{"id":351723,"date":"2025-04-11T08:29:27","date_gmt":"2025-04-11T11:29:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=351723"},"modified":"2025-04-11T08:31:55","modified_gmt":"2025-04-11T11:31:55","slug":"brasil-precisa-deixar-imobilismo-de-viver-como-refem-da-caserna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-precisa-deixar-imobilismo-de-viver-como-refem-da-caserna\/","title":{"rendered":"Brasil precisa deixar imobilismo de viver como ref\u00e9m da caserna"},"content":{"rendered":"<p>Estamos h\u00e1 61 anos do golpe de 1\u00ba de abril de 1964, e h\u00e1 40 anos do fim da ditadura. Mesmo ap\u00f3s a reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o, o regime castrense sobreviveu como bedel do pa\u00eds democratizado. Gra\u00e7as a um pacto transacionado nos sal\u00f5es de Bras\u00edlia, imunes aos sons do povo nas ruas, elegemos Tancredo Neves para dar posse a Jos\u00e9 Sarney, o \u00faltimo grande l\u00edder civil do partido da ditadura. Assim, ingressamos na frustrada &#8220;Nova Rep\u00fablica&#8221; e chegamos \u00e0 Constituinte de 1988, condicionada pela concordata com os militares \u2014 acordo que compreendia veto \u00e0 Constituinte ordin\u00e1ria (que nos permitiria passar o pa\u00eds a limpo), veto \u00e0 revis\u00e3o da anistia capenga (que s\u00f3 beneficiava os criminosos), veto ao julgamento dos crimes da caserna e, cereja do bolo, o infame art. 142, ditado pelo general Pires Gon\u00e7alves, estafeta designado pela caserna para vigiar os trabalhos dos parlamentares.<\/p>\n<p>Foi assim que nasceu a &#8220;Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3&#8221; do dr. Ulysses, um belo projeto que vem sendo continuadamente desconstitu\u00eddo, dilapidado \u2014 seja pelo neoliberalismo voraz, seja pela direita em seu largo espectro.<\/p>\n<p>H\u00e1 sempre um ponto de partida, por \u00f3bvio, para a an\u00e1lise do processo hist\u00f3rico, e o nosso \u00e9 o mantra da concilia\u00e7\u00e3o \u2014 pai e m\u00e3e da impunidade, pai e m\u00e3e de todos os golpes intentados e perpetrados contra a democracia. Ot\u00e1vio Mangabeira, falando nos tempos em que os liberais tinham o que dizer, comparava a democracia a uma &#8220;planta tenra que precisa ser regada todos os dias para que n\u00e3o morra&#8221;, porque entre n\u00f3s \u2014 ontem como hoje \u2014 ela \u00e9 amea\u00e7ada por um reacionarismo larvar, antissocial e antinacional, fundamentalmente autorit\u00e1rio, velho como a S\u00e9 de Braga, porque nos persegue desde sempre e n\u00e3o se desapega de nossa Hist\u00f3ria, sustando o futuro. Como faz no momento presente.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o apela \u00e0 viol\u00eancia \u2014 como nos sucessivos golpes de Estado que fazem nossa hist\u00f3ria desde o nascimento do Imp\u00e9rio \u2014, a classe dominante imp\u00f5e a concilia\u00e7\u00e3o, inventada para impedir n\u00e3o s\u00f3 qualquer arte de ruptura, mas qualquer mudan\u00e7a \u2014 salvo aquela engendrada para que nada mude.<\/p>\n<p>Ao sabor das circunst\u00e2ncias, a vontade supostamente majorit\u00e1ria da sociedade brasileira vinha mantendo de p\u00e9 a luta democr\u00e1tica, respeitosa dos ritos e das regras do sistema, padecendo derrotas, mas aqui e ali logrando, ainda que em vezes raras, algum progresso social \u2014 \u00e0 merc\u00ea, por\u00e9m, da maldi\u00e7\u00e3o de recuar dois passos sempre que logra caminhar um \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Passam as \u00e1guas da pol\u00edtica sob a ponte da hist\u00f3ria, mas parece que foi ontem o golpe parlamentar de 2016, porque ainda convivemos com suas consequ\u00eancias, que nos abra\u00e7am e nos amea\u00e7am com sua presen\u00e7a num horizonte a perder de vista \u2014 se nos faltarem as for\u00e7as de que carecemos para enfrentar a ofensiva pol\u00edtica e organizacional da onda neofascista. Ou se continuarmos, por falsa defesa, minimizando a letalidade do advers\u00e1rio. A extrema-direita \u00e9 articulada internacionalmente, inclusive por meio do ramo neopentecostal, mas outro erro fatal \u2014 embora fale ao esp\u00edrito dos t\u00edbios \u2014 \u00e9 reduzir o fen\u00f4meno nacional (o progresso das legi\u00f5es fascistas) a simples manifesta\u00e7\u00e3o do quadro internacional, agu\u00e7ado de \u00faltimo pela consagra\u00e7\u00e3o norte-americana de Trump. \u00c9 a teoriza\u00e7\u00e3o do &#8220;n\u00e3o h\u00e1 o que fazer&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1985, e mais ainda em 1988, pago o pre\u00e7o humano conhecido, hav\u00edamos retomado os trilhos da democracia descarrilhada em 1964. Caminhamos segundo as regras da concilia\u00e7\u00e3o, mediante avan\u00e7os e recuos \u2014 mais recuos do que avan\u00e7os (tr\u00e1gica sina!) \u2014 e cheg\u00e1mos a um estranho 2018, que ainda n\u00e3o conseguimos explicar.