{"id":350670,"date":"2025-03-24T04:17:47","date_gmt":"2025-03-24T07:17:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350670"},"modified":"2025-03-24T04:18:57","modified_gmt":"2025-03-24T07:18:57","slug":"entra-ano-sai-ano-feira-de-caruaru-ainda-tem-muito-de-tudo-e-isso-desde-1800","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/entra-ano-sai-ano-feira-de-caruaru-ainda-tem-muito-de-tudo-e-isso-desde-1800\/","title":{"rendered":"Entra ano, sai ano, Feira de Caruaru ainda tem muito de tudo (e isso desde 1800)"},"content":{"rendered":"<p>Era ainda madrugada quando o sol decidiu espregui\u00e7ar-se por tr\u00e1s dos morros do Agreste. O galo cantava com o peito estufado, mas em Caruaru, naquela hora, j\u00e1 tinha gente acordada fazia tempo. A feira, meu amigo, n\u00e3o espera por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Na beira da BR, o vai e vem de caminh\u00f5es j\u00e1 anunciava que era dia de feira! E n\u00e3o era uma feira qualquer. Era a Feira de Caruaru, essa mesma que Luiz Gonzaga cantou e o povo nunca esqueceu. Ali, entre barracas de lona colorida, cheiro de tempero, caf\u00e9 fresco e forr\u00f3 saindo das caixas de som, come\u00e7ava neste fim de semana mais um espet\u00e1culo nordestino.<\/p>\n<p>Dona Mariquinha, com seu vestido florido e sorriso f\u00e1cil, ajeitava seus queijos coalhos como quem organiza joias raras. \u201c\u00c9 de Garanhuns!\u201d, dizia orgulhosa. Uns metros adiante, seu Z\u00e9 do Couro fazia bainha em um chap\u00e9u de vaqueiro, enquanto contava vantagem de quando era rapaz e vendia mais que tr\u00eas feirantes juntos. Era mentira, claro, mas em feira vale mais a l\u00e1bia que a conta.<\/p>\n<p>E tinha de tudo, viu? De tudo mesmo. Roupas, ferramentas, discos de vinil, redes, brinquedos de madeira, ervas pra dor de cabe\u00e7a e at\u00e9 simpatia pra arrumar casamento. Se n\u00e3o achou o que queria, \u00e9 porque n\u00e3o procurou direito.<\/p>\n<p>A feira de Caruaru \u00e9 mais que com\u00e9rcio. \u00c9 mem\u00f3ria viva, \u00e9 conversa boa, \u00e9 o retrato falado do Nordeste. Surgiu devagarinho, l\u00e1 no s\u00e9culo XVIII, quando a vila ainda era pequena e o povo se juntava pra trocar o que tinha e contar causos. Cresceu com o tempo, ganhou fama, virou orgulho. Hoje, \u00e9 patrim\u00f4nio, \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 poesia com cheiro de bode assado.<\/p>\n<p>E quem pisa l\u00e1 pela primeira vez, sai com alma lavada e cora\u00e7\u00e3o remexido, como quem reencontra um peda\u00e7o perdido de si mesmo.<\/p>\n<p>No fim do dia, quando o sol j\u00e1 despencava cansado, os feirantes come\u00e7avam a guardar os trens, as conversas iam murchando, mas o esp\u00edrito da feira continuava ali \u2014 pulsando entre os paralelep\u00edpedos, no batuque de um tri\u00e2ngulo distante, no calor humano que s\u00f3 o povo nordestino sabe oferecer.<\/p>\n<p>E assim segue a Feira de Caruaru: feita de gente, de suor, de sonho \u2014 e de uma alegria que n\u00e3o se vende, mas se compartilha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era ainda madrugada quando o sol decidiu espregui\u00e7ar-se por tr\u00e1s dos morros do Agreste. O galo cantava com o peito estufado, mas em Caruaru, naquela hora, j\u00e1 tinha gente acordada fazia tempo. 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