{"id":350687,"date":"2025-03-24T09:01:21","date_gmt":"2025-03-24T12:01:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350687"},"modified":"2025-03-24T09:01:21","modified_gmt":"2025-03-24T12:01:21","slug":"hamilton-caseiro-casou-cesar-amante-de-ruivas-foi-morar-no-fundo-do-lago","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/hamilton-caseiro-casou-cesar-amante-de-ruivas-foi-morar-no-fundo-do-lago\/","title":{"rendered":"Hamilton, caseiro, casou; C\u00e9sar, amante de ruivas, foi morar no fundo do lago"},"content":{"rendered":"<p>C\u00e9sar e Hamilton eram amigos de longa data. Amigos mesmo, daqueles que conhecem as hist\u00f3rias mais escabrosas um do outro, n\u00e3o raro tendo ambos nos pap\u00e9is principais. Estudaram juntos, sempre nas mesmas turmas, desde os doze anos, e chegaram quase simultaneamente \u00e0 maioridade, pois faziam anivers\u00e1rio com semanas de diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Desde que a dupla come\u00e7ara a se interessar seriamente por meninas, C\u00e9sar confessara sua prefer\u00eancia a Hamilton:<\/p>\n<p>\u2212 Eu gosto mesmo \u00e9 das ruivas. Quanto mais enferrujadinhas, melhor. Gosto das sardas, do cabelo de cobre encaracolado, da pele branca e dos olhos quase sempre muito claros. Ruiva natural, que por aqui nem \u00e9 tanto raridade.<\/p>\n<p>Para deleite de C\u00e9sar, a coloniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o onde moravam proporcionara, em v\u00e1rias fam\u00edlias, o surgimento de cabe\u00e7as vermelhas que apareciam em v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Hamilton tamb\u00e9m era namorador, mas um rom\u00e2ntico. E n\u00e3o tinha qualquer fixa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Ao fim da adolesc\u00eancia e in\u00edcio da fase adulta, tivera algumas pretendentes, mas acabou demorando um pouco a decidir se casar, o que fez apenas quando conheceu Sabrine, o amor de sua vida. Fatalmente linda, de antiga e proeminente fam\u00edlia local.<\/p>\n<p>C\u00e9sar, avesso a relacionamentos, preferia continuar cobi\u00e7ando as ruivas. Nunca conheceram-lhe uma namorada firme e a ningu\u00e9m escondia sua prefer\u00eancia por cabelos acobreados. Depois, manifestou uma faceta bem cafajeste, e confessou ao amigo:<\/p>\n<p>\u2212 Ansioso por conhecer minha pr\u00f3xima ruiva.<\/p>\n<p>\u2212 Por que voc\u00ea n\u00e3o procura uma para casar?<\/p>\n<p>\u2212 Casar? Jamais! N\u00e3o pretendo me apegar a ningu\u00e9m. Escolher uma ruiva significa abrir m\u00e3o de todas as outras. E tem mais: se eu preferir uma s\u00f3, ela envelhece. E mulher que envelhece, envilece.<\/p>\n<p>\u2212 Que coisa abjeta para se dizer, C\u00e9sar!<\/p>\n<p>\u2212 \u00c9 o que penso. Prefiro estar livre para conquistar as ruivas. Basta chegar \u00e0 maioridade para me despertar interesse.<\/p>\n<p>C\u00e9sar e Hamilton cresciam e conquistavam express\u00e3o social na comunidade local. Eram muito trabalhadores e empreenderam, tornando-se ricos. Hamilton realizava-se na vida em fam\u00edlia. C\u00e9sar, namorando ruivas, mas nunca por muito tempo. E continuaram amigos.<\/p>\n<p>Quando estavam para casar, Hamilton e Sabrine discordaram sobre a escolha de C\u00e9sar para ser um dos padrinhos.<\/p>\n<p>\u2212 Ele nem \u00e9 casado! Reclamava Sabrine. Al\u00e9m disso, eu sei de certas hist\u00f3rias&#8230;<\/p>\n<p>\u2212 N\u00e3o tem nada a ver, meu amor. Ele sempre foi meu melhor amigo.