{"id":353033,"date":"2025-04-29T08:19:01","date_gmt":"2025-04-29T11:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353033"},"modified":"2025-04-29T08:52:40","modified_gmt":"2025-04-29T11:52:40","slug":"durmo-na-mata-e-descubro-que-meu-corpo-nao-e-meu-e-uma-semente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/durmo-na-mata-e-descubro-que-meu-corpo-nao-e-meu-e-uma-semente\/","title":{"rendered":"Durmo na mata, e descubro que meu corpo n\u00e3o \u00e9 meu; \u00e9 uma semente"},"content":{"rendered":"<p>No amanhecer a luz nasce como uma lambida \u00famida no horizonte. Meu corpo desperta antes dos meus olhos \u2014 os m\u00fasculos tremem, as patas reconhecem o ch\u00e3o frio antes mesmo de eu me erguer. O vento traz cheiros que s\u00e3o palavras: orvalho nas folhas de carvalho _, _veado macho marcando territ\u00f3rio a leste _, _ geada mordendo a terra gr\u00e1vida _. N\u00e3o penso; sinto. Sou nariz, ouvido, pelo arrepiado.<\/p>\n<p>A primeira corrida \u00e9 uma ora\u00e7\u00e3o. Meus cascos batem no solo como tambores ancestrais, e a floresta responde: os p\u00e1ssaros dissecam minhas pegadas, os insetos tecem hist\u00f3rias em volta do meu rastro. Paro no alto da colina, onde o sol rasga as nuvens. Meu uivo n\u00e3o \u00e9 som \u2014 \u00e9 raiz desenterrada, semente lan\u00e7ada. A manh\u00e3 inteira tremo com ele.<\/p>\n<p>Ao meio dia o sol \u00e9 uma l\u00edngua de fogo lambendo meu dorso. Descanso \u00e0 sombra de uma rocha coberta de musgo, onde a terra suga meu calor. Uma formiga caminha sobre meu focinho; deixo que explore. Ela fala em qu\u00edmica, em ferom\u00f4nios, e eu traduzo: _ Voc\u00ea \u00e9 irm\u00e3, mesmo sem asas Fome chega como uma mar\u00e9. Ca\u00e7o. Meus movimentos s\u00e3o versos curtos e brutais: cheiro de sangue, persegui\u00e7\u00e3o silenciosa, dentes encontrando jugular. O veado jovem estremece, e em seus olhos vejo o reflexo da minha pr\u00f3pria mortalidade. Como agradecimento, como ritual, enterro parte das v\u00edsceras sob uma \u00e1rvore tombada. A terra merece de volta o que \u00e9 dela.<\/p>\n<p>Ao entardecer a floresta se transforma em altar. A luz dourada filtra-se como incenso atrav\u00e9s das copas, e o riacho canta salmos de pedra e correnteza. Bebo, e a \u00e1gua me conta segredos: h\u00e1 um lobo solit\u00e1rio a norte, seu cheiro \u00e9 sal e ferida aberta. Decido n\u00e3o encontr\u00e1-lo hoje.<\/p>\n<p>Deitada sobre folhas secas, observo as sombras alongarem-se. Meu corpo \u00e9 mapa e b\u00fassola: cicatriz na pata dianteira (encontro com arame farpado humano), quadril levemente desalinhado (queda do penhasco no inverno passado). Cada marca \u00e9 uma hist\u00f3ria escrita na carne, cada dor, um di\u00e1logo com o mundo.<\/p>\n<p>Ao chegar \u00e0 noite a lua surge, e com ela, a segunda pele. Meus sentidos se agu\u00e7am at\u00e9 doer: ouvindo o musgo crescendo, sinto a pulsa\u00e7\u00e3o das minhocas sob o solo. Uivo novamente, e desta vez, as estrelas respondem.<\/p>\n<p>Elas n\u00e3o piscam \u2014 cantam. Seus sons s\u00e3o agudos, cristalinos, e minha coluna vertebral vibra em harmonia.<\/p>\n<p>Corro. N\u00e3o por ca\u00e7a ou medo, mas porque minhas patas sabem o caminho para o centro da Terra. O vento molha meus olhos, e por um instante, sou tudo: sou a \u00e1rvore que arranha o c\u00e9u, sou o rio que carrega mem\u00f3rias de geleiras, sou o cogumelo que devora morte para gerar vida.<\/p>\n<p>Quando paro, ofegante, a floresta sussurra:<\/p>\n<p>\u2014 _ Voc\u00ea \u00e9 minha l\u00edngua, minha garganta, meu verbo feito carne._<\/p>\n<p>Deito-me sobre uma pedra plana, onde o musgo desenha espirais. A noite me envolve, e pela primeira vez, percebo:<\/p>\n<p>Meu corpo n\u00e3o \u00e9 meu.<\/p>\n<p>\u00c9 veia da montanha, \u00e9 sopro do vento norte, \u00e9 s\u00edlaba de um poema que a Terra repete desde que o tempo era lunar.<\/p>\n<p>Durmo.<\/p>\n<p>E na madrugada antes do sol, antes dos p\u00e1ssaros, antes de me tornar loba outra vez \u2014 sou semente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No amanhecer a luz nasce como uma lambida \u00famida no horizonte. Meu corpo desperta antes dos meus olhos \u2014 os m\u00fasculos tremem, as patas reconhecem o ch\u00e3o frio antes mesmo de eu me erguer. 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