{"id":353412,"date":"2025-05-06T02:14:57","date_gmt":"2025-05-06T05:14:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353412"},"modified":"2025-05-05T23:16:20","modified_gmt":"2025-05-06T02:16:20","slug":"um-amor-do-lado-de-ca-do-mar-que-fez-esquecer-a-saudosa-salamanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-amor-do-lado-de-ca-do-mar-que-fez-esquecer-a-saudosa-salamanca\/","title":{"rendered":"Um amor do lado de c\u00e1 do mar, que fez esquecer a saudosa Salamanca"},"content":{"rendered":"<p>Deitado na rede. Caipirinha na m\u00e3o. Miguel olha o horizonte interrompido pelas ilhas Cagarras.<\/p>\n<p>Do alto do morro, tem a vista privilegiada do mar do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Agora, com a cor de nuvens cobrindo a cabe\u00e7a. Precisa de \u00f3culos e suas m\u00e3os tremem. Miguel n\u00e3o consegue mais segurar seu violino. Motivo de sua vinda para o Brasil. Todavia, Concei\u00e7\u00e3o o mant\u00e9m afixado \u00e0 parede na entrada da Pousada.<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria de amor que mudou a vida de duas pessoas com ra\u00edzes distantes e diferentes.<\/p>\n<p>Miguel tecla lentamente. Sente dificuldade em digitar mais uma letra de m\u00fasica na tentativa de concorrer para a pr\u00f3xima sele\u00e7\u00e3o de samba para a escola.<\/p>\n<p>Um gringo, sambista, j\u00e1 foi piada no inicio, mas sua persist\u00eancia acabou por convencer seus parceiros letristas de que levava a s\u00e9rio sua inten\u00e7\u00e3o. Mesmo que nunca tenha sido vitorioso.<\/p>\n<p>Afinal, \u00e9 dif\u00edcil dobrar a raiz.<\/p>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o se aproxima e senta ao seu lado. Avisa que a jornalista j\u00e1 chegou para a entrevista.<\/p>\n<p>&#8211; Prazer sou Amanda. Jornalista da Revista Fato &amp; Critica. Obrigada por me receber.<\/p>\n<p>&#8211; Bem vida, Amanda. Sente-se. Eu \u00e9 que agrade\u00e7o poder contar a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o se achega mais a Miguel. Eles ainda t\u00eam o h\u00e1bito de sentarem pr\u00f3ximos de m\u00e3os dadas.<\/p>\n<p>&#8211; Podemos come\u00e7ar?<\/p>\n<p>&#8211; Claro. O que voc\u00ea quer saber?<\/p>\n<p>-Tudo. Contem-me tudo desde o come\u00e7o.<\/p>\n<p>Meu nome \u00e9 Miguel Romero Garcia. sou espanhol do norte. Salamanca. Minha fam\u00edlia sempre se dedicou \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica. Meu pai maestro, minha m\u00e3e pianista e eu \u2013 filho \u00fanico estudava para ser regente.<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe interromper, mas maestro e regente n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Muita gente n\u00e3o sabe, mas regente \u00e9 o profissional com educa\u00e7\u00e3o formal que comanda uma orquestra ou coro. Respons\u00e1vel por dirigir grupos musicais. Sua interpreta\u00e7\u00e3o depende da leitura de partitura e do entendimento que tem da pe\u00e7a escrita. Geralmente usa a batuta para sinalizar tempo e a intensidade. Todavia tamb\u00e9m pode reger com as m\u00e3os. Seu objetivo \u00e9 organizar o ritmo e a expressividade da m\u00fasica. Atua como elo entre o compositor e os instrumentistas. J\u00e1 o maestro \u00e9 um t\u00edtulo que significa mestre. N\u00e3o precisa saber ler partituras ou ter a educa\u00e7\u00e3o formal Mas o trabalho de ambos se assemelha.<\/p>\n<p>&#8211; Nossa! Nunca tinha pensado nisso.<\/p>\n<p>&#8211; Continuando&#8230;<br \/>\n.<br \/>\nMeus pais n\u00e3o concordavam com um namoro que eu tinha na \u00e9poca e resolveram me presentear com um contrato de trabalho no Brasil.<\/p>\n<p>Especificamente na cidade do Rio de Janeiro. Todos falavam maravilhas da cidade, do povo, do clima. E achavam que nesse per\u00edodo eu esqueceria a namorada indesejada.<\/p>\n<p>&#8211; Seria&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ah! N\u00e3o. Eles n\u00e3o gostavam de Maria porque n\u00e3o demonstrava nenhuma afinidade com a m\u00fasica, das vezes que tentou impressionar foi um desastre e por mais que se esfor\u00e7asse seu talento era ser exuberante e sabe&#8230; Mam\u00e3e detestava. \u00d3bvio que meus olhos ficavam vidrados diante de tanta beleza.