{"id":350342,"date":"2025-03-19T08:44:28","date_gmt":"2025-03-19T11:44:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350342"},"modified":"2025-03-19T08:45:43","modified_gmt":"2025-03-19T11:45:43","slug":"um-bocadinho-de-prosa-com-marcela-hallack","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-bocadinho-de-prosa-com-marcela-hallack\/","title":{"rendered":"Um bocadinho de prosa com Marcela Hallack"},"content":{"rendered":"<p>Conheci Marcela Hallack num grupo de escritores. Foi mais uma das gratas surpresas que tive ao cultivar la\u00e7os com autores e autoras das alterosas. Disse-me que estava para lan\u00e7ar seu primeiro livro, algo que eu havia feito alguns poucos meses antes. Esperei, atento, para poder apresentar a novidade aqui no Caf\u00e9 Liter\u00e1rio. \u00c9 de seu livro que se extrai o poema in\u00e9dito a seguir, no qual se sente a mineiridade com suas paisagens e mist\u00e9rios em cada verso:<\/p>\n<p><strong>O canto do sineiro<\/strong><\/p>\n<p><strong>Essas Minas tamb\u00e9m ecoam tristes<\/strong><br \/>\n<strong>os sinos das igrejas excludentes,<\/strong><br \/>\n<strong>douradas por m\u00e3os pretas,<\/strong><br \/>\n<strong>e as badaladas sangram<\/strong><br \/>\n<strong>no ch\u00e3o de pedra de Tiradentes.<\/strong><br \/>\n<strong>N\u00e3o quero ser pedra. Quero ser gente.<\/strong><br \/>\n<strong>Na rua Direita, ergueram Nossa Senhora do Ros\u00e1rio,<\/strong><br \/>\n<strong>para as rezas e cultos dos escravizados,<\/strong><br \/>\n<strong>em separado, em separado.<\/strong><br \/>\n<strong>bl\u00e9m bl\u00e9m bl\u00e9m<\/strong><br \/>\n<strong>Ontem, como hoje, <\/strong><br \/>\n<strong>n\u00e3o quero ser pedra. Quero ser gente.<\/strong><\/p>\n<p>No sexta, 21, a partir das 19h ser\u00e1 lan\u00e7ado em Juiz de Fora, Minas Gerais, o seu livro de estreia, intitulado \u201cVersos de Liberdade: um col\u00f3quio contempor\u00e2neo\u201d. Nesta obra, Marcela promove um di\u00e1logo sobre quest\u00f5es raciais e exalta as pr\u00e1ticas da liberdade e enfrentamento do racismo, t\u00e3o presente ainda na sociedade brasileira. M\u00e3e e esposa numa fam\u00edlia multirracial, o livro \u00e9 ilustrado por Pedro Loures, estudante de arquitetura na Universidade Federal de Juiz de Fora e filho de Marcela, com belas imagens abstratas em tons de preto e cinza.<\/p>\n<p>\u201cVersos de Liberdade\u201d vem numa edi\u00e7\u00e3o caprichada e traz 114 poemas distribu\u00eddo por quatro cantos, entremeados por trechos de autores brasileiros negros como Luiz Gama, Cruz e Souza, Machado de Assis, Maria Carolina de Jesus, entre outros.<\/p>\n<p>A obra foi contemplada pelo Programa Cultural Murilo Mendes, da Funda\u00e7\u00e3o Cultural Alfredo Ferreira Lage \u2013 Funalfa, ligada \u00e0 Prefeitura de Juiz de Fora, atrav\u00e9s do Edital Quilombagens\/ 2023, compreendendo, como recurso de inclus\u00e3o, o audiolivro, disponibilizado, atrav\u00e9s de Qrcode, na \u00faltima p\u00e1gina do livro impresso, com audiodescri\u00e7\u00e3o e narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marcela Hallack, nascida em Juiz de Fora no ano de 1975, \u00e9 formada em Direito pela UFJF e atua no servi\u00e7o p\u00fablico como oficial de justi\u00e7a da Justi\u00e7a Federal. \u00c9 pesquisadora nas \u00e1reas de direitos humanos, filosofia, sociologia, linguagens, saberes e literaturas. \u00c9 membro da Sociedade Brasileira de Poetas Aldravianistas, da Confraria dos Poetas e da Liga de Escritores de Juiz de Fora \u2013 LEIAJF, e integrante do coletivo Leia Mulheres Juiz de Fora.<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento ser\u00e1 na Autoria Casa de Cultura, na rua Batista de Oliveira n.\u00ba 931, 2.\u00ba andar, Centro, Juiz de Fora \u2013 Minas Gerais. Em breve, haver\u00e1 tamb\u00e9m lan\u00e7amentos na FLITI &#8211; Feira Liter\u00e1ria Internacional de Tiradentes, e na capital mineira.<\/p>\n<p>Marcela concedeu a <strong>Notibras<\/strong> a entrevista a seguir:<\/p>\n<p><strong>Mulher mineira, m\u00e3e, servidora p\u00fablica, poeta. Como Marcela Hallack se movimenta entre essas m\u00faltiplas facetas?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que somos pot\u00eancias m\u00faltiplas e que a vida \u00e9 uma grande oportunidade de experimentar e partilhar essas pot\u00eancias. Repito a frase do poeta cubano Jos\u00e9 Mart\u00ed: plantar uma \u00e1rvore, ter um filho e escrever um livro, como uma grande met\u00e1fora para o convite de transbordar na vida.<\/p>\n<p><strong>Quando foi que voc\u00ea \u201crasgou o peito\u201d em forma de poesia? Quais s\u00e3o suas influ\u00eancias nessa \u00e1rea?