{"id":351225,"date":"2025-04-01T07:55:49","date_gmt":"2025-04-01T10:55:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=351225"},"modified":"2025-04-01T07:55:49","modified_gmt":"2025-04-01T10:55:49","slug":"tutela-militar-permitiu-golpismo-contra-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tutela-militar-permitiu-golpismo-contra-lula\/","title":{"rendered":"Tutela militar permitiu golpismo contra Lula"},"content":{"rendered":"<p>Tanto em 1964 quanto ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2022, oficiais militares do Ex\u00e9rcito se insurgiram contra a soberania popular vinda do voto. Em ambos os casos, revelou-se o entendimento comum de militares de que eles devem definir o destino do pa\u00eds \u00e0 revelia das escolhas populares e tutelando a sociedade civil.<\/p>\n<p>Essa seria uma das principais semelhan\u00e7as entre os dois epis\u00f3dios, segundo cientistas sociais. Para os especialistas, os dois casos refor\u00e7am a necessidade de reformas nas For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Entre as principais diferen\u00e7as entre os epis\u00f3dios hist\u00f3ricos, est\u00e3o a falta de coes\u00e3o dos setores empresarias para o golpe ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2022 e a falta de apoio internacional, especialmente do governo dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O historiador Manuel Domingos Neto, professor aposentado da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFCE), destacou que, em ambos os epis\u00f3dios, os militares atribu\u00edram a si o direito de definir o destino da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s temos o esp\u00edrito corporativo que diz que cumpre aos militares, em particular ao Ex\u00e9rcito, conduzir o destino do pa\u00eds. E essa sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma em 1964 e 2022. Ela \u00e9 persistente. O militar \u00e9 criado nessa no\u00e7\u00e3o que ele recebe na sua forma\u00e7\u00e3o\u201d, destacou Neto, que pesquisa a hist\u00f3ria militar no Brasil.<\/p>\n<p>A professora de hist\u00f3ria do Brasil da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU) Carla Teixeira destacou a rejei\u00e7\u00e3o de comandantes militares de aceitaram a lideran\u00e7a de um presidente civil escolhido pela popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEm 1964, assim como em 2023, temos um arranjo de grupos de poder que tentam barrar a vontade popular. O atual comandante do Ex\u00e9rcito, o general Tom\u00e1s Paiva, revelou que o resultado eleitoral n\u00e3o foi o que os militares gostariam. Ainda que nem todos os oficiais tenham aderido ao golpe, \u00e9 fato que eles n\u00e3o aceitavam a figura do Lula\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Para Carla Teixeira, doutora em hist\u00f3ria pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a conjuntura desfavor\u00e1vel evitou que todos os oficiais aderissem ao golpe. \u201cDar o golpe \u00e9 f\u00e1cil, sustentar o governo depois \u00e9 que \u00e9 o problema. Os comandantes militares perceberam que n\u00e3o havia apoio na sociedade e no estrangeiro\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Protagonismo do Ex\u00e9rcito<\/strong><br \/>\nO cientista pol\u00edtico Rodrigo Lentz, que estuda o pensamento pol\u00edtico do militar brasileiro, destacou o protagonismo dos oficiais militares do Ex\u00e9rcito como importante semelhan\u00e7a entre os dois epis\u00f3dios.<\/p>\n<p>\u201cEm ambos os casos, os protagonistas foram oficiais militares, e n\u00e3o pra\u00e7as, e da sua maioria do Ex\u00e9rcito. A segunda principal semelhan\u00e7a \u00e9 que esses militares se insurgiram contra a soberania popular aferida pelo meio eleitoral, que \u00e9 o m\u00e9todo leg\u00edtimo para forma\u00e7\u00e3o de governo\u201d, comentou.<\/p>\n<p>Outra importante semelhan\u00e7a entre os epis\u00f3dios foi o forte apoio dos setores do empresariado agr\u00e1rio. \u201cA gente teve em 2022 um amplo apoio dos setores agr\u00e1rios \u00e0 tentativa de golpe. Como ficou claro depois, nos inqu\u00e9ritos, que o pessoal do agro que pagou os acampamentos, como o pr\u00f3prio Mauro Cid [ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro] delatou\u201d, disse a professora Carla Teixeira.<\/p>\n<p><strong>Inimigo interno e neoliberalismo<\/strong><br \/>\nA doutora em hist\u00f3ria pela UFMG Carla Teixeira acrescentou ainda que, assim como em 1964, esse grupo que quis se perpetuar no poder construiu a ideia de inimigo interno a ser combatido.<\/p>\n<p>\u201cEm 64, havia, no \u00e2mbito da sociedade, a ideia de uma amea\u00e7a comunista. E hoje a gente tem a ideia do marxismo cultural, da ideologia de g\u00eanero, do globalismo, os professores, os cientistas, os artistas, enfim, todos esses grupos que foram al\u00e7ados para o lugar de inimigo pelo governo Bolsonaro\u201d, acrescentou Carla Teixeira.