{"id":352349,"date":"2025-04-20T00:00:59","date_gmt":"2025-04-20T03:00:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=352349"},"modified":"2025-04-20T07:10:53","modified_gmt":"2025-04-20T10:10:53","slug":"cercado-por-fazendas-povo-rikbaktsa-luta-para-manter-modo-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cercado-por-fazendas-povo-rikbaktsa-luta-para-manter-modo-de-vida\/","title":{"rendered":"Cercado por fazendas, povo Rikbaktsa luta para manter modo de vida"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA gente nunca ir\u00e1 deixar de ser ind\u00edgena\u201d. \u00c9 com essa frase que o cacique Ademir Rikbakta, da aldeia Beira Rio, da Terra Ind\u00edgena (TI) Erikpatsa, fala sobre a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o da cultura do povo Rikbaktsa. \u201cA gente conversa muito com a comunidade. Aprendi assim com meu pai. A gente conversa muito na l\u00edngua. Temos dan\u00e7a tradicional e a chicha \u00e9 nossa bebida. Nunca vamos deixar de fazer cultura. Hoje, estou com meu povo lutando\u201d.<\/p>\n<p>A aldeia Beira Rio foi uma das tr\u00eas visitadas pela equipe de reportagem. A luta da qual fala o cacique Ademir Rikbakta fica clara quando se sobrevoa a regi\u00e3o. Os trechos de Floresta Amaz\u00f4nica disputam espa\u00e7o com as fazendas de cultivo de soja e milho e de cria\u00e7\u00e3o de gado. A Terra Ind\u00edgena, cercada por lavoura, sente os impactos de ter cada vez menos ca\u00e7a e menos peixes nos rios, al\u00e9m de contar menos polinizadores para manter as plantas da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Rikbaktsa, de acordo com o Instituto Socioambiental (ISA), vivem na bacia do Rio Juruena, no noroeste do Mato Grosso, nas TI Erikpatsa, Japu\u00edra e Escondido. S\u00e3o 34 aldeias distribu\u00eddas pelos territ\u00f3rios, e o povo tem um hist\u00f3rico de luta em defesa de suas terras: at\u00e9 1962, os Rikbaktsa resistiram contra os seringueiros que avan\u00e7avam na regi\u00e3o para a extrair borracha.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, os jesu\u00edtas, financiados pelos seringueiros, foram os respons\u00e1veis pela chamada \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d do povo. O processo levou \u00e0 dificuldade do ensino da l\u00edngua materna, uma vez que as crian\u00e7as, em internatos, eram punidas ao falarem o pr\u00f3prio idioma e obrigadas a se comunicar em portugu\u00eas. Com isso, a l\u00edngua Rikbaktsa passou a ser a segunda mais falada, principalmente entre a popula\u00e7\u00e3o mais jovem. A dita pacifica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m levou ao adoecimento e morte de 75% da popula\u00e7\u00e3o e \u00e0 perda de territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Hoje, a popula\u00e7\u00e3o voltou a crescer, mas as disputas fundi\u00e1rias na regi\u00e3o permanecem, de acordo com o ISA, principalmente contra madeireiros e garimpeiros.<\/p>\n<p>\u201cO que a gente tem aqui dentro da nossa comunidade \u00e9 cultura. A nossa cultura \u00e9 o povo\u201d, diz o cacique Ademir Rikbakta. \u201c\u00c9 isso que a gente quer passar tamb\u00e9m para essas novas gera\u00e7\u00f5es, esses ensinamentos. Desde os anci\u00e3os at\u00e9 hoje, a gente veio aprendendo tamb\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>A esposa do cacique, Ang\u00e9lica Zokdo, tamb\u00e9m luta pela resist\u00eancia da cultura. \u201cEu, como m\u00e3e, sempre eu falo: voc\u00eas t\u00eam que aprender a fazer. A gente, como m\u00e3e, est\u00e1 ensinando a essas crian\u00e7as que est\u00e3o vindo agora tamb\u00e9m, para, depois, eles mostrarem [a cultura], como a gente est\u00e1 mostrando. No dia em que a gente n\u00e3o estiver mais, vai ficar para eles\u201d, diz.