{"id":350881,"date":"2025-03-26T09:43:24","date_gmt":"2025-03-26T12:43:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350881"},"modified":"2025-03-26T09:52:13","modified_gmt":"2025-03-26T12:52:13","slug":"hugo-montenegro-de-trilhas-sonoras-hollywoodianas-ganha-espaco-no-meier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/hugo-montenegro-de-trilhas-sonoras-hollywoodianas-ganha-espaco-no-meier\/","title":{"rendered":"Hugo Montenegro, de trilhas sonoras hollywoodianas, ganha espa\u00e7o no M\u00e9ier"},"content":{"rendered":"<p>Nasci em 1979. Desde crian\u00e7a, tive um gosto musical diferente. Lembro-me de um anivers\u00e1rio, de 6 ou 7 anos, em que os discos mais vendidos do momento eram da Xuxa e do Trem da Alegria, e eu fiz quest\u00e3o de que meus amigos ouvissem uma ent\u00e3o recente descoberta musical que fizera: Secos &amp; Molhados. Minha irm\u00e3 e uma vizinha me demoveram da ideia, e acabaram no toca-discos LP\u2019s mais condizentes com a faixa et\u00e1ria da maioria dos convidados. Esta vizinha, que os emprestara, com pena de mim, deu-me o disco do Trem da Alegria, talvez pensando que eu n\u00e3o tivera acesso \u00e0 m\u00fasica infantil. Lembro que me interessei muito por ele \u2013 trazia algumas faixas com a base instrumental das m\u00fasicas, para as crian\u00e7as cantarem junto. Foram as que mais me chamaram a aten\u00e7\u00e3o, pois j\u00e1 reparava nos arranjos.<\/p>\n<p>Creio que, se eu fosse conduzido para a m\u00fasica, aprenderia bastante. Foi depois de homem feito que tomei a iniciativa de estudar alguma coisa na \u00e1rea. Teoria musical, instrumentos de sopro, piano, bateria \u2013 j\u00e1 passei por tudo isso. Adoro descobrir coisas que eu n\u00e3o sei. Sou fascinado pela leitura fluente de partituras, algo que eu n\u00e3o consigo fazer, mas ao menos olho para uma pauta e n\u00e3o me sinto mais um completo analfabeto naqueles s\u00edmbolos mi\u00fados representando claves, armaduras, colcheias, fusas, sem\u00ednimas e pausas.<\/p>\n<p>Quanto aos m\u00fasicos preferidos, o norte-americano Ray Conniff (1916-2002) continua em primeiro lugar no meu cora\u00e7\u00e3o. Ainda escreverei a meus leitores sobre minha admira\u00e7\u00e3o pelo saudoso maestro que fundia vozes humanas, metais e palhetas, sempre com um impec\u00e1vel senso de ritmo e respeito \u00e0s melodias, de quem fui at\u00e9 membro do f\u00e3 clube internacional. Mas, junto a ele, outros dois comp\u00f5em uma tr\u00edade sagrada na trilha sonora da minha vida: os maestros Percy Faith (1908-1976) e Hugo Montenegro (1925-1981).<\/p>\n<p>\u00c9 sobre o \u00faltimo que queria falar hoje, pois um recente fato ligado \u00e0 sua hist\u00f3ria me fez refletir acerca de como o tempo pode tentar apagar um legado e, ao mesmo tempo, lan\u00e7ar luz nova sobre a obra de uma pessoa.<\/p>\n<p>Hugo Mario Montenegro nasceu em Nova Iorque, oriundo de uma fam\u00edlia italiana. Aprendeu m\u00fasica desde cedo e, ao alistar-se na Marinha, em plena 2.\u00aa Guerra Mundial, foi logo incumbido de escrever arranjos para a orquestra que entretinha os soldados instalados numa grande base naval antes e depois dos treinamentos. Saindo da for\u00e7a, foi arranjador de outros m\u00fasicos e pequenos selos discogr\u00e1ficos e, em 1956, lan\u00e7ou seu primeiro disco solo. Ao longo da carreira, n\u00e3o foi um grande vendedor de discos, embora haja conquistado um lugar como autor de trilhas sonoras para s\u00e9ries e programas de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Contratado da RCA, nem teria seu contrato renovado em 1967 quando, estourando com a vers\u00e3o que gravara em compacto do tema do filme de faroeste italiano \u201cO Bom, o Mau e o Feio\u201d, de Ennio Morriconi, vendeu mais de um milh\u00e3o de c\u00f3pias e deu f\u00f4lego novo \u00e0 sua carreira. Em 1972, a pedido da gravadora, come\u00e7ou a pesquisar como o c\u00e9rebro humano entendia espacialmente o som reproduzido e, de forma pioneira, foi o primeiro m\u00fasico da RCA a lan\u00e7ar um disco quadraf\u00f4nico, em que quatro canais de \u00e1udio separados s\u00e3o reproduzidos. Continuou gravando regularmente at\u00e9 1976 quando, sofrendo de um severo enfisema pulmonar, precisou parar de trabalhar, morrendo alguns anos depois, no auge de seus 55, na casa em que residia em Palm Springs, Calif\u00f3rnia.