{"id":353174,"date":"2025-05-01T11:46:48","date_gmt":"2025-05-01T14:46:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353174"},"modified":"2025-05-01T12:36:28","modified_gmt":"2025-05-01T15:36:28","slug":"juca-escapa-das-chamas-do-inferno-gracas-a-algaravia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/juca-escapa-das-chamas-do-inferno-gracas-a-algaravia\/","title":{"rendered":"Juca escapa das chamas do inferno gra\u00e7as \u00e0 algaravia"},"content":{"rendered":"<p>Juca era apaixonado por palavras. Amava algumas pela musicalidade, \u201cenleio\u201d \u00e9 um bom exemplo, outras pela expressividade, tipo \u201cadoidado\u201d e a esmagadora maioria das g\u00edrias, fruto da criatividade an\u00f4nima tupiniquim. Mas o que mais curtia era acompanhar a brasileiriza\u00e7\u00e3o de termos estrangeiros, que chegavam agasalhadinhos de pa\u00edses frios e logo, logo estavam na praia, de sand\u00e1lia havaiana e tomando \u00e1gua de coco.<\/p>\n<p>O palavr\u00f3filo agradecia aos hermanos, entre outros voc\u00e1bulos, por c\u00e1ften \u2013 que ficou mais bruto, mais condizente com a explora\u00e7\u00e3o de mulheres, como cafet\u00e3o \u2013, por sua vers\u00e3o mais refinada, cafiolo, e tamb\u00e9m por ot\u00e1rio, mina, grana e bac\u00e1n, que virou bacana. Fascinava-o ver um termo usado para senhores ricos, coron\u00e9is que sustentavam amantes, ser usado no feminino para homens, mulheres e todo tipo de coisas e situa\u00e7\u00f5es. Mas seu enleio maior ia para a cantiga de roda francesa, na qual \u201cje m\u2019em vais\u201d (vou-me embora) e \u201cje m\u2019em vais d\u2019ici\u201d (vou-me embora daqui) se tornaram \u201cde marr\u00e9\u201d e \u201cde marr\u00e9 de si\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f3 que havia outra alitera\u00e7\u00e3o que o incomodava desde a inf\u00e2ncia, quando via sua irm\u00e3 mais nova e as amigas Lucinha e Mariinha em um jogo de palmas, ao som de palavras sem sentido. Eram dois versos, soavam como \u201cPanderoletapandepipetitapiruge\u201d e \u201cPanderoletapandepipetitapiti\u201d. Por algum motivo, a mem\u00f3ria de Juca os gravou pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando teve aulas de franc\u00eas no Ensino Fundamental, ele investigou aquela algaravia. \u201cPanderoleta\u201d devia ser pain de roulette, p\u00e3o redondo, e \u201cpandepi\u201d era provavelmente pain d\u2019\u00e9pices, com canela e outras especiarias. O restante do verso soava como \u201cpetit tapis rouge\u201d, pequeno tapete vermelho, e \u201cpetitapiti\u201d, talvez fosse pequeno tapete, com um \u201cti\u201d de rabinho para dar rima. Mas qual o sentido da coisa, se \u00e9 que havia, e o que um tapetinho vermelho estava fazendo entre p\u00e3es, n\u00e3o tinha a menor ideia. Chegou a pensar em pedir aux\u00edlio a suas amigas francesas, perguntar se conheciam alguma cantiga de roda com versos que soassem, mesmo remotamente, como aquela barbaridade, mas desistiu, iam achar que ele estava chapado ou doidinho de pedra.<\/p>\n<p>A outra paix\u00e3o de Juca era a birita. Ele e os amigos bebiam pesado, cervejas sendo perseguidas por destilados \u2013 u\u00edsque, vodca ou cacha\u00e7a, qualquer prazer os divertia. Com a idade, a cervejinha reinou soberana, os destilados receberam uma digna aposentadoria, mas de vez em quando ainda saudavam o p\u00fablico e pediam passagem. Foi provavelmente o \u00e1lcool que levou bem cedo o amante de palavras para a cova, aos 67 anos, v\u00edtima de um infarte fulminante. Ou foi uma predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica, vai saber, o pai dele tamb\u00e9m morrera cedo, infartado.<\/p>\n<p>A alminha de Juca n\u00e3o tinha ilus\u00f5es de ir pro c\u00e9u. Ele tomou seu lugar em uma enorme fila, que conduzia a um diab\u00e3o. O dem\u00f4nio anunciou, com voz poderosa:<\/p>\n<p>&#8211; \u00daltima chance de escapar dos castigos eternos! Direi o in\u00edcio de um verso, cada um ter\u00e1 dois segundos para dizer a continua\u00e7\u00e3o. Se acertar sobe, vai tocar harpinha l\u00e1 em cima; s\u00f3 que at\u00e9 hoje ningu\u00e9m subiu \u2013 e deu uma risada maligna.<\/p>\n<p>Apavorado, Juca viu cada alma na sua frente chegar junto ao diab\u00e3o. Este falava algo inaud\u00edvel, recebia uma resposta em voz sumida, soltava uma gargalhada demon\u00edaca e dava um pontap\u00e9 na bunda da pobrezinha, lan\u00e7ando-a nas profundas do inferno.<\/p>\n<p>Afinal, chegou a vez de Juca. O diab\u00e3o olhou-o, abriu um sorriso maligno e mandou bala.<\/p>\n<p>&#8211; Panderoleta!<\/p>\n<p>&#8211; Pandepi! \u2013 respondeu Juca de bate pronto.<\/p>\n<p>O dem\u00f4nio o mirou, incr\u00e9dulo. Em seguida, soltou um uivo de raiva e explodiu:<\/p>\n<p>&#8211; Talquei, fideuma\u00e9gua. Vai usar camisolinha na casa do chap\u00e9u!!!<\/p>\n<p>(Mentira minha, o coisa ruim falou uma porrada de palavr\u00f5es cabeludos, mas sou um escritor de bons costumes, parafraseei pra n\u00e3o ferir sensibilidades e ouvidos delicados.)<\/p>\n<p>Depois da chuva de improp\u00e9rios, o malvadeza deu-lhe um pontap\u00e9 na bunda que o lan\u00e7ou para cima. Enquanto ascendia para conhecer Papai do C\u00e9u, o rabo doendo adoidado devido ao chute, Juca teve tempo de agradecer fervorosamente a santa Mariinha, santa Lucinha e santa irm\u00e3-mais-nova, cuja algaravia o havia livrado das chamas eternas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Juca era apaixonado por palavras. Amava algumas pela musicalidade, \u201cenleio\u201d \u00e9 um bom exemplo, outras pela expressividade, tipo \u201cadoidado\u201d e a esmagadora maioria das g\u00edrias, fruto da criatividade an\u00f4nima tupiniquim. Mas o que mais curtia era acompanhar a brasileiriza\u00e7\u00e3o de termos estrangeiros, que chegavam agasalhadinhos de pa\u00edses frios e logo, logo estavam na praia, de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":353175,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-353174","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/353174","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=353174"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/353174\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":353176,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/353174\/revisions\/353176"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/353175"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=353174"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=353174"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=353174"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}