<\/p>\n<p>Os Rikbaktsa dividem-se em cl\u00e3s, sendo os principais Makwaraktsa, que significa arara amarela, e Hazobiktsa, ou arara cabe\u00e7uda, que \u00e9 vermelha. Cada cl\u00e3 e sub grupo da etnia tem a sua pintura corporal espec\u00edfica, e foi assim que eles receberam a equipe de reportagem da Ag\u00eancia Brasil. Com pinturas, artesanato, dan\u00e7a e m\u00fasica.<\/p>\n<p><strong>Avan\u00e7o das lavouras<\/strong><br \/>\nEmbora a busca seja por manter os costumes, os ind\u00edgenas n\u00e3o encontram mais no territ\u00f3rio tudo que precisam para sobreviver. Na aldeia P\u00e9 De Mutum, na TI Japu\u00edra, o cacique Francisco Rikbaktsa chamou aten\u00e7\u00e3o para o avan\u00e7o das lavouras.<\/p>\n<p>\u201cA gente era grande e tinha fartura de peixe e carne de animais. Voc\u00eas est\u00e3o vendo que as coisas est\u00e3o diminuindo para n\u00f3s. Nosso costume \u00e9 comer esses alimentos tradicionais. Hoje, estamos cercados. Em volta, \u00e9 lavoura, e tem a quest\u00e3o de contamina\u00e7\u00e3o da \u00e1gua por agrot\u00f3xico. Voc\u00eas est\u00e3o vendo, est\u00e3o pisando aqui dentro da nossa aldeia, dentro da \u00e1rea ind\u00edgena. Eu falo isso para voc\u00eas, porque a gente tamb\u00e9m sofre que nem um de voc\u00eas\u201d, discursou para os visitantes.<\/p>\n<p>Na aldeia Barranco Vermelho, na TI Erikpatsa, Lauro Ruwai Rikbakta foi um dos respons\u00e1veis pela refei\u00e7\u00e3o servida \u00e0 reportagem, com ca\u00e7a e peixes. Ele contou que est\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil encontrar os animais.<\/p>\n<p>\u201cA gente fez o imposs\u00edvel. Esta aqui \u00e9 anta, e este aqui \u00e9 peixe\u201d, disse, apontando para cada um dos alimentos servidos. \u201cAqui perto, come\u00e7aram a plantar milho e soja. Ent\u00e3o, o animal vai para o lugar mais f\u00e1cil de buscar alimento para ele, em vez de estar aqui dentro do mato\u201d.<\/p>\n<p>A ca\u00e7a, que era encontrada com uma caminhada de um quil\u00f4metro (km), agora est\u00e1 a cerca de 15 km. Para encontrar alguns animais espec\u00edficos, \u00e9 preciso andar ainda mais, cerca de 60 km. Os alimentos colhidos tamb\u00e9m est\u00e3o mais escassos. \u201cA nossa ro\u00e7a [planta\u00e7\u00e3o] \u00e9 a cidade, eu vou falar a verdade\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cultura na educa\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nNas aldeias, o desafio \u00e9 fazer com que os mais jovens se interessem pelas tradi\u00e7\u00f5es e conhe\u00e7am a cultura da qual fazem parte. Uma das estrat\u00e9gias \u00e9 incorporar o ensino nas escolas do territ\u00f3rio. Pelo menos uma vez por semana, os estudantes t\u00eam aulas sobre pr\u00e1ticas culturais, aprendem a l\u00edngua rikbaktsa, as dan\u00e7as e os costumes.<\/p>\n<p>O professor Givanildo Bismy, da Escola Estadual Myhyinymykyta, em Barranco Vermelho, est\u00e1 terminando o mestrado, no qual estuda literatura ind\u00edgena. Ele busca trazer para as salas de aula esses ensinamentos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 transformar para que as crian\u00e7as possam ter o conhecimento das hist\u00f3rias. Isso \u00e9 uma coisa muito importante para n\u00f3s. A gente j\u00e1 come\u00e7a a fluir, j\u00e1 come\u00e7a a ser o protagonista da nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria, do pr\u00f3prio nosso povo. N\u00f3s, ind\u00edgenas, do pr\u00f3prio povo, estamos escrevendo a nossa hist\u00f3ria, que n\u00e3o tem ningu\u00e9m que escreveu assim. E a gente come\u00e7ou agora\u201d, diz o professor.