{"id":350607,"date":"2025-03-23T07:06:53","date_gmt":"2025-03-23T10:06:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350607"},"modified":"2025-03-23T07:06:53","modified_gmt":"2025-03-23T10:06:53","slug":"mudanca-no-ir-pode-reduzir-desigualdade-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mudanca-no-ir-pode-reduzir-desigualdade-no-brasil\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7a no IR pode reduzir desigualdade no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O projeto de lei (PL) que prev\u00ea a isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda (IR) para quem ganha at\u00e9 R$ 5 mil e a taxa\u00e7\u00e3o de pessoas que recebem mais de R$ 50 mil por m\u00eas, se aprovado pelo Congresso Nacional, aproxima o Brasil do sistema tribut\u00e1rio de pa\u00edses mais igualit\u00e1rios, como Fran\u00e7a e Alemanha. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 da professora de economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Clara Zanon Brenck.<\/p>\n<p>\u201cPa\u00edses mais igualit\u00e1rios, como os mais desenvolvidos da Europa, tendem a tributar de maneira mais progressiva. O Brasil, fazendo essa mudan\u00e7a, vai se aproximar desses pa\u00edses\u201d, disse \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>Na \u00faltima ter\u00e7a-feira (18), o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva entregou ao Congresso o PL. Al\u00e9m de isentar do imposto de renda o trabalhador que recebe at\u00e9 R$ 5 mil mensais, o texto cria descontos na tributa\u00e7\u00e3o para a faixa entre R$ 5 mil e R$ 7 mil.<\/p>\n<p>Em contrapartida, a proposta cria al\u00edquota de cobran\u00e7a de imposto para pessoas com renda superior a R$ 600 mil anuais \u2013 m\u00e9dia de R$ 50 mil mensais. Essa cobran\u00e7a dos mais ricos proporciona o que os especialistas chamam de neutralidade fiscal, ou seja, o que o governo deixar\u00e1 de arrecadar das pessoas com menor renda ser\u00e1 compensando cobrando dos ricos.<\/p>\n<p>Nas contas do Minist\u00e9rio da Fazenda, 10 milh\u00f5es de brasileiros v\u00e3o parar de pagar IR, o que representa uma ren\u00fancia fiscal prevista em R$ 25,84 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse valor ser\u00e1 compensado com a cobran\u00e7a de imposto de 141,3 mil pessoas. Na base de c\u00e1lculo da renda desses contribuintes ser\u00e3o inclu\u00eddos rendimentos atualmente isentos, como dividendos (distribui\u00e7\u00e3o de lucros de empresas).<\/p>\n<p>Ainda segundo a Fazenda, nove em cada dez brasileiros que pagam IR ter\u00e3o isen\u00e7\u00e3o total ou parcial. Dos declarantes do IR, mais de 26 milh\u00f5es (65%) n\u00e3o v\u00e3o pagar nada. J\u00e1 a tributa\u00e7\u00e3o sobre altas rendas atingir\u00e1 0,13% dos contribuintes e 0,06% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Justi\u00e7a tribut\u00e1ria<\/strong><br \/>\nA economista Clara Brenck explica que justi\u00e7a tribut\u00e1ria \u00e9 a ideia de que \u201cquem recebe mais vai pagar mais proporcionalmente \u00e0 sua renda\u201d.<\/p>\n<p>Ela exemplifica que, se uma pessoa recebe R$ 5 mil e paga R$ 500 de imposto de renda, isso representa 10% da renda. Se uma pessoa que ganha R$ 500 mil paga R$ 50 mil, isso tamb\u00e9m representa 10%, e \u00e9 um caso em que n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea tem as pessoas pagando o mesmo tanto de imposto, independentemente da sua renda\u201d, aponta a professora, que tamb\u00e9m \u00e9 pesquisadora do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Faculdade de Administra\u00e7\u00e3o, Economia e Contabilidade (FEA) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>Segundo ela, ao lado de pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, a justi\u00e7a tribut\u00e1ria \u00e9 um elemento \u201cmuito importante\u201d para a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade de um pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Cobran\u00e7a no topo<\/strong><br \/>\nPara a professora, as mudan\u00e7as propostas caminham para redu\u00e7\u00e3o da desigualdade, mas ainda n\u00e3o s\u00e3o suficientes. C\u00e1lculos do Made apontam maior efetividade caso a al\u00edquota dos ricos ficasse pr\u00f3xima de 15%. Isso faria com que os mais ricos e a maior parte da popula\u00e7\u00e3o que paga imposto sentissem no bolso a mesma carga tribut\u00e1ria efetiva \u2500 o que a pessoa realmente paga de imposto no fim das contas.