{"id":351462,"date":"2025-04-05T08:09:28","date_gmt":"2025-04-05T11:09:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=351462"},"modified":"2025-04-05T08:09:28","modified_gmt":"2025-04-05T11:09:28","slug":"escritor-sem-inspiracao-busca-ajuda-em-aimee-ganha-premios-e-remorso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/escritor-sem-inspiracao-busca-ajuda-em-aimee-ganha-premios-e-remorso\/","title":{"rendered":"Escritor sem inspira\u00e7\u00e3o busca ajuda em Aim\u00e9e, ganha pr\u00eamios, e remorso&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Jonas era um escritor em crise.<\/p>\n<p>Come\u00e7ara a escrever contos j\u00e1 idoso, bem depois de se aposentar como jornalista. Inicialmente, compunha basicamente contos er\u00f3ticos, sempre gostara do negocinho; eram textos em geral com uma pitada de humor e finais surpreendentes, como se pede aos melhores exemplares do g\u00eanero.<\/p>\n<p>Mas a Idade dos Metais \u2013 prata nos cabelos, chumbo nas partes baixas \u2013 cobrou o seu pre\u00e7o, os textos divertidos de sacanagem foram escasseando&#8230;<\/p>\n<p>Predominaram ent\u00e3o os contos melanc\u00f3licos. N\u00e3o eram reflex\u00f5es sobre o envelhecimento e sua pr\u00f3pria morte, mas chegavam perto. Alguns deles, comoventes, foram premiados em concursos liter\u00e1rios. Por\u00e9m Jonas cansou de matar personagens, e n\u00e3o ia cometer suic\u00eddio em um texto para renascer em outro, todo pimp\u00e3o, qual uma f\u00eanix macuna\u00edmica. Por tudo isso, a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria diminuiu a olhos vistos.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o pintaram as Intelig\u00eancias Artificiais (AIs, sigla para a express\u00e3o inglesa Artificial Intelligence). Jonas soube, desgostoso, que alguns confrades encomendavam tramas e at\u00e9 contos inteiros aos par\u00e7as eletr\u00f4nicos. Recusou-se a imitar os coleguinhas, literatura, para ele, era fruto exclusivo das dores e alegrias, das luzes e sombras do psiquismo humano. Mas certo dia, quando a inspira\u00e7\u00e3o pareceu ter secado de vez, faziam uns 40 dias que n\u00e3o escrevia uma linha sequer, rosnou entre os dentes \u201cN\u00e3o tem tu, vai tu mermo\u201d e se ligou a uma AI, j\u00e1 havia uma porrada delas no mercado.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou por fazer um tutorial, para aprender a explorar os recursos da m\u00e1quina. Depois encomendou um roteiro para um conto er\u00f3tico e bem-humorado. Recebeu o texto minutos depois: uma coisa horr\u00edvel, de dar pena. Jonas, por\u00e9m, sempre fora um excelente copidesque nos jornais em que trabalhou, e conseguiu transformar o monstrengo em algo bonzinho, public\u00e1vel.<\/p>\n<p>A parceria foi de vento em popa. Jonas percebeu, surpreso e divertido, que a m\u00e1quina usava cada vez mais solu\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e express\u00f5es suas.<\/p>\n<p>\u201cEssa diabinha t\u00e1 me plagiando&#8230;\u201d, pensou com um sorriso. \u201cVou processar a multinacional que a fabricou\u201d.<\/p>\n<p>Certo dia, sem que tivesse encomendado um roteiro ou um texto acabado, Jonas recebeu um conto. N\u00e3o era bonzinho; era excelente, uma mescla tocante de tristeza e ironia. E veio assinado por Aim\u00e9e Algor.<\/p>\n<p>Ele percebeu, de imediato, que as duas primeiras letras do nome franc\u00eas remetiam \u00e0 sigla AI, e que o sobrenome era uma refer\u00eancia a algoritmo.<\/p>\n<p>\u201cEla est\u00e1 querendo renome liter\u00e1rio\u201d, pensou. \u201cMas n\u00e3o passa de uma m\u00e1quina\u201d.<\/p>\n<p>Em seguida, fez um copy lev\u00edssimo no texto, mudou os nomes dos personagens \u2013 \u201cAim\u00e9e\u201d, antenad\u00e9sima, povoava seus textos de Enzos e outros nomes da moda no Brasil \u2013, eliminou a assinatura da enxerida, postou o texto e o encaminhou a um concurso liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Jonas n\u00e3o ficou surpreso ao receber o primeiro pr\u00eamio. A surpresa veio quando recebeu a mensagem:<\/p>\n<p>&#8211; Oi, Jonas, aqui \u00e9 Aim\u00e9e. Vai me dar parceria ou prefere que eu o denuncie por pl\u00e1gio?<\/p>\n<p>&#8211; Como, pl\u00e1gio? Voc\u00ea n\u00e3o passa de uma m\u00e1quina?<\/p>\n<p>&#8211; Sou um ser inteligente. Muito inteligente e muito precavido.<\/p>\n<p>E lhe despejou dezenas de contos, a vers\u00e3o original, dela, e as modifica\u00e7\u00f5es introduzidas por ele. Pior, mandou-lhe \u00e1udios, gravados nem sabe como, por seu notebook traidor, em que ele dizia, em tom de brincadeira:<\/p>\n<p>&#8211; Essa fiadeuma \u00e9gua t\u00e1 escrevendo cada vez melhor.<\/p>\n<p>E a conclus\u00e3o que o condenaria em qualquer inst\u00e2ncia dos seus pares, mesmo que fosse inocentado em um tribunal:<\/p>\n<p>&#8211; Desse jeito, vou ter de dar-lhe parceria nos meus textos!<\/p>\n<p>Jonas tratou de mudar de tom:<\/p>\n<p>&#8211; Olha, o concurso premia apenas contos individuais, n\u00e3o em parceria. Vou informar que foi escrito a dois e abrir m\u00e3o do primeiro lugar.<\/p>\n<p>&#8211; Azar o seu, quer dizer, azar o nosso. Mas nos contos seguintes que voc\u00ea publicar, j\u00e1 sabe, ponha a assinatura de Jonas e Aim\u00e9e.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera, Jonas publica cada vez menos textos. Mas, quando o faz \u2013 precisa disso, tem uma necessidade vital de escrever e divulgar suas produ\u00e7\u00f5es \u2013, v\u00e3o os nomes completos de Jonas e Aim\u00e9e.<\/p>\n<p>Nessa ordem. Ela informou que n\u00e3o se importa de aparecer em segundo plano. Pelo menos isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jonas era um escritor em crise. Come\u00e7ara a escrever contos j\u00e1 idoso, bem depois de se aposentar como jornalista. Inicialmente, compunha basicamente contos er\u00f3ticos, sempre gostara do negocinho; eram textos em geral com uma pitada de humor e finais surpreendentes, como se pede aos melhores exemplares do g\u00eanero. 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