{"id":350746,"date":"2025-03-25T01:24:18","date_gmt":"2025-03-25T04:24:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350746"},"modified":"2025-03-24T21:05:43","modified_gmt":"2025-03-25T00:05:43","slug":"coronel-perde-cachorro-de-estimacao-em-aventura-frustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/coronel-perde-cachorro-de-estimacao-em-aventura-frustrada\/","title":{"rendered":"Coronel perde cachorro de estima\u00e7\u00e3o em aventura frustrada"},"content":{"rendered":"<p>Abrigados precariamente da chuvarada em uma sapopemba, amaldi\u00e7oamos a estupidez de sair para a ca\u00e7ada mesmo com os sinais negros da tempestade anunciada.<\/p>\n<p>Comemos os sanduiches encharcados e aproveitamos os fios d\u2019\u00e1gua que nos ca\u00edam pelas costas para encher os cantis.<br \/>\nDormir \u2013 nem pensar. A umidade parecia penetrar at\u00e9 os ossos e molhar a alma e, a despeito da esta\u00e7\u00e3o quente, um friozinho insidioso subia pelas pernas.<\/p>\n<p>&#8211; E se vem uma cobra pra sair da chuva?<\/p>\n<p>&#8211; Cobra tem medo de chuva?<\/p>\n<p>&#8211; Sei l\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Passava das quatro horas e o dia amea\u00e7ava acabar sem um tiro sequer.<\/p>\n<p>Meio adormecido eu sonhei com sol quente nas costas e acordei com um sobressalto com a \u00e1gua que escorria pelo tronco e descia pelo lombo.<\/p>\n<p>Vamo, n\u00e3o vamo, vamo esper\u00e1 mais um pouco, isso n\u00e3o deve durar pra sempre e pior ainda vai ser andar de noite com este tempo&#8230;<\/p>\n<p>Gotas brilhavam como vagalumes hipnotizando o olhar cansado e desesperan\u00e7oso enquanto perd\u00edamos a conta do tempo.<\/p>\n<p>Parecia que aquilo n\u00e3o ia terminar, quando a chuva amainou e o c\u00e9u bruxuleou, trazendo a esperan\u00e7a do fim do cativeiro for\u00e7ado.<\/p>\n<p>De um momento para outro o c\u00e9u acendeu com um sol t\u00edmido e promissor.<\/p>\n<p>Deixamos, sem saudade, o abrigo providencial.<\/p>\n<p>Com sol os bichos v\u00e3o sair da toca \u2013 disse um.<\/p>\n<p>Com uma leve esperan\u00e7a desconfiada tiramos as ca\u00e7adeiras das capas e carregamos \u2013 cartucho de chumbo fino no cano esquerdo e bala no direito.<\/p>\n<p>A trilha molhada e trai\u00e7oeira parecia alongar-se sem fim.<\/p>\n<p>Uma eternidade mais tarde vislumbramos o aramado da cerca da fazenda do coronel Pancr\u00e1cio, velho enrustido e irritadi\u00e7o que n\u00e3o cumprimentava ningu\u00e9m, como se cumprimento fosse pago, e o que era de bom costume e<br \/>\neduca\u00e7\u00e3o naquelas bandas. Evit\u00e1vamos a sua presen\u00e7a e a sua raiva sem raz\u00e3o nem prop\u00f3sito, j\u00e1 que n\u00e3o se podia evitar a inc\u00f4moda vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Parar para descansar n\u00e3o nos passava pela cabe\u00e7a, apesar da fadiga que crescia a cada passo.<br \/>\n&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p>O mato fechou de novo e entramos em um grot\u00e3o sombrio no lusco-fusco de final de tarde, com as gotas que ca\u00edam das folhas aumentando o desconforto das roupas molhadas.<\/p>\n<p>Descansamos um pouco para beber \u00e1gua e enganar o est\u00f4mago que roncava \u00e0 espera de um jantar no seco.<\/p>\n<p>Retornamos ao caminho com medo de n\u00e3o chegar em casa ainda com luz. O dia acaba r\u00e1pido naquelas alturas.<\/p>\n<p>De repente, um dos companheiros vislumbrou algo e sinalizou urgente para parar e escutar. Barulho de alguma coisa na vegeta\u00e7\u00e3o fechada \u00e0 nossa direita \u2013 mutum ciscando? Cutia? N\u00e3o, devia ser maior; cateto? Queixada? Veado mateiro? N\u00e3o dava tempo de estimar o tamanho ou a ra\u00e7a. Avan\u00e7amos em sil\u00eancio, evitando as po\u00e7as d\u2019\u00e1gua, as botas coaxando e os ganchos do capim vem-c\u00e1 prendendo as roupas, as armas destravadas, os nervos tensos como arames de cerca.<\/p>\n<p>Alguma coisa deu uma corridinha e parou. \u00c9 caititu, mas t\u00e1 sozinho, curioso! Vai ser duro carregar a carca\u00e7a at\u00e9 em casa&#8230; e j\u00e1 saboreamos a carne escura, reimosa e deliciosa. Al\u00e9m da admira\u00e7\u00e3o dos vizinhos &#8211; e vizinhas.<\/p>\n<p>Uma sombra correu e estancou: olho brilhante e pelo escuro.<\/p>\n<p>Deixa pra mim! Hesitei entre bala e chumbo. Descarreguei o cano de bala.<\/p>\n<p>O bicho caiu estrebuchando e corremos pra pegar. Estava salvo o dia &#8211; e a nossa reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que ia na frente estancou e sussurrou baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; Pessoal, \u00e9 o cachorro de estima\u00e7\u00e3o do coronel! Eu conhe\u00e7o ele, o bicho j\u00e1 me deu muita carreira!<\/p>\n<p>&#8211; Vamo enterr\u00e1?<\/p>\n<p>&#8211; Nessa chuva? E como? Sem enxada nem p\u00e1? E se chega gente? Melhor sa\u00ed de mansinho enquanto d\u00e1!<\/p>\n<p>Chegamos a casa ofegantes, rezando pra todos os santos, prometendo n\u00e3o pecar mais por algum tempo &#8211; e lembrando o 11\u00aa mandamento: n\u00e3o ser apanhado no ato&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>Prof. D. Sc. Fernando Dias de Avila Pires<br \/>\nDepartamento de Medicina Tropical<br \/>\nInstituto Oswaldo Cruz, FIOCRUZ<br \/>\nRua Bico de Lacre, 79, Cacup\u00e9<br \/>\nFlorian\u00f3polis, SC, Brasil &#8211;\u00a0 88050-150<br \/>\ntel: 55 48 32071490<br \/>\nAcademia.edu:\u00a0<a href=\"https:\/\/independent.academia.edu\/FernandoAvilaPires\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/independent.academia.edu\/FernandoAvilaPires&amp;source=gmail&amp;ust=1742946418806000&amp;usg=AOvVaw3ee-9eSNDFuVpHxsfxXEAC\">https:\/\/independent.academia.e<wbr \/>du\/FernandoAvilaPires<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abrigados precariamente da chuvarada em uma sapopemba, amaldi\u00e7oamos a estupidez de sair para a ca\u00e7ada mesmo com os sinais negros da tempestade anunciada. Comemos os sanduiches encharcados e aproveitamos os fios d\u2019\u00e1gua que nos ca\u00edam pelas costas para encher os cantis. 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