{"id":349846,"date":"2025-03-11T07:28:46","date_gmt":"2025-03-11T10:28:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349846"},"modified":"2025-03-11T07:28:46","modified_gmt":"2025-03-11T10:28:46","slug":"historia-de-comadre-sabina-e-o-defunto-bide","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/historia-de-comadre-sabina-e-o-defunto-bide\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de comadre Sabina e o defunto Bide"},"content":{"rendered":"<p>Comadre Sabina era louca pelo marido, compadre Alceb\u00edades, vulgo Bide. O casal possu\u00eda oito herdeiros e, devido \u00e0 sa\u00fade n\u00e3o t\u00e3o boa do homem, que bebia muita pinga de alambique e fumava demais. A f\u00e1brica de filhos, todos meninos, parecia fechada h\u00e1 tempos, ainda mais porque o ca\u00e7ula j\u00e1 beirava os 13 anos.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia morava em um s\u00edtio em Luzi\u00e2nia, . Viviam uma vida dura, mas ningu\u00e9m reclamava, pois todos, logo cedo, aprenderam que aquilo era des\u00edgnio de Deus. Sem entendimento e tempo para pensar em contradit\u00f3rio, trabalhavam a terra antes mesmo dos primeiros raios matutinos. Enquanto os menores capinavam e plantavam, os maiores tratavam de tirar leite das parcas vacas, alimentar os porcos e as galinhas.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas dez horas, a trupe se recolhia para o alpendre, onde almo\u00e7avam o que produziam. Se tivesse arroz, comiam arroz, se tivesse feij\u00e3o, comiam feij\u00e3o, se tivesse ovo, comiam ovo, se tivesse carne, comiam carne, se tivesse legume ou verdura, era o que comiam. Ningu\u00e9m reclamava, pois a penit\u00eancia aos domingos seria severa, j\u00e1 que entendiam que esconder a verdade era o mesmo que mentir.<\/p>\n<p>Numa quarta-feira, quando o calor fazia o Cerrado querer rivalizar com o do Saara, Bide estava com os filhos ro\u00e7ando um terreno para fazer a planta\u00e7\u00e3o da \u00e9poca, o milho. Capina daqui, capina dali, mal dava tempo de tirar o chap\u00e9u para abanar o rosto ou enxugar o suor com o dorso da m\u00e3o. De repente, o homem tombou sobre a terra vermelha.<\/p>\n<p>\u2014 Pai, o sinh\u00f4 t\u00e1 bem?<\/p>\n<p>\u2014 Pai!<\/p>\n<p>\u2014 Pai!!<\/p>\n<p>\u2014 Pai!!!<\/p>\n<p>Nada do sujeito sequer mexer os olhos, que estavam revirados. Desesperados, os filhos carregaram o pai at\u00e9 debaixo do alpendre, onde o deitaram sobre a mesa. Sabina pegou um pano e uma bacia com \u00e1gua e come\u00e7ou a passar na testa do marido.<\/p>\n<p>\u2014 Joaquim, corre l\u00e1 no cumpadi Felismino!<\/p>\n<p>E l\u00e1 foi o primog\u00eanito at\u00e9 o s\u00edtio do vizinho, que era uma esp\u00e9cie de enfermeiro, m\u00e9dico, curandeiro e at\u00e9 veterin\u00e1rio da regi\u00e3o. J\u00e1 na porteira, o rapaz gritou para Felismino.<\/p>\n<p>\u2014 Padinho, acuda aqui, traga inje\u00e7\u00e3o pra aplicar no pai, ele caiu l\u00e1 na ro\u00e7a e parece dismaiado.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou, Felismino, munido com sua maleta de primeiros socorros, se fez presente diante do compadre Bide. O doutor mexeu daqui, mexeu dali, n\u00e3o sentiu nenhum dos sinais vitais, o que lhe deu certeza de que nada traria de volta o amigo. Mesmo assim, para ganhar tempo para contar a triste not\u00edcia para a fam\u00edlia, resolveu despejar um pouco de mistura de ervas entre os l\u00e1bios do defunto.<\/p>\n<p>Aguardou mais alguns minutos, at\u00e9 que viu que n\u00e3o tinha escapat\u00f3ria. Cada um carrega sua cruz, e a dele, naquele momento, era revelar que Bide j\u00e1 n\u00e3o estava entre os vivos.<\/p>\n<p>\u2014 Cumadi, meninos, o cumpadi foi se encontrar com Deus.<\/p>\n<p>Foi aquele choror\u00f4 geral. Momento de tanta emo\u00e7\u00e3o, comadre Sabina desmaiou. At\u00e9 compadre Felismino, tipo acostumado \u00e0s brutalidades da vida, ficou tocado ao ver o amigo de tantos anos sem vida, os filhos entregues ao desespero. Haja cora\u00e7\u00e3o para tamb\u00e9m n\u00e3o sucumbir.