{"id":352460,"date":"2025-04-22T02:00:45","date_gmt":"2025-04-22T05:00:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=352460"},"modified":"2025-04-21T19:23:38","modified_gmt":"2025-04-21T22:23:38","slug":"os-dialogos-e-o-futuro-incerto-no-leito-de-hospital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/os-dialogos-e-o-futuro-incerto-no-leito-de-hospital\/","title":{"rendered":"Os di\u00e1logos e o futuro incerto no leito de hospital"},"content":{"rendered":"<p>O cheiro de antiss\u00e9ptico queima minhas narinas, mas j\u00e1 nem noto. H\u00e1 semanas vivo entre estas paredes brancas do hospital, onde o sil\u00eancio \u00e9 interrompido apenas pelo *bip* mon\u00f3tono dos monitores. Minha m\u00e3o treme ao ajustar o soro na veia de Ana. Sete anos, olhos cor de mel, pele p\u00e1lida como papel. Ela dorme agora, curvada sob o cobertor fino, a respira\u00e7\u00e3o um fio prestes a se romper.<\/p>\n<p>\u2014 Carlos &#8211; interrompe meu sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A voz de Ra\u00fal me atravessa como uma faca. Ele est\u00e1 na porta, impec\u00e1vel no terno cinza, o rel\u00f3gio de ouro cintilando sob a luz fluorescente.<\/p>\n<p>Sorri, mas n\u00e3o chega aos meus olhos: Voc\u00ea sabe o que eu quero. Ele diz.<\/p>\n<p>A proposta dele ecoa na minha cabe\u00e7a desde ontem: &#8220;Um carregamento de morfina desaparecer\u00e1 do dep\u00f3sito. Voc\u00ea assina o relat\u00f3rio como diretor chefe, e eu entrego o Remicade para a Ana. Simples assim.&#8221;<\/p>\n<p>Simples. A palavra soava como um veneno. O Remicade \u00e9 a \u00fanica esperan\u00e7a contra a doen\u00e7a rara que est\u00e1 corroendo as articula\u00e7\u00f5es dela. Sem ele, os m\u00e9dicos d\u00e3o seis meses. Talvez menos.<\/p>\n<p>Mas Ra\u00fal n\u00e3o \u00e9 um benfeitor. A morfina sumiria para as ruas, para os v\u00edcios de adolescentes e pais desesperados. Quantos e quantas &#8220;Anas&#8221; morreriam de overdose, sufocadas em becos, enquanto a minha respira em um leito esterilizado?<\/p>\n<p>Minha m\u00e3o encontra o pingente de prata no bolso \u2014 um cora\u00e7\u00e3o com a inicial da Leonor, minha esposa. Ela morreu num acidente de carro, h\u00e1 quatro anos. &#8220;N\u00e3o deixe a dor te cegar&#8221; ela diria. Mas Leonor nunca viu Ana gemer de dor, nunca segurou a m\u00e3o dela enquanto ela perguntava:<\/p>\n<p>&#8220;Pai, quando eu vou brincar de novo?&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Pense r\u00e1pido: Ra\u00fal sussurra, aproximando-se. O estoque do Remicade acaba amanh\u00e3. E o hospital n\u00e3o vai priorizar uma crian\u00e7a mesmo sendo filha do diretor, n\u00e3o tem como.<\/p>\n<p>Sinto o suor escorrer pelas costas. Lembro da noite em que Ana ainda andava. Corr\u00edamos no parque, e ela ria ao ser levantada no ar, seus dedinhos grudados nos meus. Agora, esses mesmos dedos est\u00e3o inchados, retorcidos. Eu faria qualquer coisa? At\u00e9 condenar outros pais a chorarem seus filhos?<\/p>\n<p>Ra\u00fal entrega-me a caneta. Dou um passo atr\u00e1s, mas ela pesa como um tijolo.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 santo, Carlos, ele ri. Lembra da insulina que voc\u00ea desviou para o velho Silva no ano passado? Isso aqui \u00e9 igual. S\u00f3 que\u2026 maior.<\/p>\n<p>O velho Silva. Um diab\u00e9tico sem-teto que eu ajudava \u00e0s escondidas. Na \u00e9poca, justificou: &#8220;\u00c9 s\u00f3 uma ampola.&#8221; Mas Ra\u00fal vira a ferida da minha alma. Ele sabe que minha moral \u00e9 flex\u00edvel quando o desespero bate.<\/p>\n<p>Ana murmura em sono agitado: &#8220;N\u00e3o quero mais inje\u00e7\u00f5es, pai\u2026&#8221;<\/p>\n<p>A caneta rola entre meus dedos. Se eu assinar, serei c\u00famplice. Mas se n\u00e3o o fizer, como explicarei a ela nos \u00faltimos dias?<\/p>\n<p>&#8220;Perdoe-me, eu tentei ser nobre&#8221;? Leonor me chamaria de covarde. Ou de her\u00f3i? N\u00e3o sei mais.<\/p>\n<p>\u2014 Decide: pressiona Ra\u00fal.<\/p>\n<p>Olho para Ana. Uma l\u00e1grima escorre de seu olho fechado. Imagino-a enterrada ao lado da m\u00e3e, e meu peito arde. Mas tamb\u00e9m vejo rostos sem nome, corpos em vielas, fam\u00edlias destru\u00eddas pela droga que eu libertei.<\/p>\n<p>A caneta toca o papel.<\/p>\n<p>\u2014 Bom garoto: Ra\u00fal suspira, aliviado.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3o para. O relat\u00f3rio est\u00e1 preenchido, exceto pela assinatura: Carlos Menezes. Cinco s\u00edlabas que podem salvar ou assassinar.<\/p>\n<p>Ergo os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 E se eu disser n\u00e3o?<\/p>\n<p>Ra\u00fal congela. Seu sorriso desmorona.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o\u2026 \u2014 ele puxa um frasco do bolso, o Remicade brilhando como diamante l\u00edquido \u2014 isso aqui vai pelo ralo. E voc\u00ea assistir\u00e1.<\/p>\n<p>Segura o frasco sobre a pia, o dedo prestes a abrir a tampa.<\/p>\n<p>O cora\u00e7\u00e3o acelera. Posso saltar, arranc\u00e1-lo de suas m\u00e3os? Mas ele \u00e9 mais forte. Mais frio.<\/p>\n<p>Ana geme.<\/p>\n<p>&#8211; Qualquer escolha. &#8211; diz Ra\u00fal.<\/p>\n<p>Aperto o pingente, no bolso, at\u00e9 a pele doer.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o? &#8211; Raul tem as t\u00eamporas suadas.<\/p>\n<p>Abro a boca para responder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cheiro de antiss\u00e9ptico queima minhas narinas, mas j\u00e1 nem noto. H\u00e1 semanas vivo entre estas paredes brancas do hospital, onde o sil\u00eancio \u00e9 interrompido apenas pelo *bip* mon\u00f3tono dos monitores. Minha m\u00e3o treme ao ajustar o soro na veia de Ana. Sete anos, olhos cor de mel, pele p\u00e1lida como papel. 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