<\/p>\n<p>&#8220;Bem. O fato \u00e9 que dois meses depois desembarquei no Rio de Janeiro. Fui recebido por Marco Aur\u00e9lio, um violoncelista da orquestra sinf\u00f4nica do Teatro Municipal. Foi uma excelente acolhida. No princ\u00edpio pensei que faria parte da orquestra, o que foi descartado. .Fui apresentado a um grupo de fomento cultural para que desenvolvesse projetos sociais com jovens de comunidades. Iniciando-os nos cl\u00e1ssicos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Fiquei surpreso. Marco me levou para a empresa contratante onde assinei o compromisso de trabalho pelo per\u00edodo de tr\u00eas anos (achei muito tempo, contudo, n\u00e3o era momento de discutir). Tamb\u00e9m recebi as chaves do apartamento, orienta\u00e7\u00f5es sobre comportamentos e plano de trabalho: hor\u00e1rios, locais e contatos. O apartamento ficava em Copacabana- uma rua barulhenta durante o dia, como uma metr\u00f3pole, mas, principalmente \u00e0 noite. Eu n\u00e3o estava acostumado e passei a usar protetores de ru\u00eddo a fim de poupar meus ouvidos afinados.<\/p>\n<p>&#8220;Algumas vezes foi engra\u00e7ado. Eu esquecia de tirar os protetores e as pessoas pensavam que eu fosse surdo. E, ao saber o que iria enfrentar jovens&#8230; achei melhor poupar-me. Meu primeiro dia foi um desastre. Fiquei chocado com as condi\u00e7\u00f5es de vida daqueles adolescentes, suas vestes desprovidas de tudo, principalmente, sapatos. Percebi que os instrumentos eram cedidos; alguns em estado deplor\u00e1vel. Como tirar m\u00fasicas de cordas inadequadas. Mas por outro lado, as alegrias que<br \/>\ndemonstravam o interesse em aprender, despertaram em mim um sentimento incr\u00edvel de persist\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8211; Conversei com meus novos contratantes e obtive sucesso na aquisi\u00e7\u00e3o de violinos, violoncelo, piano, e tudo mais para compor a nossa orquestra. Passamos dias aprendendo a afina\u00e7\u00e3o e a perceber a necessidade de ser s\u00f3 uma voz a se derramar em outras-harmonia. Foi um per\u00edodo de rica experi\u00eancia para mim. Com eles aprendi mais do que toda a vida na escola de m\u00fasica que pertenci.<\/p>\n<p>&#8220;Certa vez, ao chegar fui surpreendido. A orquestra estava com nova participa\u00e7\u00e3o. Era meu anivers\u00e1rio e eles prepararam uma m\u00fasica cl\u00e1ssica ao ritmo da musica raiz &#8211; o samba. Em princ\u00edpio fiquei chocado. Meus ouvidos gritaram, mas aos poucos fui absorvendo o batuque, o pandeiro, o reco-reco e um bandolim que me encantaram. Descobri um novo caminho.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Ainda me deslumbrei com a presen\u00e7a de uma passista quase despida de roupas num corpo exuberante; interpretava a dan\u00e7a sobre sapatos t\u00e3o altos que n\u00e3o sei como conseguia se equilibrar. Era a minha Concei\u00e7\u00e3o. Daquele dia em diante, mudei totalmente a minha vis\u00e3o do mundo musical. Trabalhei dias em partituras com composi\u00e7\u00f5es e adequa\u00e7\u00f5es ao ritmo do samba. O resultado foi incr\u00edvel!<\/p>\n<p>&#8220;A partir daquele momento eu queria me aprofundar naquela comunidade e a Concei\u00e7\u00e3o me apresentou a grupos de sambistas que praticavam rodas de samba regada a cerveja que come\u00e7ava ao entardecer e sem hora de acabar. Passei a viver mais tempo no morro do que no apartamento. Durante as rodas de samba analisei e, conheci todos os instrumentos usados numa escola de samba cuja gloria se revelava no per\u00edodo de carnaval. Parei de escrever para os meus pais. N\u00e3o entenderiam a minha transforma\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Comecei a perceber que Concei\u00e7\u00e3o se interessava por mim, e obvio que eu era vidrado nela. Passamos a ter um romance. E digo &#8211; essa cabrocha me enlouqueceu.