<\/p>\n<p>Joaquim, homem feito que era, logo montou no cavalo e saiu pela redondeza para avisar que o pai havia falecido. Momentos depois, a casa come\u00e7ou a encher de gente. As mulheres na cozinha preparavam a comida, enquanto os homens foram providenciar madeira para fazer o caix\u00e3o. O morto jazia numa cama de solteiro, que fora colocada na sala.<\/p>\n<p>Sabina, j\u00e1 recuperada do desmaio, chorava sem parar. Lam\u00farias pela d\u00favida do futuro.<\/p>\n<p>\u2014 O que vou fazer agora sem o meu Bide? T\u00f4 sozinha com oito filhos pra criar.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltaram palavras de conforto.<\/p>\n<p>\u2014 Cumadi, gra\u00e7as a Deus, seus filhos t\u00e3o tudo criado, n\u00e3o tem nenhuma crian\u00e7a mais.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 verdade, cumadi Sabina. Seus filhos v\u00e3o te ajudar, eles v\u00e3o cuidar da lavoura, da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 era final de tarde quando o caix\u00e3o ficou pronto, coberto por um tecido roxo brilhoso. Arrumaram o morto de tal maneira, que at\u00e9 a vi\u00fava pareceu satisfeita.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 que o meu Bide t\u00e1 bonito dentro do caix\u00e3o.<\/p>\n<p>O corpo foi velado durante toda a noite, enquanto uma chuva torrencial caiu sobre a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 vendo, cumadi Sabina? At\u00e9 Deus t\u00e1 chorando por causa do cumpadi.<\/p>\n<p>Sabina, olhos marejados, concordava com a cabe\u00e7a, enquanto se agarrava ao corpo do marido.<\/p>\n<p>J\u00e1 amanhecendo, a chuva parou. Os homens foram abrir a sepultura no cemit\u00e9rio da regi\u00e3o, que ficava a duas l\u00e9guas do s\u00edtio. \u00c0s onze horas, saiu o cortejo f\u00fanebre. Sabina precisou ser puxada pelos filhos para apressar o passo, pois a \u00faltima coisa que a mulher queria era enterrar seu amado Bide.<\/p>\n<p>J\u00e1 no cemit\u00e9rio, as mulheres fizeram as \u00faltimas rezas, enquanto o caix\u00e3o foi depositado na cova. Sabina entrou em desespero e precisou ser segurada pelos presentes.<\/p>\n<p>\u2014 Bide, meu amor, me leva com voc\u00ea! N\u00e3o vou aguentar ficar aqui sem voc\u00ea! Me leva junto, por favor!<\/p>\n<p>Nisso, a terra ao redor da sepultura, que estava molhada, afundou um pouco e l\u00e1 foi a vi\u00fava cair em cima do caix\u00e3o. Quando a mulher percebeu onde estava, entrou em desespero.<\/p>\n<p>\u2014 Pelo amor de Deus, me tire daqui! Os meus filhos n\u00e3o podem ficar sem pai e sem m\u00e3e. Me tirem daqui! Cruz-credo!<\/p>\n<p>Os homens, que estavam mais perto, pularam em cima do caix\u00e3o, que deu um estalo. Tiraram a comadre Sabina l\u00e1 de dentro. A vi\u00fava, assim que se viu fora da cova, nem esperou que enterrasse o marido. Saiu correndo para casa.<\/p>\n<p>Aquele teatro virou piada por muitos quil\u00f4metros ao redor. At\u00e9 os mais pr\u00f3ximos sorriam \u00e0s escondidas, apesar de compadecidos com a dor de Sabina. E, ap\u00f3s quase um ano do enterro, compadre Felismino foi tomar caf\u00e9 no s\u00edtio da vi\u00fava.<\/p>\n<p>\u2014 E a\u00ed, cumadi, a senhora queria ir embora com o cumpadi Bide, mas na \u00faltima hora desistiu.<\/p>\n<p>\u2014 Cruz-credo, cumpadi! Naquela hora que ca\u00ed naquela sepultura, me gelei toda, meus ossos endureceram. Aquilo num \u00e9 lugar pra vivo, n\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"mvp-post-soc-in\">\n<div id=\"mvp-content-body\" class=\"left relative\">\n<div id=\"mvp-content-body-top\" class=\"left relative\">\n<div id=\"mvp-content-main\" class=\"left relative\">\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro 57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/15.0.3\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comadre Sabina era louca pelo marido, compadre Alceb\u00edades, vulgo Bide. 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