{"id":352421,"date":"2025-04-21T03:35:37","date_gmt":"2025-04-21T06:35:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=352421"},"modified":"2025-04-21T11:39:45","modified_gmt":"2025-04-21T14:39:45","slug":"chantecler-dunga-55-anos-e-a-ultima-vitrola-de-ficha-de-gafieira-do-velho-cabare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chantecler-dunga-55-anos-e-a-ultima-vitrola-de-ficha-de-gafieira-do-velho-cabare\/","title":{"rendered":"Chantecler, Dunga, 55 anos, e a \u00faltima vitrola de ficha de gafieira do velho cabar\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>Recife ainda guarda em certos becos a mem\u00f3ria de tempos menos higi\u00eanicos, por\u00e9m mais sinceros. E ningu\u00e9m melhor para evocar essa era do que Chantecler, frequentador de velhos cabar\u00e9s, criatura mitol\u00f3gica de terno amassado e sapato de duas cores, sobrevivente de carnavais em preto-e-branco e noites com cheiro de gard\u00eania e batom barato.<\/p>\n<p>Pois foi ele quem teve a brilhante ideia de reabrir, por uma noite apenas, as portas m\u00edsticas da Casa da Luz Vermelha, que h\u00e1 d\u00e9cadas s\u00f3 figurava nas conversas sussurradas de velhos tios e pol\u00edticos semi-aposentados. A reabertura se justificava por uma efem\u00e9ride rara: os 55 anos de Dunga, &#8211; n\u00e3o o da Sele\u00e7\u00e3o, que fique claro, mas o Dunga do Bar do Gato, o Dunga que, com cinquenta e cinco anos bem vividos, j\u00e1 deixou boquiabertas garotas de Boa Viagem e Piedade.<\/p>\n<p>A festa, na quinta-feira, 17, foi montada como nos velhos tempos, com requintes de mofo e nostalgia. A data foi meticulosamente estudada para evitar coment\u00e1rios de heresia, numa refer\u00eancia ao dia seguinte, \u00e0 sexta da Paix\u00e3o. As vitrolas de ficha, depois de anos silenciadas, chiaram como pulm\u00f5es de ex-fumante antes de deixarem vazar boleros, forr\u00f3s e sambas-can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os convivas, todos acima dos 65, surgiram trajados como para uma cerim\u00f4nia secreta da ma\u00e7onaria, com ternos largos, perfumes adocicados, sapatos com a sola j\u00e1 contando os dias. E elas \u2014 as mo\u00e7as da noite, agora senhoras da tarde \u2014 retornaram \u00e0 cena n\u00e3o como profissionais do sexo, mas como dan\u00e7arinas honor\u00edficas, estrelas de um tempo que se recusava a morrer em paz.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve promiscuidade, apenas saudade. Mesmo porque, agora aos 55, Dunga \u00e9 tido como um respeitado senhor casado. Os passos de dan\u00e7a foram lentos, mas respeitosos, como se cada m\u00fasica fosse uma despedida. A cerveja era quente, o u\u00edsque era nacional, e a conversa corria macia, cheia de nomes que j\u00e1 viraram ruas ou pontes mal cuidadas.<\/p>\n<p>Chantecler, ao centro da mesa, brindava com o copo trincado e os olhos marejados \u2014 n\u00e3o de emo\u00e7\u00e3o, mas de catarata. \u201c\u00c9 preciso celebrar enquanto ainda se tem coluna pra ficar em p\u00e9\u201d, disse, antes de tentar um passo de gafieira que por pouco n\u00e3o vira atendimento do SAMU.<\/p>\n<p>Ao fim da noite, Dunga apagou as velinhas com um sopro curto e resignado. N\u00e3o pediu desejos. Sabia que a \u00fanica coisa que ainda valia a pena era exatamente aquilo &#8211; um momento suspenso no tempo, entre o chiado da vitrola e o perfume adocicado de uma mem\u00f3ria em vestido justo.<\/p>\n<p>A noite j\u00e1 ia alta quando apareceu Z\u00e9 da Pomada, ex-vereador, ex-cantor de calypso e atual morador de um anexo improvisado atr\u00e1s da sede do Clube dos Subtenentes. Chegou de bengala, mas com o esp\u00edrito de quem ainda cogita cometer pequenos pecados.<\/p>\n<p>\u2014 Eita, Casa da Luz&#8230; Se essas paredes falassem, o Tribunal de Contas vinha abaixo.