<\/p>\n<p>Outra semelhan\u00e7a \u00e9 o projeto de instituir uma pol\u00edtica de corte neoliberal como pol\u00edtica de Estado. \u201cDurante o governo do Castelo Branco [1964-1967], foram institu\u00eddas v\u00e1rias medidas liberais que levaram a um aumento da desigualdade social, como o fim de direitos trabalhistas, a exemplo do direito \u00e0 estabilidade no emprego\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>A historiadora ressaltou que, no governo Bolsonaro, as pol\u00edticas de corte neoliberal eram representadas pelo ent\u00e3o ministro da Economia, Paulo Guedes, e pelo Projeto de Na\u00e7\u00e3o: o Brasil em 2035, lan\u00e7ado pelo Instituto General Villas B\u00f4as, entidade que leva o nome de um dos militares de maior prest\u00edgio nas For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um projeto que, basicamente, institui o neoliberalismo como pol\u00edtica de Estado. Haveria a cobran\u00e7a de mensalidade nas universidades p\u00fablicas, cobran\u00e7a de mensalidade no SUS [Sistema \u00danico de Sa\u00fade] e assim por diante. Isso revela muito essa ades\u00e3o dos militares a um projeto neoliberal\u201d, completou.<\/p>\n<p><strong>Diferen\u00e7as<\/strong><br \/>\nApesar das enormes semelhan\u00e7as, muitas s\u00e3o as diferen\u00e7as entre o golpe de 1964 e o movimento golpista que culminou com o 8 de janeiro de 2023. O especialista Rodrigo Lentz destacou que, em 1964, est\u00e1vamos em plena Guerra Fria e existiam movimentos revolucion\u00e1rios espalhados na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u201cHavia a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana de 1959. Havia ainda a grande novidade do processo eleitoral e grande instabilidade. Todos os resultados eleitorais foram questionados, houve subleva\u00e7\u00f5es de militares, sempre de extrema-direita. O cen\u00e1rio era muito distinto, analfabetos n\u00e3o votavam, o Brasil ainda estava em processo de urbaniza\u00e7\u00e3o\u201d, lembrou Rodrigo Lentz.<\/p>\n<p>Agora, em 2022, o contexto \u00e9 outro. \u201cN\u00f3s v\u00ednhamos de certa estabilidade pol\u00edtico-eleitoral, com sucessivas altern\u00e2ncias de poder com reconhecimento do resultado. Certa regularidade partid\u00e1ria. E tamb\u00e9m temos hoje uma sociedade democr\u00e1tica que se desenvolveu e se fortaleceu, o que tem diferen\u00e7a para o per\u00edodo pr\u00e9-64, que o Brasil ainda engatinhava na constru\u00e7\u00e3o da sua sociedade civil\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Banho de sangue&#8221;<\/strong><br \/>\nO historiador Manuel Domingos Neto avalia tamb\u00e9m que a consci\u00eancia democr\u00e1tica atual da sociedade brasileira difere do per\u00edodo pr\u00e9-1964. \u201cPor mais fragilizada que seja a consci\u00eancia democr\u00e1tica brasileira, ela existe e existe, inclusive, como fruto da resist\u00eancia \u00e0 \u00faltima ditadura\u201d, disse.<\/p>\n<p>O especialista ressaltou que as lembran\u00e7as da \u00faltima ditadura foram reavivadas, e isso desfavoreceu o movimento golpista recente, citando, como exemplo, o sucesso do filme Ainda Estou Aqui, que trata da ditadura.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 essa resist\u00eancia ampla da sociedade. Os brasileiros que n\u00e3o conhecem o que foi a ditadura, por outro lado, sabem o que \u00e9 a liberdade. Eles est\u00e3o nas cidades, n\u00e3o \u00e9 como no passado, que o Brasil era essencialmente rural. Isso faz diferen\u00e7a. O banho de sangue teria que ser muito grande para eles conseguirem se manter no poder\u201d, analisou Manuel Domingos Neto.<\/p>\n<p><strong>Apoio dos EUA<\/strong><br \/>\nEntre as principais diferen\u00e7as entre 1964 e a tentativa de golpe atual, a professora Carla Teixeira citou a falta de coes\u00e3o dos setores empresariais e a falta de apoio externo.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o houve coes\u00e3o da burguesia nacional e estrangeira. Em 1964, toda a burguesia era a favor do golpe. A burguesia agr\u00e1ria, a urbana, as classes m\u00e9dias, os grupos dominantes, nacionais e estrangeiros, e tinha amplo apoio dos Estados Unidos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Dessa vez, destacou a especialista, os setores empresariais estavam divididos. Ela lembra, por exemplo, o apoio a Lula de Simone Tebet e Geraldo Alckmin, que seriam figuras que representam setores do empresariado.<\/p>\n<p>\u201cTinha um grupo ali da burguesia que votou no Bolsonaro, mas que n\u00e3o estava disposto a dar o golpe. O custo pol\u00edtico seria muito grande.\u201d<\/p>\n<p>Outro fator foi a posi\u00e7\u00e3o dos EUA. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 um golpe sem combinar com a burguesia, sem combinar com grupos estrangeiros, e o Bolsonaro n\u00e3o fez nada disso. Ningu\u00e9m d\u00e1 golpe no Brasil sem apoio dos Estados Unidos\u201d, completou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tanto em 1964 quanto ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2022, oficiais militares do Ex\u00e9rcito se insurgiram contra a soberania popular vinda do voto. Em ambos os casos, revelou-se o entendimento comum de militares de que eles devem definir o destino do pa\u00eds \u00e0 revelia das escolhas populares e tutelando a sociedade civil. 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