{"id":350397,"date":"2025-03-20T06:31:01","date_gmt":"2025-03-20T09:31:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350397"},"modified":"2025-03-20T08:34:16","modified_gmt":"2025-03-20T11:34:16","slug":"como-em-grande-sertao-o-diabo-existe-cabe-um-pacto-com-ele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/como-em-grande-sertao-o-diabo-existe-cabe-um-pacto-com-ele\/","title":{"rendered":"Como em &#8216;Grande Sert\u00e3o&#8217;, o Diabo existe? Cabe um pacto com ele?"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o se sabe quando surgiu a laminazinha, nem por qu\u00ea. Movia-se ao sabor do vento, alimentando sonhos e pesadelos, d\u00favidas e certezas. Lembrava uma pequena faixa de moebius, retorcida, quase di\u00e1fana, com s\u00edmbolos semelhantes aos do yin yang, os princ\u00edpios masculino e feminino na filosofia tradicional chinesa. Os poucos que a viram, ou antes, perceberam sua presen\u00e7a chamaram-na de luz e sombra. O que se sabe \u00e9 que esteve (est\u00e1) presente em todas as eras, em todas as partes do mundo.<\/p>\n<p>Alguns preferiram design\u00e1-la como d\u00favida e certeza, com base em sua presen\u00e7a no cotidiano da grande maioria das pessoas. Um engenheiro, um trabalhador manual ou um cirurgi\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o pode hesitar ao realizar seu trabalho: \u00e9 preciso refor\u00e7ar as estruturas da ponte, e usar a ferramenta adequada, para alcan\u00e7ar bons resultados. E quando a vida de um paciente depende do manejo correto do bisturi, a confian\u00e7a no que se est\u00e1 fazendo \u00e9 fundamental. Desse modo, a dimens\u00e3o da certeza prevalece em muit\u00edssimos exemplos da atividade humana.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outros tipos de pr\u00e1xis em que a d\u00favida, mais que necess\u00e1ria, \u00e9 essencial. Te\u00f3logos como santo Agostinho e Lutero constru\u00edram suas concep\u00e7\u00f5es pouco a pouco, com avan\u00e7os e recuos, em meio a um emaranhado de d\u00favidas \u2013 as mesmas concep\u00e7\u00f5es que hoje s\u00e3o afirmadas, com ruidosa convic\u00e7\u00e3o, por sacerdotes de todas as igrejas. Fil\u00f3sofos fizeram o mesmo, sempre abertos a questionamentos, pr\u00f3prios ou de seus pares, at\u00e9 estarem seguros de suas conclus\u00f5es para apresent\u00e1-las em seus textos. A laminazinha esteve junto a todos eles, ora cintilando ao sol, ora mergulhada nas trevas, sempre girando sobre si mesma, a lembrar-lhes que luzes e sombras, d\u00favidas e certezas, s\u00e3o dimens\u00f5es indissoci\u00e1veis.<\/p>\n<p>Foi junto a criadores de todos os matizes, pintores, poetas, romancistas e outros, que a pequena faixa de moebius encontrou seu solo mais f\u00e9rtil.<\/p>\n<p>Os personagens de um romance precisam mesclar elementos sombrios e luminosos, sob pena de o texto virar uma pasmaceira, o Her\u00f3i s\u00f3 realizando atos heroicos, o Vil\u00e3o s\u00f3 fazendo coisas m\u00e1s, e por a\u00ed vai. E h\u00e1 muitos casos em que as dimens\u00f5es de luz e treva se manifestam juntas \u2013 e ent\u00e3o surgem cria\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p>Vamos partir do Novo Testamento. N\u00e3o importa, diga-se, que Jesus tenha ou n\u00e3o existido; o objeto em an\u00e1lise \u00e9 o texto, bem real. O personagem que, em tantas passagens, anseia em estar junto ao Pai \u00e9 o mesmo que, pouco antes de morrer, lastima-se por ter sido abandonado por Ele.<\/p>\n<p>Testemunho lancinante da humanidade, da carne tr\u00eamula de Jesus, seus medos, suas d\u00favidas, sempre ligada (para os crist\u00e3os) a sua dimens\u00e3o de filho de Deus. Para mim, trata-se de uma das passagens mais comoventes dos Evangelhos.<\/p>\n<p>Um salto no tempo e espa\u00e7o: a Monalisa, de Leonardo da Vinci. Seu ligeiro sorriso representa o qu\u00ea? Mod\u00e9stia, ironia, representa\u00e7\u00e3o pura e simples das fei\u00e7\u00f5es da modelo? As discuss\u00f5es se estendem por s\u00e9culos, enquanto a tela continua a nos fascinar. Outro salto, dessa vez recuando no tempo: as trag\u00e9dias gregas. Talvez o melhor exemplo seja Ant\u00edgona, de S\u00f3focles, em que se mesclam obriga\u00e7\u00f5es irreconcili\u00e1veis para com a fam\u00edlia e os deuses e as exig\u00eancias da p\u00f3lis, da sociedade e do poder constitu\u00eddo.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 a vez de Hamlet, obra-prima do ingl\u00eas William Shakespeare. A sede de vingan\u00e7a do protagonista \u00e9 indissoci\u00e1vel de suas d\u00favidas e hesita\u00e7\u00f5es, e \u00e9 essa jun\u00e7\u00e3o que tornou a pe\u00e7a teatral inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Mais um salto, dessa vez para o Brasil. Em Dom Casmurro, Machado de Assis afirma, ou melhor, insinua a trai\u00e7\u00e3o de Capitu com Bentinho. Insinua, porque a ambiguidade, a d\u00favida, \u00e9 mantida ao longo do texto, e gera\u00e7\u00f5es seguidas de leitores e cr\u00edticos liter\u00e1rios discutiram (e discutem) se houve ou n\u00e3o houve a trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o chegamos a Grande Sert\u00e3o: Veredas, de Guimar\u00e3es Rosa, com sua torrente de d\u00favidas. O diabo existe? Pode-se fazer um pacto com ele? O protagonista\/narrador, Riobaldo, fez o pacto com o Coisa ruim? Onde est\u00e1 o sert\u00e3o, nas lonjuras, ou dentro de n\u00f3s? Sem falar no fio condutor do romance, o amor tantas vezes negado, tantas vezes afirmado, entre Riobaldo e seu amigo Diadorim. Em todos esses casos, e em muit\u00edssimos outros, a laminazinha deve ter cintilado e se escondido, num incessante vai e vem, pastoreando sonhos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o se sabe quando surgiu a laminazinha, nem por qu\u00ea. 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