<\/strong><\/p>\n<p>A literatura \u00e9 parte incandescente da minha vida. Tenho enorme gosto pela leitura; a escrita me acompanha desde menina, de forma intimista e reservada. Apenas em 2023 comecei a compartilhar alguns textos com o mundo. No livro \u201cVersos de liberdade: um col\u00f3quio contempor\u00e2neo\u201d, h\u00e1 expl\u00edcitas influ\u00eancias liter\u00e1rias de autores e autoras negras, que, inclusive, integram o di\u00e1logo, como Maria Firmina dos Reis, Lima Barreto, Machado de Assis, Cruz e Souza, Castro Alves, Luiz Gama, Carolina Maria de Jesus, entre outros. Como sou uma leitora \u00e1vida, percebo, no geral, v\u00e1rias influ\u00eancias e, se estou citando algumas, j\u00e1 sinto que posso estar escanteando injustamente outras, mas continuemos: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Cora Coralina, Cec\u00edlia Meireles, Manoel de Barros, Ad\u00e9lia Prado, Clarice Lispector, Guimar\u00e3es Rosa&#8230;<\/p>\n<p><strong>Conte-nos um pouco sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o de \u201cVersos de Liberdade\u201d. Qual foi o ponto de partida e quem foi seu primeiro leitor?<\/strong><\/p>\n<p>Dif\u00edcil identificar um ponto de partida. Acredito que este \u00e9 um livro que vem nascendo dentro de mim h\u00e1 muito, muito tempo, fruto de sil\u00eancio e berro forte. O primeiro leitor e, muitas vezes, cr\u00edtico severo: meu marido, Alexandre Avelar.<\/p>\n<p><strong>Seu livro \u201cnasceu do di\u00e1logo po\u00e9tico estabelecido em um seio familiar multirracial, no qual os ideais de liberta\u00e7\u00e3o s\u00e3o servidos com o caf\u00e9 da manh\u00e3 de cada dia\u201d. Qual \u00e9 a origem dessa fam\u00edlia multirracial? Quem foi a gente antepassada que culminou em voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p>Carregamos nossos antepassados dentro e nos nossos olhos. Uma t\u00edpica fam\u00edlia brasileira, fruto de miscigena\u00e7\u00e3o de culturas e de saberes, que n\u00e3o podem ser negligenciados, nem muito menos sobrepostos de maneira hier\u00e1rquica. O que nos permite o di\u00e1logo proposto na obra \u00e9 justamente o encontro respeitoso de nossas unicidades, na constru\u00e7\u00e3o de um mundo verdadeiramente pautado em valores de igualdade, equidade e justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>A obra aborda a complexidade do aquilombar contempor\u00e2neo e a exalta\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de liberdade. Como voc\u00ea acredita que a sociedade brasileira pode avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 igualdade e \u00e0 justi\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Uma sociedade estruturalmente racista e mis\u00f3gina, sedimentada em determinados alicerces que, de forma indecente, subjugam homens e mulheres em raz\u00e3o de discrimina\u00e7\u00f5es odiosas, visando manter o status quo de domina\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, social e cultural, precisa romper com v\u00e1rios paradigmas para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 igualdade e \u00e0 justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>O livro \u00e9 ilustrado por Pedro Loures, seu filho. Como foi a experi\u00eancia de trabalhar com um familiar em um projeto criativo?<\/strong><\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e9, em si, um processo criativo, \u00e9 uma c\u00e9lula da sociedade, onde temos a oportunidade de come\u00e7ar a experimentar as pot\u00eancias das quais fal\u00e1vamos a pouco, um rico percurso de grande aprendizado. Sou muito grata por isso.<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea pensa a respeito da representatividade na literatura brasileira, especialmente a contempor\u00e2nea? Avan\u00e7amos neste quesito?<\/strong><\/p>\n<p>Estamos avan\u00e7ando, em ger\u00fandio lento. Participo do coletivo Leia Mulheres Juiz de Fora: no ano de 2024, lemos autoras latino-americanas, um livro por m\u00eas de autorias femininas diversas. Essa oportunidade enriquece a sociedade, alarga nossos pensares e nossos repert\u00f3rios diante do mundo.<\/p>\n<p><strong>Marcela, deixe uma mensagem aos leitores de Notibras.<\/strong><\/p>\n<p>Gostaria de agradecer a oportunidade dessa prosa, que ela possa alcan\u00e7ar outros cora\u00e7\u00f5es e promover di\u00e1logos prof\u00edcuos para a nossa sociedade. Versos de liberdade: um col\u00f3quio contempor\u00e2neo \u00e9 tamb\u00e9m um convite para bordarmos, todos e cada um, nossos versos de liberdade, por uma sociedade verdadeiramente plural, fraterna e inclusiva, em que as medalhas n\u00e3o valham mais que os homens e as mulheres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci Marcela Hallack num grupo de escritores. Foi mais uma das gratas surpresas que tive ao cultivar la\u00e7os com autores e autoras das alterosas. Disse-me que estava para lan\u00e7ar seu primeiro livro, algo que eu havia feito alguns poucos meses antes. 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