ba Tenente Aldo?<\/p>\n<p>Com carregado sotaque lus\u00edada, o homem respondeu-lhe:<\/p>\n<p>\u2014 2.\u00ba Tenente? N\u00e3o conhe\u00e7o. Como o senhor disse que ele se chama?<\/p>\n<p>\u2014 Aldo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, ora pois, o Aldo. Sim, este eu conhe\u00e7o. Quer que v\u00e1 cham\u00e1-lo?<\/p>\n<p>\u2014 Por favor.<\/p>\n<p>O portugu\u00eas gritou aquele nome e, dos fundos da padaria, apareceu o rapaz. N\u00e3o envergava nenhuma farda do Ex\u00e9rcito, mas vinha de gorro e avental, todo sujo de farinha.<\/p>\n<p>\u2014 Mas o que \u00e9 isso? Clarinda, corra aqui, chamou o tio.<\/p>\n<p>A dupla, at\u00f4nita, olhava o 2.\u00ba Tenente tornado padeiro. Mais chocado ainda parecia Aldo, descoberto em sua farsa. Mas Clarinda nem lhe deu tempo de rea\u00e7\u00e3o e, atirando-se ao seu pesco\u00e7o com os longos bra\u00e7os e beijando-lhe as faces empoadas de trigo, caiu em prantos, agradecendo \u00e0 Virgem Maria por encontr\u00e1-lo vivo e com sa\u00fade.<\/p>\n<p>Afonso olhava a inimagin\u00e1vel cena, tamb\u00e9m n\u00e3o compreendida pelo portugu\u00eas que se conservava no balc\u00e3o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s alguns minutos de conversa, tudo ia se esclarecendo. Aldo era oficial&#8230; padeiro. Aprendera o of\u00edcio na \u00e9poca em que servira como soldado. N\u00e3o era tenente coisa nenhuma e empregara-se naquela padaria ao terminar o seu per\u00edodo no Ex\u00e9rcito. Morava numa casinha pr\u00f3xima, com a tia-av\u00f3 de quem falara. Inventara aquele romance todo para poder impressionar a namorada, pois se envergonhava de suas hum\u00edlimas origens.<\/p>\n<p>Internamente, Afonso gozava seu triunfo. No fundo, desconfiava de algo, e agora confirmava seu pressentimento. Aquele 2.\u00ba Tenente nunca lhe enganara.<\/p>\n<p>Contudo, a opini\u00e3o importante era a de Clarinda. E, ap\u00f3s ouvir a confiss\u00e3o do namorado, disse que n\u00e3o se importava, e que estava tudo bem. N\u00e3o ficara aborrecida, pois gostava mesmo dele, sem se preocupar com a profiss\u00e3o que exercia. O melhor de tudo \u00e9 que ele estava ali, justificando a falta de not\u00edcias e de visitas por causa do estado de sa\u00fade da tia-av\u00f3 que, ultimamente, andava preocupante.<\/p>\n<p>Mas foi a\u00ed que a dupla surpreendeu-se com a resposta do farsante.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, mas agora quem n\u00e3o te quer mais sou eu. Fiquei aborrecido com esta sua visita, viu? Assim de chofre, sem avisar&#8230; Eu queria ser seu namorado quando era tenente. Namorar voc\u00ea sendo padeiro, sinto muito, Clarinda, mas n\u00e3o me serve. N\u00e3o me serve. E est\u00e1 tudo acabado entre n\u00f3s.<\/p>\n<p><em>(*) \u2013 A Base A\u00e9rea do Gale\u00e3o, da Aeron\u00e1utica, foi instalada no bairro carioca da Ilha do Governador, em 1941. Tinha o nome de Itacolomi uma localidade pr\u00f3xima, desaparecida nos anos de 1960 para a constru\u00e7\u00e3o do aeroporto internacional do Gale\u00e3o, hoje chamado \u201cTom Jobim\u201d N. do A.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 Vamos juntos l\u00e1, tio, deve ter havido alguma coisa, por isso ele n\u00e3o escreve, n\u00e3o responde&#8230; Vamos, se n\u00e3o, eu vou fazer greve de fome! E Clarinda punha-se a chorar, sentada em sua cama, cabe\u00e7a encostada no ombro da tia. 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