<\/p>\n<p>Segue-se, daquele ent\u00e3o at\u00e9 aqui, uma penca de recuos pol\u00edticos, atingindo os interesses populares e restringindo os espa\u00e7os \u2014 mesmo os mais formais \u2014 da democracia poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Ainda incomoda a persistente lembran\u00e7a do quatri\u00eanio da extrema-direita \u2014 no poder pelo voto, em pleito leg\u00edtimo \u2014, e a intentona do 8 de janeiro de 2023 veio lembrar, aos que t\u00eam olhos para ver o indesej\u00e1vel, o avan\u00e7o do projeto de poder do fascismo caboclo. Trata-se de avan\u00e7o not\u00e1vel, que se revela num plano de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e material, nacional e internacional, desconhecido entre n\u00f3s, porque agora sustentado em bases populares e eleitorais que falaram em 2018 e 2022 \u2014 e j\u00e1 rosnam olhando para 2026.<\/p>\n<p>Frustrados os projetos da esquerda mais moderada (e j\u00e1 n\u00e3o registro o arquivo a que foram condenadas as esperan\u00e7as socialistas, sonho de uma milit\u00e2ncia em recesso), o presente nos assalta com maus press\u00e1gios.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Lula \u2014 pelos seus n\u00fameros e pelas dificuldades da governan\u00e7a, que o passar do tempo s\u00f3 agrava \u2014 \u00e9 ponto de al\u00edvio e advert\u00eancia, para nos ajudar a medir o tamanho e o peso do advers\u00e1rio que n\u00e3o ensarilhou as armas. N\u00e3o \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o de conforto. Ademais, \u00e9 momento que requer reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Como, por\u00e9m, conservar as posi\u00e7\u00f5es atuais e avan\u00e7ar \u2014 conditio sine qua non para sua sobreviv\u00eancia pol\u00edtica \u2014 se o governo (fruto de uma coaliz\u00e3o eleitoralmente necess\u00e1ria, mas heterodoxa tanto do ponto de vista pol\u00edtico quanto ideol\u00f3gico) carece de um projeto pol\u00edtico, regente de um programa de governo? Se a pol\u00edtica nacional, de um ponto de vista progressista, padece anomia letal? Se o chamado campo das esquerdas se imola na doen\u00e7a senil do imobilismo, cedendo espa\u00e7os pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos \u00e0s for\u00e7as do atraso, deixando-nos como heran\u00e7a perversa a conting\u00eancia de defensores das institui\u00e7\u00f5es e da ordem?<\/p>\n<p>As conting\u00eancias roubaram-nos o ardor revolucion\u00e1rio; um certo oportunismo nos levou a esquecer nossas teses fundamentais \u2014 como a den\u00fancia do sistema e a contesta\u00e7\u00e3o da ordem. Mesmo a esquerda socialista parece haver retirado de sua bandeira a den\u00fancia da iniquidade que \u00e9 o capitalismo em si.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 mais no vocabul\u00e1rio da milit\u00e2ncia a mis\u00e9ria da explora\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Discutimos teses importadas de nossos advers\u00e1rios, cuidamos de ajuste fiscal. Pouco nos referimos \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de renda e, quando ela entra em nossos discursos, chega desapartada da indispens\u00e1vel den\u00fancia de suas causas. Tratamos o fim da impunidade dos golpes \u2014 que pode mudar os rumos da Rep\u00fablica \u2014 como uma quest\u00e3o processual adstrita ao STF e ao seu plen\u00e1rio de capas pretas. N\u00e3o vamos \u00e0 rua para dar respaldo ao processo e n\u00e3o temos for\u00e7a (ou ser\u00e1 \u00e2nimo?) para a mobiliza\u00e7\u00e3o popular contra a impunidade, ora batizada de &#8220;anistia&#8221;.<\/p>\n<p>Os riscos s\u00e3o os de sempre. A caserna se conserva como instrumento de conserva\u00e7\u00e3o do statu quo, mas o cen\u00e1rio de hoje \u2014 agravado pelo quadro internacional \u2014 lembra os riscos de 1937 e 1964. N\u00e3o h\u00e1 propriamente incompletudes, mas h\u00e1 muito o que fazer. E o fazer \u00e9 resistir para avan\u00e7ar, olhando para o grande objetivo: retomar o comando do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, a hist\u00f3ria da democracia na Rep\u00fablica n\u00e3o \u00e9 um lago sereno. Jamais foi. S\u00e9rgio Buarque de Holanda j\u00e1 nos disse que &#8220;a democracia entre n\u00f3s foi sempre um mal-entendido&#8221; \u2014 e ele se referia \u00e0 democracia pol\u00edtica. A democracia social, aquela que deve ser o leitmotiv da esquerda, n\u00e3o \u00e9 entre n\u00f3s apenas um mal-entendido, mas o fantasma que a classe dominante forceja por exorcizar \u2014 sem medir o pre\u00e7o a pagar, mormente agora, quando suas velas s\u00e3o enfunadas pelo vento quente que nos chega dos EUA, animando os reacion\u00e1rios de todos os naipes, no mundo inteiro.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos h\u00e1 61 anos do golpe de 1\u00ba de abril de 1964, e h\u00e1 40 anos do fim da ditadura. Mesmo ap\u00f3s a reconstitucionaliza\u00e7\u00e3o, o regime castrense sobreviveu como bedel do pa\u00eds democratizado. 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