{"id":352649,"date":"2025-04-24T05:29:54","date_gmt":"2025-04-24T08:29:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=352649"},"modified":"2025-04-24T06:28:14","modified_gmt":"2025-04-24T09:28:14","slug":"edu-maratonista-tipo-forrest-gump-vai-de-brasilia-ao-litoral-pernambucano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/edu-maratonista-tipo-forrest-gump-vai-de-brasilia-ao-litoral-pernambucano\/","title":{"rendered":"Edu, maratonista tipo Forrest Gump, vai de Bras\u00edlia ao litoral pernambucano"},"content":{"rendered":"<p>Eduardo Mart\u00ednez, veterin\u00e1rio por insist\u00eancia da m\u00e3e e maratonista por teimosia pr\u00f3pria, \u00e9 mais conhecido nos arredores do Planalto Central como o &#8220;Forrest Gump do Cerrado&#8221;. Um apelido que n\u00e3o o incomoda; ele o ostenta com orgulho, como se fosse uma honraria concedida pelo Minist\u00e9rio da Loucura e das Causas Perdidas.<\/p>\n<p>Acordou num dia qualquer, desses em que o c\u00e9u de Bras\u00edlia parece um filtro de Instagram esquecido no azul-celeste, e anunciou para a esposa e seu casal de cachorros:<\/p>\n<p>\u2014 Vou correr at\u00e9 Itapuama. Praia. Pernambuco. Regi\u00e3o paradis\u00edaca.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m deu muita bola. Irene, a esposa, apenas levantou os olhos do celular e perguntou se ele ia querer seu caf\u00e9 gourmet, uma rotina di\u00e1ria de toda manh\u00e3, antes de levar adiante a sandice.<\/p>\n<p>Inspirado por seus anos como rei le\u00e3o autointitulado do cerrado \u2014 t\u00edtulo adquirido ap\u00f3s salvar um filhote de on\u00e7a-pintada que confundira um Fiat Uno com a m\u00e3e \u2014 Eduardo sempre acreditou possuir habilidades m\u00edsticas oriundas da fauna nacional. Emprestou as patas de um guepardo imagin\u00e1rio, inflou os pulm\u00f5es como uma baleia branca em busca de liberdade, e partiu. P\u00e9 ante p\u00e9. GPS na cabe\u00e7a, p\u00e3o de queijo na mochila.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia ficou para tr\u00e1s como uma miragem institucional. Passou por Passos, na divisa de Goi\u00e1s com Bahia, onde trocou palavras com um velho tocador de berrante que jurou t\u00ea-lo visto nos cr\u00e9ditos finais de um filme do Almod\u00f3var. Em solo baiano, cruzou com uma prociss\u00e3o. Confundido com um santo corredor, ganhou um ter\u00e7o e uma marmita de frango com jerimum.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria Federal parou-o na BR-101 Norte, j\u00e1 pr\u00f3ximo a Sergipe.<\/p>\n<p>\u2014 Documento?<\/p>\n<p>\u2014 Tenho s\u00f3 o da vacina antirr\u00e1bica.<\/p>\n<p>\u2014 Motivo da viagem?<\/p>\n<p>\u2014 Paz de esp\u00edrito. E um mergulho em Itapuama.<\/p>\n<p>Liberaram. Faltava pouco para os tempos atuais surtarem de vez e a normalidade era cada vez mais um del\u00edrio coletivo.<\/p>\n<p>Chegou a Itapuama 23 dias depois, com a barba lembrando um ermit\u00e3o digital e os t\u00eanis reduzidos a duas lembran\u00e7as de tecido. Mergulhou no mar como se voltasse ao \u00fatero do mundo e proclamou, entre duas ondas e um suspiro profundo:<\/p>\n<p>\u2014 Isto aqui sim \u00e9 o centro do Brasil.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m entendeu. Mas um surfista, ouvindo de longe, pensou que talvez, s\u00f3 talvez, aquele homem tivesse encontrado algo mais valioso que petr\u00f3leo ou reelei\u00e7\u00e3o. Achara enfim a paz. Ou ao menos uma desculpa convincente para n\u00e3o voltar a Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>No apartamento na Asa Norte, Irene, mulher de fibra, paci\u00eancia e hist\u00f3rico de hipertens\u00e3o, jamais poderia ser chamada de cr\u00e9dula. Se o marido dissesse que o c\u00e9u era azul, ela olharia pela janela s\u00f3 para ter certeza. Quando ele saiu de casa anunciando a corrida at\u00e9 Itapuama, n\u00e3o fez esc\u00e2ndalo. Apenas serviu o caf\u00e9, mandou ele levar um protetor solar fator 50 e voltou para o grupo de WhatsApp das &#8220;M\u00e3es de Bras\u00edlia Resistentes e com Labirintite&#8221;.