{"id":350024,"date":"2025-03-13T02:28:01","date_gmt":"2025-03-13T05:28:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350024"},"modified":"2025-03-13T04:32:07","modified_gmt":"2025-03-13T07:32:07","slug":"do-sertao-paraibano-para-sampa-altiva-ate-o-alzheimer-consumir-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/do-sertao-paraibano-para-sampa-altiva-ate-o-alzheimer-consumir-tudo\/","title":{"rendered":"Do Sert\u00e3o paraibano para Sampa, altiva, at\u00e9 o Alzheimer consumir tudo"},"content":{"rendered":"<p>Santa ela nunca foi. Inocente sim, quando pequenininha. Mas nasceu num 28 de dezembro, dia dos santos inocentes, ent\u00e3o, em certa medida, era as duas coisas. Seu nome era Elaine, nascida em Souza, no ser\u00e3o da Para\u00edba, uma das flores da Abril Cultural, reduto da intelligentsia e da malemolentsia paulistanas. E todos a chamavam de Ela.<\/p>\n<p>Rafael, o Rafa, conheceu Ela na segunda metade dos anos 70, nos corredores da Cultural \u2013 e nos muitos bares das redondezas. Viveram uma paix\u00e3o t\u00f3rrida, que durou poucos meses e depois encruou. Mas ficaram amigos. Pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos, am\u00e9m.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o tempo \u00e9 uma pantera impiedosa, e o Alzheimer, uma hiena faminta que devora restos de mem\u00f3rias e de sonhos. Foi o que aconteceu aos dois.<\/p>\n<p>Rafa tornou-se um velho aposentado rabugento, ex-editor, ex-redator, ex-preparador de textos mas ainda revisor e tradutor em frilas cada vez mais escassos e mal pagos. E Ela come\u00e7ou a esquecer. Em um de seus anivers\u00e1rios, quando ainda conversava, contou que a filha tinha visitado aquele pa\u00eds, aquele&#8230; e perguntou a Rafa:<\/p>\n<p>&#8211; Como chama aquele pa\u00eds em que as pessoas vivem cantando? \u2013 e abriu os bra\u00e7os operisticamente.<\/p>\n<p>&#8211; It\u00e1lia? \u2013 Rafa chutou.<\/p>\n<p>&#8211; Isso!<\/p>\n<p>A coisa se repetiu v\u00e1rias vezes no almo\u00e7o, a ponto de Rafa brincar que estava camboneando Ela.<\/p>\n<p>Ele percebeu a gravidade do problema quando uma tarde, ao visit\u00e1-la, sa\u00edram para passear. De repente, Ela perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Na Cultural eu n\u00e3o tinha medo de nada, n\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Ela, voc\u00ea era uma for\u00e7a da natureza. E ainda \u00e9.<\/p>\n<p>&#8211; Homi (um de seus bord\u00f5es, era ex\u00edmia criadora de), s\u00f4 mais n\u00e3o. Agora tenho medo de tudo.<\/p>\n<p>Com o agravamento do Alzheimer, os contatos se reduziram a almo\u00e7os de anivers\u00e1rio, que a filha de Ela organizava, no dia dos santinhos sem no\u00e7\u00e3o. Os muitos amigos de Ela faziam quest\u00e3o de visit\u00e1-la e aprenderam as regras do jogo: n\u00e3o esperar conversas divertidas, antes a marca registrada de Ela, s\u00f3 transmitir carinho. E usufruir sua presen\u00e7a, enquanto desse.<\/p>\n<p>Foi no \u00faltimo 28 de dezembro que Ela levou Rafa ao cinema.<\/p>\n<p>O anivers\u00e1rio correu como de costume. \u00d3tima comida, reencontro de amigos que h\u00e1 muito n\u00e3o se viam, muito amor manifestado para Ela. Que estava im\u00f3vel, o rosto impass\u00edvel. Havia uma nova regra do jogo: falar olhando para ela, em linha reta, como se estivessem nos lados opostos de um telesc\u00f3pio. Do contr\u00e1rio, nem percebia o interlocutor.<\/p>\n<p>Rafa n\u00e3o se preocupou muito com isso, sabia que conversar n\u00e3o levaria a muita coisa. Chegou junto a ela, deu-lhe um beijo na testa, falou, \u201cE a\u00ed cumadi\u201d?, e acariciou-lhe o bra\u00e7o. Uns 15 minutos depois afastou-se, dando lugar a outros que tamb\u00e9m queriam acarinh\u00e1-la.