{"id":350959,"date":"2025-03-27T10:36:54","date_gmt":"2025-03-27T13:36:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350959"},"modified":"2025-03-27T10:59:08","modified_gmt":"2025-03-27T13:59:08","slug":"antes-do-verbo-era-o-verme-houve-o-apocalipse-e-a-terra-ganhou-em-perfeicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/antes-do-verbo-era-o-verme-houve-o-apocalipse-e-a-terra-ganhou-em-perfeicao\/","title":{"rendered":"Antes do Verbo era o verme; houve o Apocalipse e a Terra ganhou em perfei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Chovia. A noite escura, silenciosa, permitia ouvir o ru\u00eddo das \u00e1guas correndo junto ao meio fio. \u00c1guas polu\u00eddas, coletadas das ruas, corriam ladeira abaixo arrastando o lixo derramado ao c\u00e9u aberto com os restos fecais de gente com ou sem teto &#8211; igualadas no desprezo ao entregar suas imund\u00edcies ao mundo e, assim, desaguar nas bocas de lobo que engoliam com avidez toda a porcaria despejada.<\/p>\n<p>Entre as po\u00e7as e sombras uma figura apoucada, esqu\u00e1lida, possu\u00edda se arrasta deixando-se levar pela enxurrada.<\/p>\n<p>Um mergulho no bueiro, e foi lan\u00e7ado na tubula\u00e7\u00e3o escura, no f\u00e9tido ambiente onde encontrou sua origem de verme do mal.<\/p>\n<p>Contorcido ao ser empurrado contra o limo das paredes, inalando com deleite o cheiro da podrid\u00e3o da sociedade, reconheceu-se parte desse mundo de doen\u00e7as, de horror, viol\u00eancia injetada na pele de quem nasceu para liderar um processo de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Extasiava-se na explora\u00e7\u00e3o de seus vis sentimentos, avaliando como expandir esse mundo para fora e angariar apoio para uma nova civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vermes s\u00e3o respons\u00e1veis pela decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como arquitetar a degenera\u00e7\u00e3o, a contamina\u00e7\u00e3o, a invers\u00e3o dos valores e o apostilamento de novas condutas perversas e sanguin\u00e1rias?<\/p>\n<p>Estava ciente de ser ele &#8211; o grande l\u00edder!<\/p>\n<p>Mergulhado na mistura do esgoto, convivendo com ratazanas, baratas eKafka. Sentiu o enorme prazer de estar ali: sujo, enlameado, endiabrado na condi\u00e7\u00e3o de ser \u00fanico a desbravar o submundo.<\/p>\n<p>Ser das trevas. Urrava! Poderoso, permaneceu em \u00eaxtase mesmo sem gozo.<\/p>\n<p>Agarrou-se com todas as for\u00e7as aos canos enferrujados de onde tirava mais energia e, pensava manter-se estrategista.<\/p>\n<p>Aos poucos, empurrado pela for\u00e7a do volume d\u2019\u00e1gua, cuja vol\u00fapia crescia cada vez mais em suas ondas empanturradas do pr\u00f3prio lixo, viu rescindir o contrato de l\u00edder; submetido e quebrado a sua resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Afinal, a podrid\u00e3o n\u00e3o foi mais forte.<\/p>\n<p>Percorreu quil\u00f4metros adentro da enxurrada sendo levado a contragosto a desembocar num rio.<\/p>\n<p>Jogado, expulso tal qual organismo se livra do baga\u00e7o, revoltou-se por perder o habitat adorado.<\/p>\n<p>Inconformado, se viu perdido. Mergulhado em \u00e1guas purificadas apesar de ainda malhadas, cercado de troncos retorcidos, abra\u00e7ados pelos capins ceifados que \u201cmanguezavam\u201d as margens.<\/p>\n<p>Ainda tentou sobreviver.<\/p>\n<p>Rastejou pelo p\u00e2ntano onde reencontrou seu parentesco verme, ainda no odor e no lama\u00e7al que pretendia desenvolver.<\/p>\n<p>Mas as \u00e1guas s\u00e3o fieis ao seu curso; apesar de toda a garra, foi-se o verme arrolado pelo leito do rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o sobreviveria em \u00e1guas limpas.<\/p>\n<p>Lutou ferozmente para regressar a casa, mas a for\u00e7a da correnteza centrada, o afogava empurrando-o sob o dom\u00ednio do mais forte.<\/p>\n<p>Sentiu-se fragilizado e isso o irritava. Aos poucos perdendo a confian\u00e7a em sua resist\u00eancia, tentava agarrar a cabeleira verde que o vigiava e, ria ao v\u00ea-lo impotente diante do destino ao mar.<\/p>\n<p>E na medida em que percorria e se banhava nas \u00e1guas cristalinas, via a sua figura esqu\u00e1lida submissa enfraquecer, desfazendo-se \u201clesmamente\u201d, enquanto se mantinha no rumo do desaparecer.<\/p>\n<p>E, o curso do rio, sobrevivido \u00e0 tamanha podrid\u00e3o, se expandia dando vida aos peixes que se encarregavam de comer os miasmas do verme que outrora tivera tanto orgulho.<\/p>\n<p>Assim, sendo dizimado, pensou morrer com ele, a maldade, a viol\u00eancia e a devassid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ledo engano.