<\/p>\n<p>\u2212 Se \u00e9 assim, ele entender\u00e1. Essa \u00e9 minha palavra final, Hamilton. N\u00e3o simpatizo com ele e n\u00e3o o quero na lista dos padrinhos. Se ele \u00e9 seu melhor amigo, \u00e9 s\u00f3 conversar. P\u00f5e a recusa na minha conta.<\/p>\n<p>Foi o primeiro desentendimento do casal. E, por anos a fio, seria o \u00fanico.<\/p>\n<p>Mas C\u00e9sar foi compreensivo quando, cheio de dedos, o amigo foi comunicar-lhe da irredutibilidade da noiva. Disse que a amizade entre os dois era muito mais que a posi\u00e7\u00e3o de padrinho, e ficava tudo como sempre fora.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o casamento, conforme passavam os anos, Sabrine acabou tolerando e, por fim, aceitando a presen\u00e7a de C\u00e9sar na vida do casal. Mesmo porque a amizade entre ambos era genu\u00edna e fraterna, e C\u00e9sar jamais foi invasivo ou desagrad\u00e1vel na conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Enquanto C\u00e9sar seguia na sua solteirice povoada de ruivas, Hamilton e Sabrine acabaram sendo visitados pela cegonha no quinto ano do casamento.<\/p>\n<p>Nasceu-lhes uma menina, que ganhou o nome de Gabriela. Branquinha e careca, linda como ela s\u00f3.<\/p>\n<p>Foi sem qualquer resist\u00eancia que Sabrine aceitou a proposta de que C\u00e9sar fosse o padrinho. No fundo, o epis\u00f3dio da recusa na \u00e9poca do casamento causara-lhe certo remorso. Concluiu, afinal, que C\u00e9sar n\u00e3o era mau, dando por encerradas as antigas reservas contra o mo\u00e7o. Assim, deu-se o batizado. Seguido de muita festa e uni\u00e3o entre os amigos.<\/p>\n<p>Gabriela cresceu e, aos tr\u00eas anos, manifestando remoto atavismo familiar materno, j\u00e1 ostentava lindos cachos ruivos. E sardas no nariz.<\/p>\n<p>O dindo era s\u00f3 amores pela afilhada.<\/p>\n<p>Secretamente, Hamilton provocava:<\/p>\n<p>\u2212 A\u00ed est\u00e1, seu vagabundo, a \u00fanica ruiva que voc\u00ea respeita. Ela far\u00e1 parte de sua vida e voc\u00ea nunca a ir\u00e1 decepcionar.<\/p>\n<p>E riam-se os amigos.<\/p>\n<p>Aos dez anos, Gabriela ganhou um irm\u00e3ozinho, Lucas, que cresceu t\u00e3o ruivo quanto ela.<\/p>\n<p>Aos doze anos, matriculou-se numa escolinha de futebol, desenvolvendo-se a s\u00e9rio no esporte, sob os ausp\u00edcios e torcida do padrinho, seu mais sincero f\u00e3.<\/p>\n<p>Aos quinze, Hamilton e C\u00e9sar valsaram com ela, numa festa de debutante que entrou para a hist\u00f3ria da cidade.<\/p>\n<p>Aos dezessete, concluiu brilhantemente o ensino m\u00e9dio, e ganhou bolsa integral para concorrido curso universit\u00e1rio na capital.<\/p>\n<p>Os pais ficaram at\u00f4nitos e preocupados. Largar assim, na cidade grande, uma menina t\u00e3o nova, do interior, para morar longe da fam\u00edlia? Uma temeridade!<\/p>\n<p>At\u00e9 que C\u00e9sar chegou com a solu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2212 Eu me mudo com a Gabi e tomo conta dela!<\/p>\n<p>\u2212 Como assim?