<\/p>\n<p>\u2014 Fique tranquilo, Z\u00e9, respondeu Chantecler com um meio sorriso. As paredes aqui s\u00e3o mais discretas que confession\u00e1rio de padre progressista.<\/p>\n<p>Dunga, no centro da aten\u00e7\u00e3o, era s\u00f3 risada. Usava uma camisa social bege, aberta at\u00e9 o terceiro bot\u00e3o, revelando uma corrente de ouro falsa e um peito que j\u00e1 teve m\u00fasculos, hoje substitu\u00eddos por mem\u00f3rias e colesterol.<\/p>\n<p>\u2014 Cinco d\u00e9cadas mais cinco velinhas e ainda dan\u00e7o mais do que muito moleque de aplicativo,\u201d dizia, enquanto rodopiava com Dona Marlene, que no passado atendia por \u201cNeide do Saxofone\u201d e hoje prefere ser chamada apenas de \u201cartista aposentada.\u201d<\/p>\n<p>\u2014 Cuidado, Dunga, que o joelho n\u00e3o tem mais garantia,\u201d gritou Seu Toinho, que observava da poltrona com um copo de Cuba Libre tremendo na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Se cair, levanto com eleg\u00e2ncia, rebateu Dunga. &#8220;O problema \u00e9 a dignidade, que \u00e0s vezes demora mais.\u201d<\/p>\n<p>A vitrola engasgava em \u201cBesame Mucho\u201d quando Bibi Marraia, lenda viva dos cabar\u00e9s do Pina, entrou como uma entidade. Vestia um kaftan vermelho que parecia feito de cortina de teatro antigo e usava um penteado que desafiava as leis da f\u00edsica e do Ibama.<\/p>\n<p>\u2014 Quem me chamou, meus amores?, perguntou, dram\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u2014 A saudade, respondeu Z\u00e9 da Pomada, levantando-se para beijar-lhe a m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E o d\u00e9bito,\u201d cochichou Chantecler, \u201cmas isso a gente resolve em outro plano espiritual.<\/p>\n<p>A conversa flu\u00eda como u\u00edsque adulterado: quente, ardido e honesto. Falavam de ex-amores, de carnavais que n\u00e3o acabavam em bala de borracha, de um Recife que s\u00f3 sobrevive nos discursos de boteco e nas letras de frevo canhestro.<\/p>\n<p>\u2014 Lembram daquela vez em que o bispo apareceu aqui achando que era retiro espiritual?<\/p>\n<p>\u2014 Lembro, sim, disse Marlene, rindo. &#8220;Saiu convertido, mas pra outras pr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A madrugada foi findando com passos lentos e sorrisos largos. Ningu\u00e9m ali esperava mais do que isso &#8211; apenas o direito sagrado de envelhecer entre pares, num territ\u00f3rio onde a juventude era uma lembran\u00e7a boa e n\u00e3o uma amea\u00e7a digital.<\/p>\n<p>Chantecler, j\u00e1 com os olhos semi-cerrados de u\u00edsque ou ternura, resumiu a noite com sua filosofia de bar:<\/p>\n<p>\u2014 A vida, meus caros, \u00e9 uma vitrola de ficha, que toca bonito enquanto tem moeda. Depois, \u00e9 s\u00f3 sil\u00eancio e o chiado da saudade.<\/p>\n<p>Ao som de um \u00faltimo samba-de-breque e sob a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Bibi Marraia, a Casa da Luz Vermelha fechou mais uma vez suas cortinas. Mas jura-se por a\u00ed que, se algu\u00e9m souber a senha certa \u2014 e tiver a ficha certa \u2014 ainda pode ouvir ecos daquela festa.<\/p>\n<p>Depois, como em toda boa lenda urbana, a Casa da Luz Vermelha voltou ao sil\u00eancio. Mas quem passa por l\u00e1 em qualquer noite garante que, quem encostar o ouvido na porta, ainda escutar\u00e1 um bolero sussurrando baixinho: \u201cVolta&#8230; vem viver outra vez ao meu lado&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Parab\u00e9ns, Dunga! A farra poderia ser antes, mas, por que cargas d&#8217;\u00e1gua, voc\u00ea resolveu ir a S\u00e3o Paulo sem avisar a velhos tios e amigos de cabelos prateados, que organizavam a homenagem?<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 Diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recife ainda guarda em certos becos a mem\u00f3ria de tempos menos higi\u00eanicos, por\u00e9m mais sinceros. 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