{"id":350993,"date":"2025-03-28T01:38:44","date_gmt":"2025-03-28T04:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=350993"},"modified":"2025-03-27T23:41:19","modified_gmt":"2025-03-28T02:41:19","slug":"crime-e-castigo-do-tio-anacleto-ou-a-historia-de-infidelidade-na-era-pre-celular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/crime-e-castigo-do-tio-anacleto-ou-a-historia-de-infidelidade-na-era-pre-celular\/","title":{"rendered":"Crime e castigo do tio Anacleto (ou a infidelidade na era pr\u00e9-celular)"},"content":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m pode negar que o celular &#8211; junto com os seus in\u00fameros aplicativos &#8211; foi um grande salto para a humanidade e um largu\u00edssimo passo para o bem-estar dos indiv\u00edduos? L\u00f3gico que n\u00e3o!<\/p>\n<p>Dif\u00edcil listar todos os benef\u00edcios do m\u00e1gico aparelho sem esquecer algum, sendo que, atualmente, \u00e9 imposs\u00edvel imaginar a nossa vida sem ele.<\/p>\n<p>Entretanto, como insistem em dizer alguns saudosistas da era do r\u00e1dio, da televis\u00e3o e do telefone fixo, o celular, associado principalmente ao WhatsApp, abduziu inteiramente a secreta alegria do indiv\u00edduo em fazer algumas coisas de improviso sem ter que prestar contas \u00e0 fam\u00edlia ou aos mais pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, tamb\u00e9m n\u00e3o pod\u00edamos avisar ou prevenir ningu\u00e9m sobre alguma mudan\u00e7a de percurso ou eventuais atrasos.<\/p>\n<p>Antigamente n\u00e3o fic\u00e1vamos sempre comunic\u00e1veis ou &#8220;encontr\u00e1veis&#8221;. Isso era bom ? Era ruim? Talvez sim, talvez n\u00e3o, a depender dos sentimentos de cada um de n\u00f3s sobre a vida em si.<\/p>\n<p>Entender uma hist\u00f3ria ocorrida no inicio da d\u00e9cada dos anos 90, quando o celular ainda n\u00e3o existia, torna-se uma tarefa dif\u00edcil para os mais jovens.<\/p>\n<p>Mas Ja\u00edlson, que acabara de se formar em jornalismo, queria muito ouvir a narrativa da desventura, ocorrida h\u00e1 muitos anos, que mudou para sempre a vida do seu amargurado tio Anacleto. Ele sempre ouvira \u00e0 boca pequena nos almo\u00e7os de fam\u00edlia, as tias fofoqueiras fazendo refer\u00eancia a como Anacleto desgra\u00e7ara a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Oficialmente, ningu\u00e9m contava nada, muito menos o desgra\u00e7ado abria o bico. Mas Ja\u00edlson tanto insistiu que, em um dia de fraqueza e melancolia, Anacleto cedeu e chamou o sobrinho para tomar uma cerveja no bar do Josias. E, finalmente, matou a curiosidade do rapaz.<\/p>\n<p>-O primeiro ato do drama aconteceu em um maldito dia trinta de agosto, m\u00eas de c\u00e3es danados, come\u00e7ou Anacleto.<\/p>\n<p>&#8211; De que ano, tio? perguntou Jailson, ansioso para situar o causo em uma faixa temporal.<\/p>\n<p>&#8211; Mil novecentos e noventa e dois, lembro como se fosse hoje!<\/p>\n<p>&#8211; Nossa, isso tem vinte e oito anos, admirou-se Jailson, que ainda nem tinha essa idade.<\/p>\n<p>&#8211; Pois \u00e9, sobrinho! Eu achava que era muito malandro, mas n\u00e3o passava de um idiota. Eu e meus colegas est\u00e1vamos em um congresso nacional dos banc\u00e1rios em Belo Horizonte, tinha gente de todo o pa\u00eds&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em Belo Horizonte? E o senhor j\u00e1 morava aqui em Porto Alegre ou ainda estava em Pelotas?<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 morava em Porto Alegre, estava casado com a Margarete e o seu primo Geraldinho tinha quatro anos. Maldita hora em que decidi participar daquele congresso&#8230;que me perdoem os velhos companheiros daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>&#8211; E ent\u00e3o, o que aconteceu em Belo Horizonte?<\/p>\n<p>&#8211; No inicio foi tudo alegria, os debates, o fervilhar de v\u00e1rias culturas regionais, a camaradagem e&#8230;as mulheres, acrescentou Anacleto com um sorriso melanc\u00f3lico.<\/p>\n<p>&#8211; Imagino, disse Jailson, sorrindo maliciosamente.<\/p>\n<p>&#8211; Por absoluta maldade do destino, sentei ao lado da Maria Alice no plen\u00e1rio dos debates gerais. Ela era uma t\u00edpica e cativante mineira, sorriso luminoso, charme envolvente, jeitinho brejeiro. Nos entendemos \u00e0s mil maravilhas, a\u00ed imaginei um jeito de ficar sozinho com ela sem parecer desrespeitoso.<\/p>\n<p>&#8211; E como foi isso?<\/p>\n<p>&#8211; Bem, disse a ela que precisava comprar um presente para o meu afilhado de quatro anos de idade e, ap\u00f3s o primeiro dia do congresso, pedi para ela me ajudar nessa tarefa inocente. Na verdade, eu ia matar dois coelhos com uma cajadada s\u00f3 e levar um presente para o Geraldinho.