{"id":350304,"date":"2025-03-18T09:38:37","date_gmt":"2025-03-18T12:38:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350304"},"modified":"2025-03-18T09:56:40","modified_gmt":"2025-03-18T12:56:40","slug":"quando-a-caca-exausta-deixa-o-presidio-e-vira-cacador-sagaz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-a-caca-exausta-deixa-o-presidio-e-vira-cacador-sagaz\/","title":{"rendered":"Quando a ca\u00e7a, exausta, deixa o pres\u00eddio e vira ca\u00e7ador sagaz"},"content":{"rendered":"<p>Guilherme foi uma das pessoas mais interessantes que Fernando conheceu em sua vida. Ele o viu pela primeira vez nos anos 1980, quando o regime militar estrebuchava; militante ardoroso contra a ditadura, Gui estava rec\u00e9m-sa\u00eddo da cadeia, onde passara 3 anos.<\/p>\n<p>Fisicamente, ele lembrava um anjinho barroco que tivesse adolescido e chegado \u00e0 juventude. Era gordinho, de estatura m\u00e9dia e cabelos crespos.<\/p>\n<p>O tra\u00e7o mais marcante eram as bochechas, vermelhinhas, como se ele tivesse aplicado rouge. Conversar com Gui era uma del\u00edcia e uma aventura intelectual. Ideias ousadas se entrela\u00e7avam a observa\u00e7\u00f5es espirituosas, num encadeamento vertiginoso, de perder o f\u00f4lego. Gui e F\u00ea, como se chamavam, passavam horas papeando, sobre pol\u00edtica, literatura, cinema, futebol, mulheres, tanto fazia. Era sempre desafiador e gratificante.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, F\u00ea e outros amigos conclu\u00edram, com uma pitada de inveja, que, dentre todos eles, Gui era o mais brilhante, aquele que iria deixar marcas mais fundas no seu tempo. Talvez como jornalista, a profiss\u00e3o de F\u00ea e de v\u00e1rios outros; talvez como escritor, professor universit\u00e1rio ou quadro pol\u00edtico. Bastava esperar e conferir.<\/p>\n<p>Gui, por\u00e9m, parecia n\u00e3o ter a menor pressa. N\u00e3o procurava emprego, vivia com pouqu\u00edssima grana, deixava sua criatividade escoar pelas mesas dos bares paulistanos. Era como se, depois de uma pris\u00e3o sombria, precisasse aquecer-se ao sol da liberdade, sem assumir compromisso algum, profissional, afetivo ou mesmo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas a criatividade sempre acaba por abrir um caminho para se expressar, e as contribui\u00e7\u00f5es de Gui para a cultura da capital paulista despontaram nos primeiros anos da Nova Rep\u00fablica. Foram an\u00f4nimas, e ele jamais lhes assumiu a autoria.<\/p>\n<p>Isso levou alguns filhos de uma \u00e9gua a sustentar que n\u00e3o podiam ser dele, qualquer um com um m\u00ednimo de consci\u00eancia de seu valor teria proclamado com orgulho a paternidade da coisa. Ainda assim, contrariando esses c\u00e9ticos mal-intencionados, os que o conheciam melhor afirmam que tamanha ousadia mesclada a um humor t\u00e3o ferino s\u00f3 poderia ser fruto do esp\u00edrito livre de Gui. Analistas de pinturas, que identificam em telas sem assinatura o estilo de composi\u00e7\u00e3o, as misturas de pigmentos e mesmo o ritmo das pinceladas caracter\u00edsticas de determinado artista, agem de modo n\u00e3o muito diferente.<\/p>\n<p>A primeira obra-prima apareceu certa noite, em alguns muros paulistanos. Neles foi pichada, em letras garrafais, a frase \u201cD\u00ea o cu\u201d. E logo abaixo, em letras um pouco menores, a segunda estrofe: \u201cN\u00e3o d\u00e1 chabu\u201d.<\/p>\n<p>Era uma rima, talvez uma solu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o para Gui: ele era h\u00e9tero de carteirinha. Depois de 3 anos de seca na pris\u00e3o, sa\u00edra matando cachorro a grito, dando bom dia a cavalo, disposto a pegar geral, a passar na cara toda a mulherada. Os anos de liberdade n\u00e3o lhe diminu\u00edram o apetite pelo fuzu\u00ea, muito ao contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>De qualquer modo, era uma evid\u00eancia material de criatividade, e os mais chegados reconheceram, na picha\u00e7\u00e3o, a caligrafia de Gui. Ou afirmaram reconhecer, o que n\u00e3o altera coisa alguma nesta hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A segunda obra-prima, ainda mais mordaz que a primeira, surgiu semanas depois. Dessa feita, o autor inspirou-se em uma propaganda habitualmente encontrada no exterior das pens\u00f5es mais humildes. N\u00e3o sei se a frase ainda \u00e9 encontrada nas portas ou nas janelas desses estabelecimentos, escrita \u00e0 m\u00e3o em pequenas t\u00e1buas de madeira ou em simples peda\u00e7os de papel\u00e3o; o fato foi que, certa manh\u00e3, os muros de diversos cemit\u00e9rios da cidade ostentavam a inscri\u00e7\u00e3o pra l\u00e1 de maldosa:<\/p>\n<p>\u201cVagas para rapazes\u201d.<\/p>\n<p>Foi s\u00f3 isso. N\u00e3o se conhecem outras cria\u00e7\u00f5es de Guilherme, que, diga-se, subitamente desapareceu da movida paulistana. Ningu\u00e9m sabe se est\u00e1 no exterior, em outro estado, ou se pura e simplesmente morreu \u2013 ou melhor, foi ocupar sua vaga. No entanto, quando Fernando se re\u00fane com os amigos remanescentes (todos idosos, alguns j\u00e1 bateram as botas), l\u00e1 pelas tantas algu\u00e9m sempre pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; E o Gui?<\/p>\n<p>A rigor, n\u00e3o \u00e9 uma pergunta, n\u00e3o se pretende saber se algu\u00e9m teve not\u00edcias dele, \u00e9 claro que n\u00e3o. Trata-se antes, de uma homenagem, do pretexto para um brinde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme foi uma das pessoas mais interessantes que Fernando conheceu em sua vida. Ele o viu pela primeira vez nos anos 1980, quando o regime militar estrebuchava; militante ardoroso contra a ditadura, Gui estava rec\u00e9m-sa\u00eddo da cadeia, onde passara 3 anos. 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