{"id":353148,"date":"2025-05-01T10:56:53","date_gmt":"2025-05-01T13:56:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353148"},"modified":"2025-05-01T10:56:53","modified_gmt":"2025-05-01T13:56:53","slug":"policial-de-pijama-pede-em-ultima-frase-que-nao-sufoquem-o-artista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/policial-de-pijama-pede-em-ultima-frase-que-nao-sufoquem-o-artista\/","title":{"rendered":"Policial de pijama pede em \u00faltima frase que n\u00e3o sufoquem o artista"},"content":{"rendered":"<p>Agripino Andrade, leitor voraz desde a long\u00ednqua inf\u00e2ncia, quando logo passou de &#8216;O Pequeno Pr\u00edncipe&#8217; para a deliciosa Cole\u00e7\u00e3o Vagalume, nunca havia pensado em se tornar, ele pr\u00f3prio, um escritor. Mas n\u00e3o \u00e9 que, agora aposentado de uma estafante carreira de policial, o desejo, finalmente, chegou durante certa madrugada ap\u00f3s dois goles a mais no vinho barato esquecido no fundo da geladeira?<\/p>\n<p>Por falar no vinho, vale a pena mencionar que ele fora aberto h\u00e1 algumas semanas durante uma infrut\u00edfera tentativa do sujeito levar Lorena, uma ex-colega, para a alcova. \u00c9 verdade que a mulher estava separada, mas nem por isso interessada em algo mais com Agripino. Tanto \u00e9 que a agora novamente senhorita imaginou apenas rever o amigo com quem havia dividido anos na mesma se\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o. Nada mais!<\/p>\n<p>Se o tino policial havia abandonado Agripino logo ap\u00f3s a aposentadoria, n\u00e3o se sabe ao certo. Mas n\u00e3o resta d\u00favida de que, pelo menos no caso da mo\u00e7oila, teria errado feio ou, como os jovens gostam de dizer, rude. No entanto, a amizade n\u00e3o se findou por completo, apesar da flagrante esfriada, parte por conta de certo afastamento de Lorena, parte pela vergonha de Agripino, que, sem d\u00favida, carregava toda a culpa.<\/p>\n<p>A vergonha, aliada da consci\u00eancia abarrotada, acompanhou o gajo pelo resto do m\u00eas, at\u00e9 que come\u00e7ou a se transformar em depress\u00e3o. N\u00e3o do tipo que se cura em uma mesa de bar ou em um passeio pela orla do lago Parano\u00e1 ou, ent\u00e3o, em uma longa caminhada pelo Parque da Cidade. A coisa era s\u00e9ria, t\u00e3o s\u00e9ria, que at\u00e9 Edmundo, o porteiro do pr\u00e9dio, percebeu que o antigo morador do apartamento 104, na Asa Norte, n\u00e3o estava bem.<\/p>\n<p>Em contrapartida, Agripino pareceu encontrar a veia art\u00edstica que tanto procurava. Descobriu-se poeta e, n\u00e3o tardou, encheu calhama\u00e7os com versos e mais versos. Sentiu-se o pr\u00f3prio Drummond e, na loucura, se afastou de todos, de tudo, do mundo.<\/p>\n<p>Era n\u00edtido que o ex-policial n\u00e3o andava bem da cuca. No entanto, como sab\u00ea-lo, se o agora poeta n\u00e3o se permitia conv\u00edvio nem com parentes e amigos mais pr\u00f3ximos? E, nas raras vezes em que o via, Edmundo ficava assustado com o corpo cada vez mais magro. O morador permanecia quase sempre enclausurado, saindo no m\u00e1ximo uma vez por semana para uma r\u00e1pida ida ao mercado.<\/p>\n<p>Foi numa segunda-feira, logo pela manh\u00e3, que dona Arminda, vizinha de porta, reclamou do forte odor vindo do apartamento de Agripino. Assustada, comunicou o fato ao porteiro, que subiu apressado as escadas. Ele tocou a campainha. Nenhuma resposta. Tocou novamente, chamou pelo morador, bateu \u00e0 porta. Nada.<\/p>\n<p>Ligaram para a s\u00edndica, que, em acordo com outros moradores que se acumularam em frente ao apartamento do Agripino, decidiu que o melhor era arrombar a porta, enquanto o corpo de bombeiros n\u00e3o chegava. E foi o que fizeram, mas algo dificultava a abertura por completo da porta.<\/p>\n<p>Edmundo esticou o pesco\u00e7o e n\u00e3o teve d\u00favida, o fedor era dali. Dois enormes sacos de lixo. Com esfor\u00e7o e encolhendo a barriga protuberante, finalmente conseguiu entrar no recinto. Olhos arregalados, deu alguns passos, o suficiente para encontrar Agripino sentado em uma cadeira, parte do tronco e a cabe\u00e7a estendidos sobre a mesa.<\/p>\n<p>Temendo pelo pior, o funcion\u00e1rio do edif\u00edcio se aproximou, esticou o bra\u00e7o e tocou o ombro do morador, cujo corpo estava cadav\u00e9rico. Edmundo chamou-o pelo nome. Nenhuma resposta. Deu-lhe algumas sacudidelas. Nada. Desesperado, agitou o corpo inerte, at\u00e9 que, para sua surpresa, viu o rosto de Agripino se virar lentamente, e os l\u00e1bios se mexerem.<\/p>\n<p>\u2014 Seu Agripino, o senhor est\u00e1 bem?<\/p>\n<p>O moribundo balbuciou algo, mas o porteiro n\u00e3o conseguiu entender. Precisou chegar os ouvidos para mais perto.<\/p>\n<p>\u2014 Seu Agripino, o senhor est\u00e1 bem?<\/p>\n<p>At\u00e9 que, finalmente, Edmundo conseguiu entender o que Agripino dizia.<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, n\u00e3o sufoque o artista.<\/p>\n<p>Foram as suas derradeiras palavras.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro 57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/15.0.3\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agripino Andrade, leitor voraz desde a long\u00ednqua inf\u00e2ncia, quando logo passou de &#8216;O Pequeno Pr\u00edncipe&#8217; para a deliciosa Cole\u00e7\u00e3o Vagalume, nunca havia pensado em se tornar, ele pr\u00f3prio, um escritor. 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