{"id":351329,"date":"2025-04-04T01:12:55","date_gmt":"2025-04-04T04:12:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=351329"},"modified":"2025-04-03T19:13:24","modified_gmt":"2025-04-03T22:13:24","slug":"entre-entulhos-uma-bela-historia-marcada-pelo-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/entre-entulhos-uma-bela-historia-marcada-pelo-tempo\/","title":{"rendered":"Entre entulhos, uma bela hist\u00f3ria marcada pelo tempo"},"content":{"rendered":"<p>Deprimida eu brigava com a vida, minha vontade de viver era enorme, contradit\u00f3rio eu sei, temos a impress\u00e3o de que deprimido n\u00e3o quer viver, errado, eu ansiava pela vida em sua totalidade.<\/p>\n<p>Minha vontade se tornou desespero, mulher, educada para se casar, para manter um casamento, uma casa, um l\u00e1, eu n\u00e3o dava conta e me sentia culpada.<\/p>\n<p>Culpada por n\u00e3o dar conta de tantas tarefas, por n\u00e3o conseguir cuidar de mim, mas principalmente por n\u00e3o aguentar meu casamento. Religiosa entrei numa briga interna, eu discutia comigo me perguntando porque eu n\u00e3o era capaz de amar meu marido? Seria t\u00e3o simples, ele j\u00e1 estava ali mesmo.<\/p>\n<p>A dor aumentava a cada dia, eu queria o fim do meu casamento, no entanto eu n\u00e3o buscava nada demais, na minha cabe\u00e7a eu s\u00f3 queria caminhar na praia sem que isso fosse um problema, eu queria dormir at\u00e9 mais tarde no domingo e me sentir descansada, saltar de parapente sem ter que mentir, sentar-me no shopping com uma amiga sem que isso me custasse uma semana de cara emburrada. Eu estava pedindo demais.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o estava, mas ouvia dos meus \u201camigos\u201d religiosos que essas coisas n\u00e3o s\u00e3o certas quando voc\u00ea \u00e9 casada, no entanto s\u00f3 servia para mim, para meu marido, tinha a defesa de que n\u00f3s mulheres devemos entender que os homens s\u00e3o educados de uma forma, bem para o casamento com essa educa\u00e7\u00e3o e que n\u00f3s (mulheres) devemos aprender a lidar com aquilo que \u201cele\u201d trouxe na bagagem.<\/p>\n<p>A minha, eu preciso aprender a ignorar, e aqui nasce outra quest\u00e3o dentro de mim, minha bagagem minha educa\u00e7\u00e3o dentro dos padr\u00f5es machistas e religiosos, o que me faz pensar que n\u00e3o quero a obriga\u00e7\u00e3o de lidar com a bagagem dele e muito menos carregar a que me deram, mas n\u00e3o fa\u00e7o ideia de como lidar com isso, n\u00e3o \u00e9 falta de coragem, \u00e9 culpa, medo e principalmente falta de informa\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o quero essa vida, mas sinto-me na obriga\u00e7\u00e3o de vive-la. Entrei em um desgaste emocional t\u00e3o grande que passei a ter crises de infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria e asma, aos poucos, depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu gritava por qualquer motivo e falava demais, meus amigos sabiam da minha insatisfa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se atreviam a dar conselhos, como amigos, penso eu que eles gostariam de me dizer para ir em busca do que me fizesse feliz, o que naquele momento significava o div\u00f3rcio, o que colocava meus amigos na berlinda, como seriam a favor do div\u00f3rcio? Ent\u00e3o me ouviram, e me ouviram.