<\/p>\n<p>&#8220;Foram tr\u00eas anos de intensa rela\u00e7\u00e3o. Quanto mais nos conhec\u00edamos mais apaixonados fic\u00e1vamos. E o que mais me impressionava era a aceita\u00e7\u00e3o do absorver sua riqueza cultural, pessoal. Nunca percebi um olhar ou desconfian\u00e7a por ser gringo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; O tempo passou r\u00e1pido e meu contrato se esgotava. Comecei a ficar aflito. Reiniciei uma negocia\u00e7\u00e3o para ampliar minha perman\u00eancia. Consegui mais um ano. E vivi aqueles doze meses como se fossem os \u00faltimos de minha vida. Nesse tempo, eu j\u00e1 me mudara para o morro. Ficar perto da fam\u00edlia e amigos da Concei\u00e7\u00e3o que eram meus, agora.<\/p>\n<p>&#8220;As tardes sempre a roda de samba. Despertou-me a vontade de ser letrista. O que precisava era de ajuda para corrigir meus erros de portugu\u00eas. Mas meus compromissos na Espanha exigiam meu retorno. E foi assim, que numa noite de samba aventurei uma composi\u00e7\u00e3o que pedia a Concei\u00e7\u00e3o que fosse embora comigo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A cerveja rolou, churrasquinho na brasa, e bandolim chorava de alegria. Tudo parecia dando certo. O coro afinad\u00edssimo cantava &#8216;Viver e n\u00e3o ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz&#8217;. N\u00e3o acreditava que as garrafas de cerveja que lotavam a mesa n\u00e3o faziam efeito naquelas vozes do samba de Gonzaguinha.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Mal o samba dava sinal de acabar, j\u00e1 outra voz se erguia e cantava: \u201cEu nasci com o samba, no samba me criei, e do danado do samba, nunca me separei\u201d. Eita! Dorival Caymmi. Sambista das antigas. Uma noite que jamais esqueceria.<\/p>\n<p>&#8220;No dia seguinte, tudo pronto para o embarque, de ressaca da despedi. Esperei Concei\u00e7\u00e3o, mas ela n\u00e3o foi. Entrei no avi\u00e3o escondendo as l\u00e1grimas e, cantarolando baixinho \u201cVoc\u00ea era a mais bonita das cabrochas dessa ala&#8230; Voc\u00ea era a favorita onde eu era mestre-sala. hoje a gente nem se fala, mas a festa continua. Suas noites s\u00e3o de gala, nosso samba ainda \u00e9 na rua. Hoje o samba saiu l\u00e1 l\u00e1 laia, procurando voc\u00ea. Quem te viu, quem te v\u00ea. Quem n\u00e3o a conhece n\u00e3o pode mais ver pra crer. Quem jamais esquece n\u00e3o pode reconhecer\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Ao chegar em Salamanca fui recebido pelos velhos amigos. A diferen\u00e7a de acolhimento era gritante. Todos alegres, polidos e j\u00e1 com planos e agendas comprometidas. Foram tr\u00eas meses de tristeza no cumprimento dos contratos. A cada vez que regia uma orquestra, sentia que faltava um tempero.<\/p>\n<p>&#8220;A plateia acostumada ao cl\u00e1ssico reagiu quando em um momento ousei um batuque numa sequencia de nota. Percebi que a alguns agradou, mas os conservadores detestaram. Foi quando tomei a decis\u00e3o de abandonar tudo. E voltar ao Brasil. Voltei. Em segredo, subi o morro. Justamente na hora da roda de samba. E qual n\u00e3o foi a surpresa e a alegria ao ser recebido. Essa gente tem um dom que n\u00e3o encontrei em nenhum outro lugar.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Na mesa um bilhete me foi entregue com a letra de Paulinho da Viola \u2013 \u201cMeu cora\u00e7\u00e3o tem mania de amor, amor n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de achar\u201d. Pensei que tinham lido meu cora\u00e7\u00e3o; todavia, as garrafas continuaram a encher a mesa e o samba \u201crolava\u201d. \u201cFoi um Rio que passou em minha vida, e meu cora\u00e7\u00e3o se deixou levar&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>&#8220;Eu podia jurar que a sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas era encomendada para a minha volta. E sabe como \u00e9 no Morro, nada fica escondido. N\u00e3o demorou muito Concei\u00e7\u00e3o foi avisada, e correndo para a laje atirou-se nos meus bra\u00e7os. sem nenhum pudor. E foi assim que n\u00f3s nos reencontramos. Constru\u00edmos essa pousada onde acolhemos quem quer viver o samba.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deitado na rede. Caipirinha na m\u00e3o. Miguel olha o horizonte interrompido pelas ilhas Cagarras. Do alto do morro, tem a vista privilegiada do mar do Rio de Janeiro. Agora, com a cor de nuvens cobrindo a cabe\u00e7a. Precisa de \u00f3culos e suas m\u00e3os tremem. 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