{"id":351338,"date":"2025-04-04T01:34:48","date_gmt":"2025-04-04T04:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=351338"},"modified":"2025-04-03T19:42:23","modified_gmt":"2025-04-03T22:42:23","slug":"o-velhinho-de-cabelos-brancos-ralos-imortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-velhinho-de-cabelos-brancos-ralos-imortal\/","title":{"rendered":"O velhinho de cabelos brancos, ralos, imortal"},"content":{"rendered":"<p>Chegou o momento em que meu menino se interessa por livros e literatura. Acho natural, apesar de tardio &#8211; ele j\u00e1 fez dez anos e, desde cedo, vivia cercado de livros, hist\u00f3rias e leituras na hora de dormir. Ele me pede para ficar acordado at\u00e9 um pouco mais tarde, pois estava fazendo uma leitura interessante sobre animais aqu\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Pego na estante e mostro a ele um livro de que eu gosto muito e leio na dedicat\u00f3ria, feita a meu pai: &#8220;Ao amigo Celso, um abra\u00e7o afetuoso do Or\u00edgenes Lessa, 31 de dezembro de 1985&#8221;. L\u00e1 se v\u00e3o quase 40 anos desde que o autor ofereceu para meu pai um exemplar de &#8220;Jo\u00e3o Sim\u00f5es Continua&#8221;, ent\u00e3o na sua 11.\u00aa edi\u00e7\u00e3o. O pensamento foi longe&#8230;<\/p>\n<p>Voltei a Werneck, distrito de Para\u00edba do Sul, cidade da minha fam\u00edlia materna, na oficina de Laerte Santos, nosso amigo e irm\u00e3o do meu padrinho. Frequentemente, estando de f\u00e9rias por l\u00e1, meu pai ia visitar o Laerte, fosse para fazer algum reparo no seu velho Fusca 1968 azul-real, ou apenas para jogar conversa fora e beber uma cerveja no bar\/padaria da esquina. Numa dessas idas, estava eu com meu pai e lembro de conhecermos l\u00e1 o Sr. Or\u00edgenes, que, brincando, Laerte nos apresentou como &#8220;imortal&#8221;.<\/p>\n<p>Minha cabe\u00e7a de crian\u00e7a ficou na d\u00favida, pensando em como um velhinho de cabelos t\u00e3o ralos e brancos podia desafiar a vida flertando com a imortalidade. Ainda n\u00e3o fazia ideia de que estava \u00e0 frente de algu\u00e9m que vestira o fard\u00e3o da Academia. Ele era propriet\u00e1rio de um s\u00edtio na localidade chamada Inema, e dirigia uma Belina. Ou era um Corcel? Estivemos na d\u00favida, e cheguei a ligar para Laerte esta tarde, mas ele n\u00e3o p\u00f4de preencher esta lacuna da hist\u00f3ria. Fica valendo a minha vers\u00e3o: era uma Belina. Definitivamente azul.<\/p>\n<p>A conversa foi animad\u00edssima, e eu perguntei ao interlocutor se ele era mesmo de Para\u00edba. E ele disse que nascera em Len\u00e7\u00f3is, bem longe dali. Na minha cabe\u00e7a infantil, havia uma refer\u00eancia a Len\u00e7\u00f3is como um local paradis\u00edaco, cheio de dunas de areia que vagavam ao sabor do vento. Mas n\u00e3o, o autor era origin\u00e1rio de Len\u00e7\u00f3is Paulista, onde nascera em 12 de julho de 1903.<\/p>\n<p>Foi o primeiro escritor que vi na minha inf\u00e2ncia. Minto. O primeiro, mesmo, tinha sido Nicolino Visconti, amigo de meu av\u00f4, cujas filhas cresceram na mesma rua que minha m\u00e3e e tias. Mas ainda n\u00e3o sabia que nosso velho vizinho havia escrito, \u00e0quela altura, &#8220;A Rosa Azul&#8221; e &#8220;Tr\u00eas Pontes&#8221;. S\u00f3 descobri tais obras quando ele mesmo me presenteou com &#8220;\u00c0 Sombra das Velhas Palmeiras&#8221;, livro de contos que guardo como um tesouro, com seu aut\u00f3grafo de 28 de dezembro de 1989. Or\u00edgenes Lessa foi o segundo. Seu Nicolino, local. Celebridade em Para\u00edba do Sul. Tamb\u00e9m dono de terras no Inema. Or\u00edgenes Lessa foi planet\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o me recordo o que dirigia Seu Nicolino, mas no carro de Or\u00edgenes Lessa, estacionado junto de outros na oficina do Laerte \u00e0 espera de algum reparo, eu entrei e imaginei que dirigia para longe, em estradas belas e imposs\u00edveis. Fazia isso constantemente, e me dava ao luxo de escolher dentre tantos carros. Na maioria, Fuscas, \u00e9 claro &#8211; est\u00e1vamos nos anos 80. Mas havia exce\u00e7\u00f5es. Inclusive um Chevrolet preto, dos anos 50, em que eu e meu primo Leonardo entramos uma vez. At\u00e9 hoje lembro do enorme banco inteiri\u00e7o, do volante, do cheiro que s\u00f3 um autom\u00f3vel antigo tem. Ter\u00e1 ali nascido minha paix\u00e3o por essas velharias? Talvez. N\u00e3o descarto.<\/p>\n<p>Achava not\u00e1vel quem escrevia livros. E acho at\u00e9 hoje. Pura admira\u00e7\u00e3o por quem \u00e9 assim, abnegado. E Or\u00edgenes Lessa estava ali, \u00e0 nossa frente, acess\u00edvel e simp\u00e1tico. S\u00f3 depois fui entender sua dimens\u00e3o na literatura, e at\u00e9 descobrir que ele havia escrito o livro sobre as mem\u00f3rias de um Fusca. Seu &#8220;O Rei, o Profeta e o Can\u00e1rio&#8221; foi o segundo livro que me marcou na inf\u00e2ncia, depois de &#8220;Tuc-Tuc&#8221;, de Paula Saldanha. Tenho exemplares de ambos, autografados pelos autores. Este \u00e9 o resumo da minha epopeia &#8211; o amor por livros e por carros antigos. E discos de vinil, \u00e9 claro.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail <a href=\"mailto:danielmarchiadv@gmail.com\">danielmarchiadv@gmail.com<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chegou o momento em que meu menino se interessa por livros e literatura. 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