<\/p>\n<p>E a\u00ed percebeu que o telesc\u00f3pio de Ela estava cravado nele. Era como se estivesse querendo dizer alguma coisa s\u00f3 pra ele. Achou que era impress\u00e3o, deu mentalmente de ombros, e desviou-se da mira telesc\u00f3pica.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas tantas, quando Rafa conversava com alguns amigos na varanda, Ela aproximou-se do grupo. Ou melhor, aproximou-se dele, o telesc\u00f3pio fixo em seus olhos. Rafa sustentou o olhar, e notou algumas coisinhas.<\/p>\n<p>Primeira, o sorriso monalisesco que mal movia os m\u00fasculos do rosto de Ela estava mais aberto, mais rasgado. Segunda, ela baixava e subia as sobrancelhas, sempre olhando fixo para ele.<\/p>\n<p>\u201cEla est\u00e1 mesmo querendo me transmitir alguma coisa\u201d, pensou.<\/p>\n<p>Pouco depois, ela tomou a iniciativa de dizer:<\/p>\n<p>&#8211; O senhor \u00e9 um cara muito legal&#8230; \u2013 e continuou com o jogo de sobrancelhas.<\/p>\n<p>Era legal ser chamado de cara legal, do\u00eda pra ded\u00e9u ser chamado de senhor. Mas Rafa entrou no jogo.<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado, a senhora tamb\u00e9m \u00e9 muito legal \u2013 e sorriu. Logo em seguida percebeu um pedido insistente, baixinho, transmitido sem palavras:<\/p>\n<p>\u201cDeixa eu entrar&#8230; deixa eu entrar!\u201d<\/p>\n<p>\u201cPode entrar, cumadi\u201d, transmitiu ele em resposta, depois do susto.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o mental veio n\u00edtida.<\/p>\n<p>\u201cNada de perguntas se eu parar para pensar numa resposta esque\u00e7o tudo vou mostrar ao senhor o que estou vendo vejo sempre\u201d.<\/p>\n<p>E surgiu a imagem de uma reda\u00e7\u00e3o da Abril Cultural, com figuras min\u00fasculas, como se a cena se passasse na telona ou na telinha. Estavam produzindo textos, conversando, flertando&#8230; Rafa conhecia todos e todas, claro que ele e Ela estavam presentes.<\/p>\n<p>E a\u00ed caiu a ficha: n\u00e3o era uma mem\u00f3ria, os dois nunca haviam trabalhado na mesma reda\u00e7\u00e3o. Era uma esp\u00e9cie de presente dos deuses, para tornar mais amena uma vida sem lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Logo depois a cena mudou, e v\u00e1rios dos personagens do filme anterior apareceram num barzinho, em uma mesa cheia de garrafas de cerveja, todos rindo, alguns se pegando. Havia at\u00e9 abst\u00eamios, que fugiam do \u00e1lcool como o diabo foge da cruz, mas todos eram amigos de Ela.<\/p>\n<p>Contendo a ansiedade, Rafa esperou o pr\u00f3ximo filme. Nesse momento, por\u00e9m, uma vizinha sem no\u00e7\u00e3o virou o rosto de Ela em sua dire\u00e7\u00e3o, perguntou \u201cLembra de mim?\u201d e ficou \u00e0 espera da resposta.<\/p>\n<p>As imagens sumiram todas. Ela talvez tenha notado, talvez n\u00e3o, e se importado ou n\u00e3o. Rafa, por\u00e9m, notou, se importou, e ficou triste.<\/p>\n<p>Enquanto voltava para casa, prometeu a si mesmo:<\/p>\n<p>\u201cNo pr\u00f3ximo dia dos santos abestados, se eu e Ela estivermos vivos e a filha me convidar para o almo\u00e7o de anivers\u00e1rio, vou com uma roup\u00edcia mais caprichada. Afinal, \u00e9 preciso estar apresent\u00e1vel para levar uma senhora muito legal ao cinema!\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santa ela nunca foi. Inocente sim, quando pequenininha. Mas nasceu num 28 de dezembro, dia dos santos inocentes, ent\u00e3o, em certa medida, era as duas coisas. Seu nome era Elaine, nascida em Souza, no ser\u00e3o da Para\u00edba, uma das flores da Abril Cultural, reduto da intelligentsia e da malemolentsia paulistanas. 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