<\/p>\n<p>Tr\u00eas dias depois, por\u00e9m, uma notifica\u00e7\u00e3o no celular mudou o rumo da hist\u00f3ria: \u201cHomem corre de Bras\u00edlia a Pernambuco em nome da paz: \u2018Sou um com os animais\u2019\u201d. A mat\u00e9ria vinha acompanhada de uma foto: Eduardo, descabelado, de bermuda, posando ao lado de um cavalo em Petrolina. O cavalo, ali\u00e1s, parecia mais confuso que orgulhoso.<\/p>\n<p>\u2014 Ele vai mesmo at\u00e9 o fim, esse danado \u2014 murmurou Irene, entre o assombro e o orgulho que s\u00f3 as esposas de malucos de bom cora\u00e7\u00e3o conseguem sentir.<\/p>\n<p>No mesmo dia, convocou a filha do casal, Maria Lu\u00edza, uma quase aborrecente carinhosamente apelidada Malulinha (coisa de lulista, s\u00f3 sendo), especialista em falar &#8220;cringe&#8221; para tudo e viciada em frappuccino.<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, o pai t\u00e1 viralizando. Tem dancinha j\u00e1 com o \u00e1udio dele dizendo \u201csou um com os animais\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Pois agora a gente vai ver isso de perto.<\/p>\n<p>Compraram passagens para Recife, hospedaram-se num Airbnb decorado com conchas e quadros motivacionais (&#8220;Sorria, voc\u00ea est\u00e1 na praia&#8221;, dizia um deles, torto na parede). De l\u00e1, seguiram de Uber at\u00e9 Itapuama, com o motorista explicando que ali era tranquilo, mas s\u00f3 at\u00e9 o primeiro influenciador aparecer com drone.<\/p>\n<p>Na praia, Irene montou acampamento de guerra: canga, cooler, protetor solar e uma cadeira dobr\u00e1vel que gritava \u201cdignidade\u201d mesmo em meio \u00e0 areia quente. Malulinha fazia v\u00eddeos, esperando capturar a chegada do pai para gerar um clipe que chamaria de \u201cA Saga do Le\u00e3o do Cerrado\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 M\u00e3e, tu acha que ele vem mesmo? \u2014 perguntou a garota, ao terceiro dia de espera.<\/p>\n<p>\u2014 Se ele n\u00e3o vier, eu mesma corro de volta para Bras\u00edlia e enfio essa maratona no lugar que merece&#8230;<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi preciso. No p\u00f4r do sol do quinto dia, surgindo na linha do horizonte como uma lenda descal\u00e7a e suada, l\u00e1 vinha ele. Eduardo Mart\u00ednez, olhos marejados, barba de andarilho b\u00edblico e j\u00e1 sem a camisa que, rasgada ao longo da caminhada, foi deixada para tr\u00e1s e substitu\u00edda por uma de cor azul do mar que o aguardava.<\/p>\n<p>Correu at\u00e9 a \u00e1gua, mergulhou com um grito primal, e saiu caminhando na dire\u00e7\u00e3o da esposa, exalando sal e aroma de algas.<\/p>\n<p>\u2014 Amor&#8230; cheguei.<\/p>\n<p>Irene e o olhou de cima a baixo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois agora voc\u00ea me explica essa aventura. E espero que tenha trazido p\u00e3o, porque aqui em Itapuama n\u00e3o tem padaria.<\/p>\n<p>E ele riu. Um riso longo, livre, como se fosse o pr\u00f3prio mar falando.<\/p>\n<p>Ela riu tamb\u00e9m. E, sem saber como, sentaram-se os tr\u00eas \u2014 ele, ela, e a filha postando tudo em tempo real \u2014 \u00e0 beira-mar, como se o pa\u00eds fizesse algum sentido ali, naquela marolinha mansa.<\/p>\n<p>Por fim, mais uma surpresa:<\/p>\n<p>&#8211; Amorzinho, vamos ficar por aqui?<\/p>\n<p>&#8211; Que boa ideia, Du. At\u00e9 porque, na falta de \u00e1gua, os donos das barracas d\u00e3o um jeito com o suco de pitanga.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim?, perguntou a filha, curiosa, sem saber nadica de nada.<\/p>\n<p>&#8211; Ah!, fique s\u00f3 filmando, Malulinha. \u00c9 com Pit\u00fa. E n\u00e3o confunda com camar\u00e3o grande.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Jos\u00e9 Seabra \u00e9 Diretor da Sucursal Regional Nordeste de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Mart\u00ednez, veterin\u00e1rio por insist\u00eancia da m\u00e3e e maratonista por teimosia pr\u00f3pria, \u00e9 mais conhecido nos arredores do Planalto Central como o &#8220;Forrest Gump do Cerrado&#8221;. Um apelido que n\u00e3o o incomoda; ele o ostenta com orgulho, como se fosse uma honraria concedida pelo Minist\u00e9rio da Loucura e das Causas Perdidas. 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