<\/p>\n<p>Naquela ter\u00e7a-feira de 2010, n\u00e3o me lembro a data, mas era m\u00eas de mar\u00e7o, uma bela manh\u00e3 e eu na minha pior crise, n\u00e3o queria ver ningu\u00e9m, falar com ningu\u00e9m, queria dormir e acordar uns anos depois, minha amiga Daiana ao contr\u00e1rio de mim energia sobrando, me ligou \u00e0s 7h20 da manh\u00e3 me chamando para ajudar a limpar a casa de praia e aproveitar para tomar uma cerveja no fim da tarde, prometendo que me traria de volta antes do meu marido chegar.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha \u00e2nimo nenhum, naquela ter\u00e7a eu estava muito mal, pedindo a Deus um sinal, uma resposta, estava completamente desestruturada e desesperada, por outro lado matar um dia de trabalho e sair sem dar satisfa\u00e7\u00e3o era tentador.<\/p>\n<p>Daiana continuava a insistir e eu, acabei aceitando, n\u00e3o tinha nada a perder, e n\u00e3o mudaria minha vida, mas me daria algumas horas de sossego, fomos.<\/p>\n<p>A casa estava uma completa bagun\u00e7a, parecia meu cora\u00e7\u00e3o. Come\u00e7amos pela cozinha, pequena e em alguns instantes nossa pr\u00e1tica como donas de casa deu conta. Fomos para a sala, tinha muito menos bagun\u00e7a, tamb\u00e9m foi r\u00e1pido, seguimos em dupla por todos os c\u00f4modos at\u00e9 o quarto, esse dava nojo, restos de embalagens, roupas velhas, o colch\u00e3o \u00famido. Comecei a limpeza na cama, enquanto Daiana recolhia os lixos.<\/p>\n<p>&#8211; Esse colch\u00e3o&#8230; Vai colocar para secar? Perguntei recolhendo os restos de embalagens com comida em cima da cama.<\/p>\n<p>&#8211; Deus me livre, vou jogar no lixo e falar com meu marido que estragou, j\u00e1 temos muito trabalho, para qu\u00ea limpar colch\u00e3o? Ela respondeu se virando para me ajudar na retirada.<\/p>\n<p>Jogamos o colch\u00e3o na ca\u00e7amba do outro lado da rua. Enquanto eu caminhava de volta para a casa, Daiana mudou de dire\u00e7\u00e3o indo ao bar comprar duas cervejas para n\u00f3s. Enquanto eu aguardava, continuei a retirada dos pap\u00e9is deixados embaixo do colch\u00e3o, por\u00e9m entre a bagun\u00e7a algo me chamou a aten\u00e7\u00e3o, um livro, faltando umas quinze p\u00e1ginas de seu in\u00edcio e algumas ap\u00f3s a finaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira frase do livro era \u201cNada \u00e9 por acaso,\u201d eu havia escutado essa frase a semana inteira e a visualiza\u00e7\u00e3o dela me chamou a aten\u00e7\u00e3o, ainda de p\u00e9 iniciei a leitura, antes que Daiana voltasse, eu que h\u00e1 anos n\u00e3o lia, em poucos instantes estava fascinada com a leitura, havia consumido dez p\u00e1ginas em instantes.<\/p>\n<p>Ouvi a porta abrir, Daiana voltava com mais que duas latas, eram oito.<\/p>\n<p>&#8211; Pretende trabalhar bebendo? Perguntei rindo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, vamos terminar o quarto e beber, j\u00e1 fizemos o bastante, outro dia eu lavo a casa toda. Respondeu se dirigindo \u00e0 geladeira.<\/p>\n<p>Esperei por ela na sala envergonhada em pedir para ficar com lixo.<\/p>\n<p>Percebendo que eu queria algo ela parou na porta me olhando com curiosidade.<\/p>\n<p>Sorri sem gra\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Posso ficar com esse&#8230; resto de livros? Perguntei.<\/p>\n<p>Apesar de estar em meio ao lixo debaixo de um colch\u00e3o \u00famido e faltando p\u00e1ginas, suas folhas estavam bem conservadas. Ela, n\u00e3o ficou surpresa, natural respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Claro, sobre o que \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Um m\u00e9dico americano. Respondi sem muitos detalhes colocando o livro na bolsa.