<\/p>\n<p>Os vermes sobreviveram entranhados nas v\u00edsceras dos aqu\u00e1ticos e se proliferaram em sua descend\u00eancia.<\/p>\n<p>Permaneceram vivos naqueles, que incapazes de detect\u00e1-los e que os levavam \u00e0 mesa em jantares festivos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>C\u00e9lulas gosmentas, levadas pela \u00e1gua infiltrada nas paredes do solo conduziam os vermes \u00e0s ra\u00edzes dos vegetais que acompanhariam os decorados pratos da digest\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim se multiplicavam sem mist\u00e9rios ou dogmas, expandindo seu reinado entre o lixo despejado por outros iguais, em busca de espa\u00e7os e domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao chegar ao mar salgado, curtida a carne, seus restos se espraiaram por \u00e1guas profundas e rasas. E ao tocar a areia e se agarrar- ali, encontrou a volta a casa.<\/p>\n<p>E no cen\u00e1rio recomposto, segue o ciclo \u201cvermin\u00e1tico\u201d a renascer fortalecido, em novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E&#8230; Outras noites, t\u00e3o escuras e silenciosas, no ru\u00eddo sussurrante de novos \u201cc\u00f3rregos\u201d pelo asfalto \u2013 novamente, bueiros despidos de filtros: uma boca de lobo voraz aspira ao c\u00edrculo dos horrores que os homens continuaram praticando; at\u00e9 emergir na superf\u00edcie &#8211; as mesmas regras do submundo.<\/p>\n<p>Porque a raiz do mal n\u00e3o desaparece. Simplesmente se reveste aprimorada, espalhada e n\u00e3o necessariamente ser\u00e1 dos \u201cvermes apequenados\u201d.<\/p>\n<p>Uma nova gera\u00e7\u00e3o surge viciada, dependente possu\u00edda pela intoxica\u00e7\u00e3o absorvida.<\/p>\n<p>O terror faz parte do cotidiano, o medo \u00e9 ensinado no ber\u00e7o e, a viol\u00eancia \u00e9 premiada a cada manifesta\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio e poder.<\/p>\n<p>As ruas s\u00e3o campos de guerra. O sol arde mais quente o que provoca o derretimento da carne, obrigando a refugiarem-se em locais \u00famidos e escuros que se tornaram o novo habitat.<\/p>\n<p>O homem nas suas v\u00edsceras transformadas sente intensa dor nas entranhas, em raz\u00e3o de sua nova natureza demon\u00edaca.<\/p>\n<p>A cada ciclo sua apar\u00eancia assume caracter\u00edsticas mais monstruosas. A pele descamada gosmenta desmancha no contato de metais, seu h\u00e1lito azedo emana cheiro de enxofre, sua \u00edris opaca impede de enxergar com nitidez, sua audi\u00e7\u00e3o &#8211; extremamente agu\u00e7ada a ponto de enlouquecer ao menor barulho e por fim, a sua capacidade de fala \u00e9 reduzida ao instinto mais primitivo.<\/p>\n<p>Um novo est\u00e1gio de civiliza\u00e7\u00e3o autof\u00e1gica reaparece at\u00e9 que o \u00faltimo ser seja derrotado.<\/p>\n<p>Este caminho sem volta \u00e9 a vit\u00f3ria da emers\u00e3o do submundo.<\/p>\n<p>O outrora lixo agora \u00e9 ordem.<\/p>\n<p>Mas como tudo tem seu contraponto, atentos \u00e0s a\u00e7\u00f5es malignas, esperando o momento certo de agir sobre o livre arb\u00edtrio dado, a legi\u00e3o de Arcanjos na tr\u00edade: Gabriel, Rafael e Miguel atentos aos dem\u00f4nios, num ato de clem\u00eancia abduziram seres humanos e animais por todos os continentes, e tal como a arca de No\u00e9, aguardaram o momento de devolv\u00ea-los ao planeta liberto das possess\u00f5es e do pr\u00f3prio exorcismo.<\/p>\n<p>Eis que nesse conturbado cen\u00e1rio, uma voz rasga o tempo e brada: , \u201cExorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii, omnis legio, omnis congregatio et secta diabolica, in nomine et virtute Domini Nostri Jesu Christi\u201d.<\/p>\n<p>E entre trov\u00f5es e raios de luz b\u00edblicos, acontece o Apocalipse.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>Enquanto o planeta sofre por uma purifica\u00e7\u00e3o das \u00e1guas, do solo, dos ventos, das entranhas, contorcendo-se em l\u00ednguas de fogo, a queimar todo o mal e vest\u00edgios, revirado pelo avesso.<\/p>\n<p>Sil\u00eancio!<\/p>\n<p>Aguardam as divindades o momento.<\/p>\n<p>Em tempo, a Terra ressuscita liberta, recomposta na sua natureza limpa e ent\u00e3o, s\u00e3o reposicionados &#8211; os puros.<\/p>\n<p>Assim, ficou para tr\u00e1s outro momento da evolu\u00e7\u00e3o do homem- da expia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pisam agora numa Terra que deixou o sistema Solar e se projetou na Gal\u00e1xia para mais pr\u00f3xima da perfei\u00e7\u00e3o. E, totalmente absolvida da possess\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chovia. 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