<\/p>\n<p>Talvez voc\u00ea que me l\u00ea j\u00e1 deva ter ouvido ao menos uma vez uma composi\u00e7\u00e3o de Hugo Montenegro, mesmo sem saber. \u00c9 dele, por exemplo, o famoso tema da s\u00e9rie de TV \u201cJeannie \u00e9 um G\u00eanio\u201d, que come\u00e7ou a ser usado a partir da segunda temporada. O filme de Elvis Presley intitulado \u201cCharro\u201d, o \u00fanico em que Elvis \u00e9 apenas ator, pois n\u00e3o se trata de um musical, tem toda a m\u00fasica descritiva e o arranjo do tema principal sob o cr\u00e9dito de Hugo Montenegro. O pr\u00f3prio rei do rock fez quest\u00e3o de que Hugo, um colega de gravadora, emprestasse seu talento ao longa-metragem. O \u00faltimo filme de Sharon Tate, atriz que teria tr\u00e1gico desfecho, tamb\u00e9m deve a Hugo a trilha sonora, bem como o antol\u00f3gico filme \u201cLady In Cement\u201d, estrelado por Frank Sinatra, em que ele, meio canastr\u00e3o, deu vida ao detetive Tony Rome.<\/p>\n<p>Comecei a gostar de Hugo ali pelos 7, 8 anos de idade, gra\u00e7as a um disco de 1969 intitulado \u201cGood Vibrations\u201d, encontrado ao acaso entre outros LP\u2019s na minha casa, que meu pai guardava desde que fora dono do restaurante em um clube na beira da praia no Rio de Janeiro. Ele recebia esses discos como promo\u00e7\u00e3o e, quando deixou de tocar o neg\u00f3cio, levou-os para casa, onde ficaram guardados por anos at\u00e9 que minha curiosidade de menino os fosse fu\u00e7ar. Ficava impressionado como a capa, roxa e com um letreiro meio psicod\u00e9lico, parecia ganhar vida quando a gir\u00e1vamos levemente e as letras coloridas que formavam seu t\u00edtulo pareciam rodar. Toquei o disco numa antiga vitrolinha e me apaixonei \u00e0 primeira audi\u00e7\u00e3o. Jamais deixei de ouvi-lo e, mais tarde, pesquisar sobre ele e expandir minha cole\u00e7\u00e3o com outras grava\u00e7\u00f5es. Hoje, tenho praticamente todos os discos que ele lan\u00e7ou, alguns bem raros no Brasil.<\/p>\n<p>Chegou a meu conhecimento que, recentemente, uma pequena loja nos Estados Unidos, especializada em compra e venda de mercadorias ligadas a artistas e m\u00fasicos em geral, arrematou, num leil\u00e3o promovido por um dep\u00f3sito, uma enorme quantidade de caixas com fitas, discos, partituras, instrumentos musicais, fotos e at\u00e9 documentos pessoais de um artista que n\u00e3o conheciam. Pesquisando um pouco mais a fundo, tiveram contato com a hist\u00f3ria de Hugo Montenegro. Acabaram salvando de ir para o lixo, por falta de pagamento da armazenagem, um important\u00edssimo acervo do artista, ali deixado por sua segunda esposa ap\u00f3s a morte dele. Por alguma raz\u00e3o que n\u00e3o conseguiram descobrir, a dona do acervo parou de pagar a taxa. Eles arremataram tudo por uma ninharia e, aos poucos, est\u00e3o vendendo este acervo em lotes.<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 estive dando uma boa olhada no conte\u00fado. Fiquei apaixonado pelas fotos, algumas de Hugo no ambiente dom\u00e9stico, pela batuta original do maestro, um raro bandolim italiano, contratos, partituras de discos inteiros, a carteirinha dele da marinha, dentre muitas outras coisas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo que me deixou meio entristecido o fato desse importante acervo estar totalmente esquecido num remoto dep\u00f3sito e correr o risco de ser completamente dissipado em pequenas por\u00e7\u00f5es, fiquei feliz pois, em contato com o pessoal da loja, fui informado de que houve bastante interesse nos itens, e f\u00e3s vinham pagando muito bem por eles e arrematando v\u00e1rios objetos.<\/p>\n<p>Ainda assim, espanta-me que um artista t\u00e3o importante, pioneiro e revolucion\u00e1rio, seja relegado a esse obl\u00edvio, a ponto de v\u00e1rios itens, que devem ter-lhe sido caros em vida, estarem sendo espalhados pelo mundo, indo parar nas m\u00e3os de pessoas desconhecidas.<\/p>\n<p>Ao menos os que est\u00e3o comprando essas coisas s\u00e3o verdadeiramente f\u00e3s, e sabem de quem se trata Mr. Montenegro.<\/p>\n<p>Eu, como leg\u00edtimo admirador que tamb\u00e9m sou, n\u00e3o poderia ficar de fora. Apesar das condi\u00e7\u00f5es desfavor\u00e1veis no c\u00e2mbio, arrematei duas lindas fotos originais dele no est\u00fadio, durante uma grava\u00e7\u00e3o, e um cheque assinado pelo maestro, pago ao sindicato dos m\u00fasicos da regi\u00e3o em que residia. Brevemente, estar\u00e3o devidamente emolduradas na parede do meu escrit\u00f3rio, lembrando-me daquele que, ademais, eu jamais esqueceria.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Nota da Reda\u00e7\u00e3o: N\u00f3s, que fazemos Notibras, costumamos nos referir ao Dan como &#8216;O Bruxo do M\u00e9ier&#8217;, onde ele reside<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasci em 1979. Desde crian\u00e7a, tive um gosto musical diferente. 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