{"id":353423,"date":"2025-05-06T02:46:48","date_gmt":"2025-05-06T05:46:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353423"},"modified":"2025-05-05T23:49:38","modified_gmt":"2025-05-06T02:49:38","slug":"macho-e-macho-toda-hora-ate-com-as-calcas-borradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/macho-e-macho-toda-hora-ate-com-as-calcas-borradas\/","title":{"rendered":"Macho \u00e9 macho toda hora, at\u00e9 com as cal\u00e7as borradas"},"content":{"rendered":"<p>Natanael era um sujeito nervoso. N\u00e3o nervosinho, de dar chilique; nervoso, ansioso pra ded\u00e9u. Ficava tenso em situa\u00e7\u00f5es corriqueiras, do tipo \u201cser\u00e1 que vai chover? N\u00e3o tem uma nuvem no c\u00e9u, mas nunca se sabe&#8230;\u201d Quando tinha um jogo do seu Flamengo contra um rival poderoso, ent\u00e3o, chegava a suar frio.<\/p>\n<p>Ele fora assim a vida inteira. Quando pediu sua futura esposa em namoro, gaguejava, n\u00e3o sabia onde enfiar as m\u00e3os de tanto nervosismo, quase se borrou nas cal\u00e7as. A coisa perigava dar chabu, desandar, at\u00e9 que ela salvou a situa\u00e7\u00e3o, beijando-o nos l\u00e1bios. Na empresa onde trabalhou a vida inteira, quando se atrevia a pedir uma promo\u00e7\u00e3o, a mesma ansiedade, o mesmo sofrimento, imaginando rejei\u00e7\u00f5es cru\u00e9is, zombarias e demiss\u00f5es, at\u00e9 o chefe responder, com um sorriso:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, claro, \u00e9 mais do que justo. Voc\u00ea merece, Natanael.<\/p>\n<p>Para dominar os nervos, ele recorria a pastilhas vendidas sem receita em farm\u00e1cias e a poderosas mezinhas feitas por suas tias, descritas como tiro e queda contra a ansiedade. Nada funcionava, ele era nervoso e ponto.<\/p>\n<p>Natanael teve algum consolo quando estava lendo o monumental romance Em busca do tempo perdido, do franc\u00eas Marcel Proust. A p\u00e1ginas tantas do volume 3, O caminho de Guermantes, deparou-se com estas palavras, que um m\u00e9dico dirige \u00e0 av\u00f3 enferma do romancista:<\/p>\n<p>&#8211; Suporte que a considerem uma nervosa. A senhora pertence a essa fam\u00edlia magn\u00edfica e lament\u00e1vel que \u00e9 o sal da terra. Tudo o que conhecemos de grande nos vem dos nervosos. Foram eles e n\u00e3o outros que fundaram as religi\u00f5es e compuseram as obras-primas.<\/p>\n<p>Natanael sentiu um certo al\u00edvio ao saber-se um membro ilustre dessa fam\u00edlia magn\u00edfica, no dizer do personagem de Proust, mas a sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar logo desapareceu, Afinal, n\u00e3o pretendia criar religi\u00e3o alguma (era ateu, dizia-se agn\u00f3stico para n\u00e3o escandalizar em demasia os tementes a Deus) e n\u00e3o tinha um pingo de criatividade para escrever, pintar ou compor algo aceit\u00e1vel, quanto mais uma obra-prima.<\/p>\n<p>Certo dia, recordou um trecho de um fox-trot lan\u00e7ado em 1954 pelo grupo Os Cariocas: \u201cMas que nervoso estou\/Sou neurast\u00eanico\/Preciso me tratar\/Sen\u00e3o, eu vou pra Jacarepagu\u00e1\u201d. Aquilo o convenceu, decidiu buscar tratamento m\u00e9dico.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o n\u00e3o veio por considerar que o talento liter\u00e1rio e musical de Netinho e Nazareno de Brito, compositores do fox-trot, se equiparava ao de Marcel Proust; e nem pelo temor de ser levado para a Col\u00f4nia de Alienados Juliano Moreira, em Jacarepagu\u00e1, inaugurada nos anos 1920 e que, com o tempo, trocou a interna\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria e a brutalidade nos cuidados aos residentes pela desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o dos pacientes psiqui\u00e1tricos, dentro das concep\u00e7\u00f5es do movimento antimanicomial. O que aconteceu foi que, com a idade, o nervosismo assumiu outras manifesta\u00e7\u00f5es f\u00edsicas al\u00e9m do gaguejar, do torcer as m\u00e3os e do suar frio.<\/p>\n<p>Certo dia, depois de uma vit\u00f3ria sofrida do Meng\u00e3o em um Fla-Flu, Natanael, ao despir-se para tomar banho, percebeu uma mancha escura e malcheirosa na cueca que usava. S\u00f3 de pensar que perigava fazer nas cal\u00e7as, em plena rua, borrou-se ali mesmo, no banheiro. Foi a gota d\u2019\u00e1gua (n\u00e3o, nem gota, nem de \u00e1gua, mas voc\u00eas compreenderam). Depois do banho, enxugou o corpo, vestiu-se e pesquisou o endere\u00e7o do consult\u00f3rio de um especialista no tratamento dos nervos.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico prescreveu-lhe um tratamento heterodoxo, que mesclava os velhos e maus choques el\u00e9tricos a muita medita\u00e7\u00e3o, exerc\u00edcios f\u00edsicos e mudan\u00e7as radicais na dieta, al\u00e9m de ansiol\u00edticos. Natanael seguiu-o \u00e0 risca. E a vida seguiu.<\/p>\n<p>Meses depois, um amigo o viu junto a um muro, do outro lado da rua, fumando, distra\u00eddo. Ia atravessar para cumpriment\u00e1-lo, quando dois autom\u00f3veis colidiram a poucos metros. Acidente pavoroso, com v\u00e1rios feridos graves. O amigo levou um baita susto, mas Natanael nem tchuns, continuou junto ao muro, fumando, com a mesma express\u00e3o na fisionomia.<\/p>\n<p>O amigo aproximou-se dele.<\/p>\n<p>&#8211; Natanael, que bom que seu tratamento pros nervos funcionou. Dei um pulo e quase morri do cora\u00e7\u00e3o ao ver o acidente, mas voc\u00ea continuou onde estava, tranquil\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Natanael sorriu e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 amigo, funcionou sim. Mudei, estou melhor, bem tranquilo&#8230;<\/p>\n<p>Interrompeu-se e apontou para uma grande mancha escura, que crescia, reveladora, no fundo de suas cal\u00e7as:<\/p>\n<p>&#8211; &#8230; mas todo borrado!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natanael era um sujeito nervoso. N\u00e3o nervosinho, de dar chilique; nervoso, ansioso pra ded\u00e9u. Ficava tenso em situa\u00e7\u00f5es corriqueiras, do tipo \u201cser\u00e1 que vai chover? 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