{"id":352700,"date":"2025-04-24T11:46:37","date_gmt":"2025-04-24T14:46:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=352700"},"modified":"2025-04-24T12:28:26","modified_gmt":"2025-04-24T15:28:26","slug":"tres-pratos-tres-canecas-tres-garfos-e-tres-corpos-no-chao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tres-pratos-tres-canecas-tres-garfos-e-tres-corpos-no-chao\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas pratos, tr\u00eas canecas, tr\u00eas garfos e tr\u00eas corpos no ch\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Sempre foram t\u00e3o pr\u00f3ximos os dois. Gerados no mesmo ventre, as m\u00e3os experientes da parteira enxergavam o \u00fatero materno por dentro. Estavam abra\u00e7ados, ela dizia, rostinhos colados um ao outro. Seriam irm\u00e3os muito unidos.<\/p>\n<p>Os beb\u00eas nasceram, dois meninos, unidos pela face, a metade direita da boca de um unida \u00e0 metade esquerda da boca do outro. Os nomes j\u00e1 estavam escolhidos havia tempo: Castor e P\u00f3lux, personagens centrais de uma lenda que o pai ouvira muitos anos antes. Mas apesar da condi\u00e7\u00e3o incomum dos g\u00eameos, a verdadeira surpresa foi encontrar uma terceira crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma menina, t\u00e3o discretamente posicionada, t\u00e3o pequena e quietinha que n\u00e3o fora percebida ao longo de nove meses. Os pais, acuados pelo inesperado, envolvidos pelos g\u00eameos siameses, pela necessidade de ampliar o enxoval, pensando que se um era bom e dois demais, como criar tr\u00eas? N\u00e3o puderam dedicar tanto esfor\u00e7o mental \u00e0 escolha do nome da terceira crian\u00e7a. Chamaram-na Ant\u00f4nia.<\/p>\n<p>Os pequenos foram assim crescendo. A cirurgia para separar Castor e P\u00f3lux seria vi\u00e1vel, mesmo com os recursos pouco avan\u00e7ados daquele primeiro quartel do s\u00e9culo XX. Mas os pais achavam t\u00e3o lindo como eles se acarinhavam&#8230; Aquele beijinho intermin\u00e1vel, um beijo inocente dos inocentes querubins. Nas poucas fotos de inf\u00e2ncia, Ant\u00f4nia sempre observava os dois, um sat\u00e9lite orbitando os beb\u00eas plenos. Algumas poucas apresenta\u00e7\u00f5es nos circos itinerantes, que na \u00e9poca ainda tinham espa\u00e7o para as \u201caberra\u00e7\u00f5es\u201d, renderam uns trocados para a fam\u00edlia, gente simples e humilde. O dinheiro, por\u00e9m, n\u00e3o compensava o desconforto da m\u00e3e em expor seus pequenos anjos. N\u00e3o podia admitir seus filhos serem chamados de \u201caberra\u00e7\u00e3o\u201d. Findaram as apresenta\u00e7\u00f5es, findaram os trocados e manteve-se a vida de escassez. A rocinha nos fundos da casa ajudava um<br \/>\npouco a sustentar. Assim, os beb\u00eas viraram crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Os xif\u00f3pagos viviam felizes um com o outro. Gostavam das mesmas comidas, gostavam da mesma radionovela. Brincavam as mesmas brincadeiras.<\/p>\n<p>Pareciam uma s\u00f3 pessoa: G\u00eameos. Quando puderam expressar opini\u00e3o, afirmaram que n\u00e3o queriam ser separados. Resistiram \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o das outras crian\u00e7as. Bastavam-se a si pr\u00f3prios. E Ant\u00f4nia orbitava.<\/p>\n<p>Mas a vida sempre esteve longe de ser f\u00e1cil. Banheiros p\u00fablicos eram vetados a G\u00eameos, numa moral inflex\u00edvel. Na rua, era comum ouvir express\u00f5es como \u201cQue falta de vergonha!\u201d. N\u00e3o, n\u00e3o estavam se beijando, mas como explicar isso a um passante que n\u00e3o queria ouvir e j\u00e1 tinha suas verdades prontas e consumadas? E no fim, ao chegar \u00e0 puberdade e sem ter outras bocas para beijar, quem sabe o que ter\u00e1 acontecido?<\/p>\n<p>Adultos, nunca conseguiram um emprego duradouro. Os pais partiram e a casa ficou aos filhos, o terreno extenso vendido em pequenas por\u00e7\u00f5es, mutilado, o dinheiro consumido, a cidade crescendo ao redor. Vendiam quitutes \u2013 que poucos se aproximavam para comprar \u2013 e aceitavam de bom grado as doa\u00e7\u00f5es feitas pelas \u201calmas caridosas\u201d. Ant\u00f4nia contribu\u00eda lavando roupas de terceiros na fonte. E orbitava, a fiel escudeira.