{"id":351820,"date":"2025-04-12T10:02:20","date_gmt":"2025-04-12T13:02:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=351820"},"modified":"2025-04-12T10:21:36","modified_gmt":"2025-04-12T13:21:36","slug":"mais-bela-joia-da-cancao-rio-platense-surgiu-burilada-verso-a-verso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mais-bela-joia-da-cancao-rio-platense-surgiu-burilada-verso-a-verso\/","title":{"rendered":"&#8216;Mais bela joia da can\u00e7\u00e3o rio-platense surgiu burilada verso a verso&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o vi a coisa, ouvi o relato. N\u00e3o sei se \u00e9 verdade ou se \u00e9 tudo inventado, pouco importa. Lembro que escutei de um argentino, esqueci o seu nome, que escrevia versos para tangos. Se todo poeta \u00e9 um fingidor, poetas tangueros, entonces&#8230;<\/p>\n<p>Corria o ano de 1956, na cidade de Buenos Aires. O poeta, em seu apartamento, compunha a letra para um tango. Mais um, dos v\u00e1rios que j\u00e1 havia produzido. Havia definido o t\u00edtulo, La \u00faltima curda (O \u00faltimo porre), e a estrutura: um di\u00e1logo com o bandone\u00f3n, com o instrumento musical mencionado a cada estrofe. N\u00e3o era muito original, ele reconhecia, mas estava cansado, j\u00e1 eram cinco da matina, bebera com os amigos, los malevos a noite toda. E afinal, era apenas um tango&#8230;<\/p>\n<p>Engalfinhou-se com as palavras, levando uma surra delas, at\u00e9 que, ao raiar do dia, um raio de sol atingiu sua vista. Desviou o rosto, contrariado, e escreveu, como num transe:<\/p>\n<p>\u201cCerrame el ventanal, que arrastra el sol su lento caracol de sue\u00f1o\u201d<\/p>\n<p>(Fecha a janela, que o sol arrasta e queima seu lento caracol de sonho).<\/p>\n<p>Leu-as repetidas vezes, at\u00e9 a ficha cair.<\/p>\n<p>&#8211; Porra, isso \u00e9 lindo! \u2013 exclamou.<\/p>\n<p>Mantendo o n\u00edvel alt\u00edssimo a que fora arremessado pelos deuses, escreveu os versos finais:<\/p>\n<p>\u201cNo ves que vengo de um pa\u00eds que est\u00e1 de olvido, siempre gris, tras el \u00e1lcool?\u201d (N\u00e3o v\u00eas que venho de um pa\u00eds que tudo esquece, sempre obscuro, por causa do \u00e1lcool?)<\/p>\n<p>Releu esses versos, abriu um sorriso de satisfa\u00e7\u00e3o, releu o poema inteiro, sacudiu a cabe\u00e7a desaprovadoramente, e come\u00e7ou a reescrever.<\/p>\n<p>Os muitos bandone\u00f3ns sumiram de cada estrofe, restando apenas dois, necess\u00e1rios, perfeitamente encaixados. O poeta permitiu-se ousadias que jamais encarara, tais como a explora\u00e7\u00e3o das nuances de significado entre \u201chondo\u201d e \u201cfondo\u201d e das alitera\u00e7\u00f5es entre bajo e barro no mesmo verso:<\/p>\n<p>\u201cHasta el hondo, bajo fondo donde el barro se subleva\u201d.<\/p>\n<p>E assim, burilado verso a verso, La \u00faltima curda tornou-se \u201co\u201d tango, talvez a mais bela joia da can\u00e7\u00e3o rio-platense.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Conto inspirado no tango La \u00faltima curda<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o vi a coisa, ouvi o relato. N\u00e3o sei se \u00e9 verdade ou se \u00e9 tudo inventado, pouco importa. Lembro que escutei de um argentino, esqueci o seu nome, que escrevia versos para tangos. Se todo poeta \u00e9 um fingidor, poetas tangueros, entonces&#8230; Corria o ano de 1956, na cidade de Buenos Aires. 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