{"id":349939,"date":"2025-03-12T06:27:43","date_gmt":"2025-03-12T09:27:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=349939"},"modified":"2025-03-12T06:27:43","modified_gmt":"2025-03-12T09:27:43","slug":"misterio-do-morto-em-escadaria-da-igreja-mexe-com-povo-de-maranguape","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/misterio-do-morto-em-escadaria-da-igreja-mexe-com-povo-de-maranguape\/","title":{"rendered":"Mist\u00e9rio do morto em escadaria da igreja mexe com povo de Maranguape"},"content":{"rendered":"<p>Maranguape amanheceu alvoro\u00e7ada. Bem aos p\u00e9s da escadaria da Igreja Matriz, jazia um corpo estatelado em dec\u00fabito dorsal. O problema maior n\u00e3o era apenas o falecido em si, mas o fato de que ningu\u00e9m na cidade o conhecia. Nem mesmo dona Cleonice, que sabia at\u00e9 o nome dos parentes de quinto grau de qualquer morador.<\/p>\n<p>O delegado Severino, acostumado a prender cabrito fuj\u00e3o e apaziguar briga de compadres, co\u00e7ava a cabe\u00e7a sem saber o que fazer. A cidade inteira opinava. Uns diziam que era um viajante, outros apostavam que era um forasteiro com inten\u00e7\u00f5es duvidosas. A teoria mais aceita era que se tratava de um alien\u00edgena disfar\u00e7ado, perdido ap\u00f3s uma tentativa de abdu\u00e7\u00e3o malsucedida.<\/p>\n<p>Diante do impasse, algu\u00e9m sugeriu chamar Xerloque Rolmes, o detetive mais astuto da regi\u00e3o (e que, por coincid\u00eancia, atendia pelo nome de Arimateia e vendia pastel na feira quando n\u00e3o estava investigando). Ele mediu o morto de todos os \u00e2ngulos, cofiou o bigode e decretou: \u201cO caso \u00e9 enigm\u00e1tico! Esse cabra n\u00e3o \u00e9 daqui. Mas, como veio parar aqui? E por que de barriga pra cima? Mist\u00e9rio, mist\u00e9rio&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m soube responder.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que um estudante, jovem sabido que lia at\u00e9 bula de rem\u00e9dio por passatempo, lembrou-se de uma recomenda\u00e7\u00e3o sagrada:<\/p>\n<p>\u201cQuando a d\u00favida for grande, consulte Padre C\u00edcero\u201d.<\/p>\n<p>Com essa luz divina, foi at\u00e9 Juazeiro pedir conselho. O santo homem, ap\u00f3s ouvir a hist\u00f3ria, pensou, pensou e respondeu com a serenidade de quem j\u00e1 viu de tudo:<\/p>\n<p>\u201cProcure o Professor Raimundo Nonato. Somente ele, do alto de sua sapi\u00eancia, poder\u00e1 esclarecer esse enigma\u201d. Esse aluno atendia pelo nome de Aldemar Vig\u00e1rio.<\/p>\n<p>Foi justamente no momento da maior da confus\u00e3o, que o bajulador oficial da cidade, com aquele sorriso exagerado e as m\u00e3os gesticulando sem parar, surgiu correndo pela pra\u00e7a. Assim que avistou o professor Raimundo, abriu os bra\u00e7os e disparou, em tom melodram\u00e1tico:<\/p>\n<p>\u2014 Quem, quem, quem \u00e9 o maior g\u00eanio desse Brasil, dessa Am\u00e9rica Latina, desse universo?!<\/p>\n<p>Antes que algu\u00e9m respondesse, ele mesmo continuou:<\/p>\n<p>\u2014 Raimundinho! O nosso professor Raimundo Nonato! O homem de maior cabe\u00e7a, maior c\u00e9rebro e maior intelig\u00eancia de toda a na\u00e7\u00e3o nordestina, brasileira e interplanet\u00e1ria! S\u00f3 ele para elucidar o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>O professor Raimundo, acostumado com os exageros do vigarista mais puxa-saco da hist\u00f3ria, suspirou, ajeitou os \u00f3culos e rebateu:<\/p>\n<p>\u2014 \u00d4, Aldemar, larga de conversa fiada, sen\u00e3o essa tua l\u00edngua cresce mais que minha testa!