<\/p>\n<p>Uma das dificuldades para o ensino da cultura \u00e9 justamente a falta de materiais espec\u00edficos. \u201cA gente tem muito pouco esse material pr\u00f3prio que \u00e9 do nosso povo Rikbaktsa. A gente recebe os materiais de fora, que \u00e0s vezes n\u00e3o servem para nosso povo. N\u00e3o \u00e9 de acordo com o que a gente quer\u201d, diz a professora Gesilene Aikdopa, da mesma escola.<\/p>\n<p>Na Escola EstaduaI Ind\u00edgena P\u00e9 de Mutum, o professor Andr\u00e9 Apyton, respons\u00e1vel pelo ensino da l\u00edngua, diz que a falta de materiais impacta no ensino. At\u00e9 mesmo porque, l\u00e1, os alunos n\u00e3o conseguem praticar em casa, pois muitas fam\u00edlias t\u00eam o portugu\u00eas como primeiro idioma.<\/p>\n<p>\u201cA ideia \u00e9 que eles aprendam com as fam\u00edlias a fala na l\u00edngua materna e, na escola, eles aprenderiam mais a escrita. Mas isso n\u00e3o vem acontecendo. As fam\u00edlias n\u00e3o falam. S\u00f3 os mais idosos que t\u00eam dom\u00ednio da l\u00edngua. A\u00ed, em casa, geralmente os pais tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o falam mais\u201d, diz.<\/p>\n<p><strong>Retorno para a comunidade<\/strong><br \/>\nPara Gesilene Aikdopa, a inten\u00e7\u00e3o do ensino da cultura n\u00e3o \u00e9 manter os jovens nas aldeias necessariamente, mas que eles conhe\u00e7am, defendam o povo e possam, caso sigam os estudos fora, voltar e trazer os conhecimentos para a comunidade.<\/p>\n<p>\u201cDa mesma forma que eles cresceram, nasceram aqui, a gente tenta form\u00e1-los em cada profiss\u00e3o para que eles defendam a gente tamb\u00e9m. Porque t\u00eam muitos vindo para a aldeia tirar coisas nossas. Ent\u00e3o, a gente tamb\u00e9m forma para trazer retorno para a comunidade\u201d.<\/p>\n<p>Cumprir essa expectativa \u00e9 o sonho de Rogerderson Natsitsabui, da aldeia P\u00e9 de Mutum. Hoje, aos 30 anos, ele segue na aldeia participando de projetos e se aprimorando, com o sonho de cursar direito para advogar pelo pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>\u201cEu acredito que, futuramente, eu vou, se Deus quiser, ingressar numa faculdade. Para mim, isso \u00e9 um avan\u00e7o, mas eu nunca vou deixar o que eu aprendi aqui\u201d, diz. \u201cMeu foco, desde quando eu comecei a participar de mobiliza\u00e7\u00f5es, sempre foi direito. Eu nunca desisti disso\u201d.<\/p>\n<p>Assim como diz o cacique Ademir Rikbakta, para Rogerderson Natsitsabui, algumas coisas podem mudar, mas ele nunca deixar\u00e1 de ser ind\u00edgena.<\/p>\n<p>\u201cNo mundo afora, t\u00eam pessoas que t\u00eam uma vis\u00e3o dos povos ind\u00edgenas em que, se eu estou com um iPhone meu, eu perdi a minha cultura, eu n\u00e3o falo mais a minha l\u00edngua materna. A gente precisa mostrar [que n\u00e3o \u00e9 assim], levar [nossa cultura] daqui para fora, mostrar quem somos. Isso eu acredito que nos fortalece\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA gente nunca ir\u00e1 deixar de ser ind\u00edgena\u201d. \u00c9 com essa frase que o cacique Ademir Rikbakta, da aldeia Beira Rio, da Terra Ind\u00edgena (TI) Erikpatsa, fala sobre a import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o da cultura do povo Rikbaktsa. \u201cA gente conversa muito com a comunidade. Aprendi assim com meu pai. A gente conversa muito na l\u00edngua. 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