<\/p>\n<p>Terminamos, pegamos as cervejas, colocamos em uma bolsa t\u00e9rmica junto com uma garrafa de \u00e1gua e seguimos para a praia.<\/p>\n<p>A noite, de volta a minha casa, filhos e marido alimentados e cuidados, tudo pronto para o dia seguinte, me vi cansada, mas a curiosidade com a leitura me fez tirar vinte minutos.<\/p>\n<p>Me vi presa naquele livro, n\u00e3o queria parar de ler, me apaixonei, e no dia seguinte lia a cada intervalo no trabalho, disfar\u00e7ada no \u00f4nibus, j\u00e1 que n\u00e3o tinha capa e mesmo sem tempo em tr\u00eas dias terminei a leitura do livro e nunca mais o esqueci, aquele livro do qual eu n\u00e3o sei o autor e provavelmente nunca saberei, mudou minha vida.<\/p>\n<p>O autor, o personagem principal, iniciou dizendo \u201cNada \u00e9 por acaso \u201c embora o livro n\u00e3o tinha numera\u00e7\u00e3o de p\u00e1ginas, ao longo da hist\u00f3ria entendi que essa era a frase de in\u00edcio, que relata a hist\u00f3ria de um m\u00e9dico que foi transferido dos Estados Unidos para a It\u00e1lia durante a guerra de Mussolini, italiano, o m\u00e9dico cresceu no Estados Unidos, se formou m\u00e9dico, casou-se e por quinze anos era um m\u00e9dico respeitado no hospital onde trabalhava, e um pequeno erro levou seus anos de trabalho e seu reconhecimento como um excelente profissional, levando-o em seguida a obriga\u00e7\u00e3o de responder ao chamado para trabalhar como m\u00e9dico na guerra, conhecendo ent\u00e3o outra realidade, dando a ele uma outra percep\u00e7\u00e3o da vida, sendo obrigado a viver um dia de cada vez, no entanto a mudan\u00e7a que o levou a guerra veio dois anos antes, quando ele se via insatisfeito e sem sa\u00edda, aceitou o conselho de um monge, e um pequeno gesto, no in\u00edcio para ele algo insignificante, mas n\u00e3o tinha nada a perder, ent\u00e3o seguiu o conselho, ele s\u00f3 precisava chegar em casa e dizer \u201ceu te amo \u201c a esposa para sua trajet\u00f3ria se modificar completamente, levando-o a um caminho muito mais dif\u00edcil, no entanto muito mais correto e feliz.<\/p>\n<p>Infelizmente n\u00e3o posso contar aqui toda a hist\u00f3ria daquele livro, mas ap\u00f3s a leitura um leque se abriu em minha cabe\u00e7a, senti como se todas as informa\u00e7\u00f5es que eu precisava estivessem escondidas ali, dentro de mim o tempo todo, a leitura daquele livro me deu um novo caminho, n\u00e3o pensei duas vezes, no dia seguinte voltei a estudar, alguns meses depois eu estava tamb\u00e9m na terapia, cinco anos mais tarde eu estava divorciada, terminando me ensino m\u00e9dio, dona do meu neg\u00f3cio e encantada pelo mundo liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>M\u00e9rcia Souza, m\u00e3e, av\u00f3, artes\u00e3 crocheteira e escritora. Tr\u00eas livros publicados, participa\u00e7\u00e3o em diversas antologias, descobriu sua paix\u00e3o pela escrita aos 12 anos na biblioteca municipal Rubem Braga. Atualmente reside na cidade de Cachoeiro de Itapemirim &#8211; ES.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deprimida eu brigava com a vida, minha vontade de viver era enorme, contradit\u00f3rio eu sei, temos a impress\u00e3o de que deprimido n\u00e3o quer viver, errado, eu ansiava pela vida em sua totalidade. 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