<\/p>\n<p>Ao defender a proposta, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem demonstrado que a al\u00edquota efetiva da classe m\u00e9dia \u00e9 de cerca de 10%.<\/p>\n<p>\u201cO grande m\u00e9rito dessa proposta \u00e9 que ela abre uma avenida para a gente discutir justi\u00e7a tribut\u00e1ria\u201d, afirmou Haddad.<\/p>\n<p>A professora Brenck avalia que \u00e9 adequado determinar o piso de renda de R$ 50 mil mensais como alvo da tributa\u00e7\u00e3o progressiva, mas acha que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente super-ricos. \u201cA gente n\u00e3o pode cham\u00e1-los de super-ricos\u201d, diz, antes de emendar: \u201c\u00e9 mais do que justo essas pessoas passarem a pagar mais e ir aumentando progressivamente\u201d.<\/p>\n<p>Outro fator que impede mais igualdade, diz a professora da UFMG, \u00e9 a tributa\u00e7\u00e3o indireta, que faz com que consumidores paguem imposto na hora de comprar produtos e servi\u00e7os. Isso faz com que pessoas de baixa renda paguem, proporcionalmente, mais imposto que os ricos.<\/p>\n<p>Clara Brenck afirma que a primeira parte da reforma tribut\u00e1ria, que unificou tributos e teve a regulamenta\u00e7\u00e3o sancionada no come\u00e7o deste ano, n\u00e3o resolveu o problema pelo fato de os dois temas terem sido tratados separadamente.<\/p>\n<p>\u201cA partir do momento em que voc\u00ea separa a reforma indireta da reforma da renda, voc\u00ea mant\u00e9m a propor\u00e7\u00e3o da reforma indireta na carga tribut\u00e1ria total, e \u00e9 esse o problema\u201d, avalia.<\/p>\n<p>\u201cTinha que mexer nessa composi\u00e7\u00e3o do quanto [da arrecada\u00e7\u00e3o] que vem do imposto direto da renda e quanto que vem do indireto. Fazendo as duas reformas separadas, voc\u00ea n\u00e3o consegue mudar as propor\u00e7\u00f5es\u201d, complementa.<\/p>\n<p>A economista defende tamb\u00e9m que haja, ao longo do tempo, a corre\u00e7\u00e3o pela infla\u00e7\u00e3o do valor das faixas de renda que sofrem a tributa\u00e7\u00e3o. \u201cPara continuar atingindo os estratos de renda que a gente quer. O que chamamos de super-ricos hoje vai ser diferente daqui a 10 anos\u201d.<\/p>\n<p><strong>Desigualdade de renda<\/strong><br \/>\nNo Brasil, a renda dos 10% mais ricos \u00e9 14,4 vezes superior \u00e0 dos 40% mais pobres, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). O esfor\u00e7o para reduzir a desigualdade \u00e9 uma das bandeiras do governo para convencer o Congresso a aprovar o projeto de lei.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s figuramos entre as dez piores distribui\u00e7\u00f5es de renda do mundo. \u00c9 isso que n\u00f3s temos que explicar para a sociedade. O Brasil est\u00e1 entre os dez pa\u00edses com pior distribui\u00e7\u00e3o de renda do mundo\u201d, citou Haddad no Bom Dia, Ministro.<\/p>\n<p>\u201cTem muita gente que tem renda que concorda com a justi\u00e7a social. N\u00e3o \u00e9 porque a pessoa tem renda que ela vai deixar de votar em um projeto justo. Voc\u00ea pode ter certeza, muita gente ali [representada no Congresso], empres\u00e1rio, fazendeiro, vai votar a favor desse projeto porque sabe que ele \u00e9 justo\u201d, espera.<\/p>\n<p><strong>Tramita\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nO texto enviado pelo governo ao Congresso passar\u00e1 a valer se for aprovado na C\u00e2mara dos Deputados e no Senado. Nesse caminho, a mat\u00e9ria pode sofrer altera\u00e7\u00e3o por parte dos parlamentares.<\/p>\n<p>O presidente da C\u00e2mara, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que o Congresso ter\u00e1 a sensibilidade para ver o alcance social da proposta, mas n\u00e3o descartou altera\u00e7\u00f5es no sentido da melhoria das medidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O projeto de lei (PL) que prev\u00ea a isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda (IR) para quem ganha at\u00e9 R$ 5 mil e a taxa\u00e7\u00e3o de pessoas que recebem mais de R$ 50 mil por m\u00eas, se aprovado pelo Congresso Nacional, aproxima o Brasil do sistema tribut\u00e1rio de pa\u00edses mais igualit\u00e1rios, como Fran\u00e7a e Alemanha. 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