{"id":350647,"date":"2025-03-24T03:26:50","date_gmt":"2025-03-24T06:26:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350647"},"modified":"2025-03-24T03:25:02","modified_gmt":"2025-03-24T06:25:02","slug":"para-distrair-vamos-lembrar-que-no-inferno-para-furar-ja-tem-o-buracoaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/para-distrair-vamos-lembrar-que-no-inferno-para-furar-ja-tem-o-buracoaco\/","title":{"rendered":"Para distrair, vamos lembrar que no Inferno, para furar, j\u00e1 tem o buraco"},"content":{"rendered":"<p>Autodidata em hist\u00f3rias da vida, n\u00e3o sou e nunca fui entendido, mas, como bom ouvinte, sou \u00f3timo entendedor. Sou pr\u00e1tico no entendimento do sujeito coisado e da sujeita coisando. Normalmente me distraio com o rumo da prosa, mas jamais perco a piada. Sempre fui assim com o bispo, com o padre, com a freira, com o pai de santo, o pastor, os \u201cimbroch\u00e1veis\u201d, os \u201cpatriotas\u201d, os esquerdopatas e at\u00e9 com meu av\u00f4 paterno, o velho Aristarco Pederneira, com quem ainda hoje mantenho conversas telep\u00e1ticas, espirituais e espirituosas. Como esquecer algu\u00e9m que me ensinou a tabuada, o abeced\u00e1rio e, principalmente, o beab\u00e1 do amor, do sexo e do rock\u2019n roll?<\/p>\n<p>Aprendi com ele que o caminho mais curto para desconhecermos as portas do c\u00e9u e do inferno \u00e9 n\u00e3o estudar filosofia. Afinal, o que \u00e9 o c\u00e9u se n\u00e3o um suborno, e o que \u00e9 o inferno se n\u00e3o uma amea\u00e7a. Eis a raz\u00e3o pela qual escolhi ser bacharel em inverossimilhan\u00e7as, aquelas em que os pr\u00f3prios narradores n\u00e3o acreditam. Pragm\u00e1tico como ningu\u00e9m, meu av\u00f4 tinha como cartilha de cabeceira a tese de que at\u00e9 Deus tem um inferno, isto \u00e9, seu amor pelos homens. A outra m\u00e1xima do velho tem a ver com a aus\u00eancia no c\u00e9u de pessoas alegres, interessantes e resolvidas.<\/p>\n<p>Tudo bem que uma coisa \u00e9 uma coisa, outra coisa \u00e9 outra coisa. Ou n\u00e3o? Quando a gente menos espera, as duas coisas acabam do mesmo jeito que come\u00e7aram e ficam exatamente iguais. Ou seja, o melhor \u00e9 n\u00e3o esperarmos nada de nada. Em outras palavras, a \u00e1rvore que deseja alcan\u00e7ar os c\u00e9us deve ter ra\u00edzes t\u00e3o profundas a ponto de tocar o inferno. Dizem os mais velhos que nem todo dia \u00e9 dia de festa no c\u00e9u. Ali\u00e1s, para os religiosos de joelhos inchados a lenda de festa no c\u00e9u \u00e9 muito mais do que uma f\u00e1bula liter\u00e1ria. Para se chegar l\u00e1, \u00e9 fundamental a reciprocidade entre o homem e Deus.<\/p>\n<p>Nunca busquei respostas concretas, mas, como dizem aqui na terra, rec\u00edproco s\u00f3 o 69. O resto \u00e9 mimimi. Me lembro bem de uma daquelas aulas de catecismo. Indicada pelo velho Aristarco Pederneira, a professora &#8211; uma freira de meia idade \u2013 perguntou \u00e0 turma quem queria ir para o c\u00e9u. Todos levantaram a m\u00e3o, menos eu. Obviamente que a serva de Deus se dirigiu \u00e0 minha \u201ccarteira\u201d e, me comendo com os olhos, me pediu uma \u00fanica raz\u00e3o para eu declinar do c\u00e9u. Ignorante na mat\u00e9ria, respondi que adoraria, mas n\u00e3o podia porque minha saudosa m\u00e3e pediu para que fosse direto para casa depois das aulas.<\/p>\n<p>Na verdade, o medo sobre as cores das portas do c\u00e9u e do inferno era meu maior medo. Desisti de sonhar ao ser lembrado que a porta azul levava ao c\u00e9u e a vermelha descia at\u00e9 o inferno. Uma e outra era somente uma quest\u00e3o de escolha. Em s\u00edntese, nada mais extraordin\u00e1rio do que uma festa no c\u00e9u, evento ao qual, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, apenas animais com habilidade de voo e liberdade para picar s\u00e3o convidados. Um dos amigos de vov\u00f4 tentou dar uma de penetra, se deu mal e por pouco n\u00e3o perdeu o restinho da honra que guardava para S\u00e3o Pedro. Metido a esperto, l\u00e1 chegando obviamente que o dito cujo optou pela porta azul. A\u00ed come\u00e7a o calv\u00e1rio<\/p>\n<p>Enquanto conversava com o guardi\u00e3o dos port\u00f5es, ele ouviu uma gritaria e um barulho de berbequim atr\u00e1s da porta azul. Indagando a respeito da balb\u00fardia, foi informado tratar-se do dia a dia do c\u00e9u. Nada de especial. Era apenas uma alma que acabara de chegar passando pela obriga\u00e7\u00e3o do furo na cabe\u00e7a e nas costas para coloca\u00e7\u00e3o da aur\u00e9ola e de asas. Escandalizado, o velhinho anunciou em voz alta que, diante do que havia presenciado, n\u00e3o queria mais o c\u00e9u. Perplexo, S\u00e3o Pedro se viu obrigado a alertar o senhorzinho de que, no inferno, o Diabo iria furar seu fiof\u00f3. A resposta calou todo o c\u00e9u: \u201cQuero l\u00e1 saber! Pelo menos o buraco j\u00e1 est\u00e1 feito\u201d. Como se v\u00ea, assim como na terra, no c\u00e9u e no inferno tudo pode acontecer, inclusive se ajoelhar para rezar.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autodidata em hist\u00f3rias da vida, n\u00e3o sou e nunca fui entendido, mas, como bom ouvinte, sou \u00f3timo entendedor. Sou pr\u00e1tico no entendimento do sujeito coisado e da sujeita coisando. Normalmente me distraio com o rumo da prosa, mas jamais perco a piada. 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