<\/p>\n<p>\u2212 Ora, eu tenho uma empresa na capital \u00e0 qual preciso dar uma aten\u00e7\u00e3o especial. Estava pensando em me mudar para l\u00e1 de vez. Gabi muda comigo e eu tomo conta dela. Ela \u00e9 respons\u00e1vel, educada, n\u00e3o me dar\u00e1 trabalho. Al\u00e9m disso, vai passar mais tempo na universidade do que em casa, porque o curso \u00e9 integral. Vai dar tudo certo. Voc\u00ea e Sabrine ficam aqui com o Lucas. Sua mulher \u00e9 professora municipal, n\u00e3o pode deixar a cidade&#8230; E n\u00e3o se preocupem com gastos, \u00e9 minha afilhada, eu banco tudo.<\/p>\n<p>\u00c0 noitinha, no leito, Hamilton e Sabrine confabulavam sobre as possibilidades. A proposta do amigo era boa. Gabi adorava o dindo. Desperdi\u00e7ar a chance com bolsa integral na universidade mais importante da regi\u00e3o era impens\u00e1vel. O potencial da menina se desenvolver era enorme. C\u00e9sar, afinal, haveria de cuid\u00e1-la bem.<\/p>\n<p>No dia seguinte, na hora do almo\u00e7o, Hamilton ligou para o amigo dizendo que Sabrine e ele haviam aceitado a sugest\u00e3o, pedindo-lhe, no entanto, que o amigo e compadre fosse at\u00e9 o s\u00edtio dos seus sogros, porque tinha um assunto grave a tratar e um pedido a fazer. No entanto, que mantivesse o mais absoluto segredo, e que fosse s\u00f3.<\/p>\n<p>Foi no final da mesma tarde que a picape de C\u00e9sar chegou \u00e0 porteira do s\u00edtio, distante alguns quil\u00f4metros da cidade, vazio desde que os pais de Sabrine, j\u00e1 idosos, foram morar no centro. O compadre viera curioso, mas sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o. Hamilton, iluminado pelos far\u00f3is do ve\u00edculo, j\u00e1 se encontrava l\u00e1 e abriu o port\u00e3o de madeira, dizendo para o amigo de tantos anos:<\/p>\n<p>\u2212 Vai ali e estaciona perto do a\u00e7ude, preciso te mostrar uma coisa que guardei no barrac\u00e3o.<\/p>\n<p>Os dois penetraram no velho recinto, em meio a m\u00e1quinas agr\u00edcolas desativadas. Ligando a lanterna do celular para iluminar o breu que ca\u00edra, C\u00e9sar perguntou:<\/p>\n<p>\u2212 Afinal, o que est\u00e1 acontecendo de t\u00e3o grave para todo esse mist\u00e9rio, irm\u00e3o?<\/p>\n<p>Quase instantaneamente, sem nada dizer, Hamilton atingiu fortemente a cabe\u00e7a de C\u00e9sar com uma pesada ferramenta. O compadre desabou no ch\u00e3o e, antes que conseguisse pensar, pois ca\u00edra contundido, mas consciente, sentiu um objeto pontiagudo penetrando-lhe o flanco esquerdo, reagindo com d\u00e9bil gemido.<\/p>\n<p>Ficou ali, ca\u00eddo, sentindo a vida se esvair, a tempo de ouvir as derradeiras palavras de Hamilton:<\/p>\n<p>\u2212 Da minha ruiva maior de idade cuido eu, seu espertinho. Dela voc\u00ea n\u00e3o chegar\u00e1 mais perto. Nunca mais, para n\u00e3o ter perigo.<\/p>\n<p>Perto dali, uma ave noturna soltou um pio sinistro.<\/p>\n<p>Em seguida, preso dentro da picape cheia de pedras na cabine, o corpo de C\u00e9sar foi tragado pelas \u00e1guas escuras do a\u00e7ude, onde, em segredo, ainda repousa.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail <a href=\"mailto:danielmarchiadv@gmail.com\">danielmarchiadv@gmail.com<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9sar e Hamilton eram amigos de longa data. Amigos mesmo, daqueles que conhecem as hist\u00f3rias mais escabrosas um do outro, n\u00e3o raro tendo ambos nos pap\u00e9is principais. Estudaram juntos, sempre nas mesmas turmas, desde os doze anos, e chegaram quase simultaneamente \u00e0 maioridade, pois faziam anivers\u00e1rio com semanas de diferen\u00e7a. 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