<\/p>\n<p>O tempo passou. Vida simples, tost\u00f5es curtos, quase nulos. Desde sempre os olhares desconfiados dos outros, piorando conforme a idade chegava e lhes mudava as fei\u00e7\u00f5es, tirava o vi\u00e7o da juventude. Os velhinhos sempre s\u00e3o exclu\u00eddos. Ao final, tornaram-se eremitas numa casa velha. A velhinha Ant\u00f4nia h\u00e1 mais de setenta anos na infind\u00e1vel transla\u00e7\u00e3o em torno da constela\u00e7\u00e3o de G\u00eameos.<\/p>\n<p>Naquele dia, anivers\u00e1rio dos tr\u00eas, um bolo de cenoura comprado com carinho por Ant\u00f4nia no mercadinho da esquina. Um bule cheio de caf\u00e9 de segunda, amargo e ralo. Tr\u00eas pratos, tr\u00eas canecas, tr\u00eas garfos. Uma faca grande demais para cortar o bolo, portentosamente colocado ao centro da mesa, ainda embrulhado em papel pardo. Os irm\u00e3os sentados em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia vai buscar um prato para p\u00f4r o bolo. \u00c9 um dia especial, quer usar aquele prato que ficou de heran\u00e7a dos av\u00f3s, aquele grande, de porcelana, com o desenho em borr\u00e3o azul chinoiserie. Alcan\u00e7a a lou\u00e7a na parte alta da estante, as m\u00e3os tr\u00eamulas da idade. O prato se despeda\u00e7a ao atingir o ch\u00e3o com estardalha\u00e7o. Os gritos de G\u00eameos cortam como cacos afiados.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nia permanece calada. Orbita at\u00e9 a geladeira e pega um tubo de cola instant\u00e2nea. Junta os cacos da centen\u00e1ria porcelana azul, abre a tampa da cola, pega o primeiro fragmento. Ouve ainda os gritos dele. Aperta o tubo de cola, que escorre lenta e grossa pelo bico. Ap\u00f3s um segundo de reflex\u00e3o, besunta os pr\u00f3prios l\u00e1bios com o produto.<\/p>\n<p>Foram encontrados exatamente trinta dias depois. Sobre a mesa, um bule cheio de caf\u00e9 amargo, tr\u00eas pratos, tr\u00eas canecas, tr\u00eas garfos. Uma faca grande demais. Um bolo mofado, ainda embrulhado em papel pardo. Os tr\u00eas irm\u00e3os mortos, ca\u00eddos no ch\u00e3o da cozinha, as bocas unidas num incestuoso beijo triplo, carnal. Um beijo guloso, daqueles que devora.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>O conto &#8220;O beijo&#8221; foi publicado originalmente no livro &#8220;Tr3s contos sobre m\u00e3es famintas e outros textos que devoram&#8221;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>SILVEIRA, Cassiano. O Beijo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>In: Tr3 contos sobre m\u00e3es famintas e outros textos que devoram.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Curitiba: Eu-I\/TAUP, 2022. Editora Toma A\u00ed Um Poema \u2013 TAUP.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Instagram: @siano_silveira<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre foram t\u00e3o pr\u00f3ximos os dois. Gerados no mesmo ventre, as m\u00e3os experientes da parteira enxergavam o \u00fatero materno por dentro. Estavam abra\u00e7ados, ela dizia, rostinhos colados um ao outro. Seriam irm\u00e3os muito unidos. Os beb\u00eas nasceram, dois meninos, unidos pela face, a metade direita da boca de um unida \u00e0 metade esquerda da boca [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":352701,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-352700","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352700","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=352700"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352700\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":352702,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352700\/revisions\/352702"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/352701"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=352700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=352700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=352700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}