<\/p>\n<p>&#8211; E a estrat\u00e9gia deu certo?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, deu certo at\u00e9 demais! Fomos juntos ao shopping, compramos um belo autorama, emendamos com um chopinho, muita conversa e finalmente acabamos passando a noite juntos no hotel onde estavam alojadas as delega\u00e7\u00f5es do evento.<\/p>\n<p>&#8211; Entendi, sucesso total! Mas e depois? Perguntou o excitado rapaz.<\/p>\n<p>&#8211; Ficamos juntos durante os dois dias do congresso e, ao final, nos despedimos sem muita cerim\u00f4nia. Lembre-se sobrinho, n\u00e3o existia celular para o \u201cme passe seu contato\u2019 e uma linha fixa de telefone era um luxo, portanto, f\u00e1cil de dizer que eu n\u00e3o tinha.<\/p>\n<p>Nos despedimos com dois beijinhos e pensei que a coisa tinha acabado ali.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o o senhor voltou para Porto Alegre, tranquilo e sem nem pensar mais no assunto? Hoje, a mineirinha descobriria tudo sobre o senhor e seu paradeiro com um clic de internet&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas calma que n\u00e3o foi bem assim. Aconteceu o impens\u00e1vel, o surreal!<\/p>\n<p>&#8211; O que, o que??!!<\/p>\n<p>&#8211; Eu, Margarete e o Geraldinho mor\u00e1vamos em um condom\u00ednio de banc\u00e1rios no bairro Partenon. At\u00e9 hoje, n\u00e3o sei como deixei escapar essa informa\u00e7\u00e3o para Maria Alice. Vacilei feio!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o aconteceu o que estou imaginando, aconteceu?<\/p>\n<p>&#8211; Aconteceu sim, sobrinho! No feriado de sete de setembro, Maria Alice apareceu no condom\u00ednio, descobriu com algum vizinho o n\u00famero do meu apartamento e subiu de mala e tudo.<\/p>\n<p>&#8211; Nossa! E a\u00ed&#8230;???, quis saber Jailson, de olhos arregalados.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed ela tocou a campainha e eu abri a porta sem espiar no olho m\u00e1gico!<\/p>\n<p>Fiquei paralisado e mudo como uma est\u00e1tua quando a vi. Ela me abra\u00e7ou, me beijou e disse que queria me rever e, como eu n\u00e3o tinha telefone, n\u00e3o pode me avisar que estava vindo a Porto Alegre. Achou que seria rom\u00e2ntico me fazer uma surpresa.<\/p>\n<p>&#8211; Eita! E a tia Margarete?<\/p>\n<p>&#8211; Margarete foi ver quem era e as duas se olharam fixamente por infinitos segundos, sem nenhuma delas entender nada a princ\u00edpio!<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim&#8230;e ent\u00e3o??? perguntou Jailson, empolgado.<\/p>\n<p>&#8211; As duas me perguntaram ao mesm\u00edssimo tempo: &#8220;Quem \u00e9 ela???&#8221;<\/p>\n<p>Olhei alternadamente para ambas, tentando ganhar tempo, pensei at\u00e9 em fingir um mal s\u00fabito, mas absurdamente, exclamei &#8211; N\u00e3o tenho a menor ideia!<\/p>\n<p>&#8211; Xeque-mate! Exclamou o sobrinho.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, xeque-mate aplicado sem piedade nesse enxadrista amador! A partir desse momento, parece que tudo aconteceu como em &#8220;cr\u00f4nica de uma morte anunciada&#8221;: gritos e xingamentos, Maria Alice indo embora enfurecida porque eu n\u00e3o contara que era casado e pai de um filho, Margarete me colocando para fora do apartamento, eu me hospedando em um hotel, a audi\u00eancia de separa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Que babado, tio! E como a situa\u00e7\u00e3o progrediu?<\/p>\n<p>&#8211; Para Maria Alice, n\u00e3o sei, nunca mais falei com ela. Margarete, depois de um m\u00eas, mudou-se com nosso filho para o Rio de Janeiro e logo casou-se com um banqueiro.<\/p>\n<p>&#8211; E para o senhor?<\/p>\n<p>&#8211; Bem, eu tive que entregar quase todos meus bens para Margarete, ent\u00e3o mudei para uma quitinete. Casei e me separei mais duas vezes e agora vivo sozinho, olhando a chuva bater nos vidros da janela, enquanto rumino essa hist\u00f3ria, fumo e tomo um caf\u00e9 sem a\u00e7\u00facar e sem afeto.<\/p>\n<p>&#8211; Lamento muito pelo senhor, tio Anacleto! Mas agrade\u00e7o por ter me contado sua hist\u00f3ria&#8230; acho que j\u00e1 encontrei inspira\u00e7\u00e3o para a minha pr\u00f3xima cr\u00f4nica no <em>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio<\/em>!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algu\u00e9m pode negar que o celular &#8211; junto com os seus in\u00fameros aplicativos &#8211; foi um grande salto para a humanidade e um largu\u00edssimo passo para o bem-estar dos indiv\u00edduos? L\u00f3gico que n\u00e3o! Dif\u00edcil listar todos os benef\u00edcios do m\u00e1gico aparelho sem esquecer algum, sendo que, atualmente, \u00e9 imposs\u00edvel imaginar a nossa vida sem ele. 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