<\/p>\n<p>Introspectivos, reuniram-se todos na escolinha do Professor Raimundo. Com a paci\u00eancia de um monge e a pose de um grande s\u00e1bio, ele ouviu as mais diferentes teorias e, depois de um longo sil\u00eancio, disparou:<\/p>\n<p>\u2014 Mas que coisa, hein?! E o sal\u00e1rio, \u00f3&#8230;<\/p>\n<p>A cidade inteira esperou uma resposta mais cient\u00edfica, mas ele apenas co\u00e7ou a cabe\u00e7a e se virou para Seu Boneco:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea, que j\u00e1 foi preso v\u00e1rias vezes, tem alguma pista?<\/p>\n<p>\u2014 Eu?! Eu n\u00e3o sei de nada, professor! S\u00f3 sei que&#8230; eu quero \u00e9 dinheiro!<\/p>\n<p>Dona Cacilda, sem paci\u00eancia, gritou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, e agora? Como a gente vai resolver isso?<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Rolando Lero levantou o dedo e come\u00e7ou:<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, vejamos, raciocinemos! Se o senhor me permite, meu ilustr\u00edssimo professor, meu mentor, minha luz&#8230; eu tenho uma teoria que pode esclarecer esse evento de forma cabal e irrefut\u00e1vel!<\/p>\n<p>\u2014 Fale logo, criatura! \u2014 ralhou o professor.<\/p>\n<p>\u2014 Elementar, meu caro mestre! O defunto caiu ali porque estava subindo a escada! Ou seja, se ele caiu, \u00e9 porque estava em p\u00e9 antes de cair! Se estava em p\u00e9, \u00e9 porque estava vivo! O que nos leva \u00e0 conclus\u00e3o inescap\u00e1vel de que&#8230; ele morreu porque&#8230; bem&#8230; morreu!<\/p>\n<p>O professor Raimundo, ladeado por seus inusitados alunos, escutou atentamente o relato. Ap\u00f3s ajustar os \u00f3culos na ponta do nariz e bater com a r\u00e9gua na mesa, exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Mas que pouca vergonha \u00e9 essa?! Isso n\u00e3o \u00e9 mist\u00e9rio, \u00e9 quest\u00e3o de l\u00f3gica!<\/p>\n<p>A classe inteira ficou em sil\u00eancio, aguardando a revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Esse homem n\u00e3o caiu da escadaria, n\u00e3o foi v\u00edtima de crime e nem um ser do al\u00e9m! Isso \u00e9 caso de estudante universit\u00e1rio que bebeu fiado e desmaiou antes de pagar a conta!<\/p>\n<p>A multid\u00e3o ficou boquiaberta com tamanha sagacidade. O detetive Xerloque Rolmes tirou o chap\u00e9u em rever\u00eancia. Padre C\u00edcero, de onde estava, acenou com um leve sorriso. E a pol\u00edcia, aliviada, seguiu para o bar da esquina para averiguar os fiados pendurados.<\/p>\n<p>Enquanto isso, l\u00e1 aos p\u00e9s da escadaria, o \u201ccad\u00e1ver\u201d abriu um olho, bocejou e, co\u00e7ando a barriga, perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 E a\u00ed, j\u00e1 deu a hora do almo\u00e7o?<\/p>\n<p>E assim, mais um mist\u00e9rio foi resolvido com muito bom humor e um toque de genialidade nordestina.<\/p>\n<p>O estudante escafedeu-se. Sua identidade foi mantida no anonimato, mas sua l\u00e1pide manteve-se devidamente afixada no cemit\u00e9rio desenhado na lousa da sala de aula.<\/p>\n<p>\u2014 E o sal\u00e1rio, \u00f3&#8230; repetiu Raimundo, ao retirar-se, piscando um dos seus olhos maliciosos.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 Diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maranguape amanheceu alvoro\u00e7ada. Bem aos p\u00e9s da escadaria da Igreja Matriz, jazia um corpo estatelado em dec\u00fabito dorsal. O problema maior n\u00e3o era apenas o falecido em si, mas o fato de que ningu\u00e9m na cidade o conhecia. Nem mesmo dona Cleonice, que sabia at\u00e9 o nome dos parentes de quinto grau de qualquer morador. 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