{"id":353666,"date":"2025-05-11T02:40:38","date_gmt":"2025-05-11T05:40:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353666"},"modified":"2025-05-10T18:41:39","modified_gmt":"2025-05-10T21:41:39","slug":"joao-do-rio-cronista-celebre-tem-seu-lado-b","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/joao-do-rio-cronista-celebre-tem-seu-lado-b\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o do Rio, cronista c\u00e9lebre, tem seu Lado B"},"content":{"rendered":"<p>Em chamada de v\u00eddeo com o Edu Mart\u00ednez, nosso editor-executivo, ele me dizia que uma das autoras retratadas aqui na coluna havia feito uma pequena reclama\u00e7\u00e3o. Eu escrevi, em seu perfil, uma frase que ela considerou \u201c\u00e1cida\u201d.<\/p>\n<p>Defendi-me com meu amigo e lembrei que o Daniel Marchi, nosso am\u00e1vel poeta, j\u00e1 dissera que eu pegava leve demais no Lado B. Ora, se o B \u00e9 de \u201cbrando\u201d, a culpa n\u00e3o \u00e9 minha, mas de nossos homenageados. Sim, porque o autor ou autora que aparece no Lado B da Literatura \u00e9, em realidade, um laureado, pois, expondo o lado mais humano deles, procuro aproximar o p\u00fablico fiel de seus autores preferidos.<\/p>\n<p>Os escritores que povoam as p\u00e1ginas de <strong>Notibras<\/strong> t\u00eam a vida muito limpa. Eu bem queria ir mais fundo, achar-lhes, no \u00e2mago, o bas-fond, aquilo que eles nunca contaram em lugar nenhum. Sem lhes faltar com o respeito, \u00e9 \u00f3bvio.<\/p>\n<p>S\u00f3 que s\u00e3o todos gente boa demais, uma gente escorreita. Quantos mais conhe\u00e7o, mais fico f\u00e3. E, sendo f\u00e3, olho para eles como se fossem monumentos sagrados da literatura nacional \u2013 dif\u00edcil colocar uma vaca sagrada das letras em cheque, contra a parede, dizer-lhe aquelas do fim.<\/p>\n<p>Por isso, resolvi tirar uma folga dos escritores vivos e me voltar um pouco para aqueles que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o entre n\u00f3s, exceto pela for\u00e7a de seus escritos.<\/p>\n<p>O homenageado da vez \u00e9 Jo\u00e3o do Rio.<\/p>\n<p>Nascido Jo\u00e3o Paulo Alberto Coelho Barreto, no Rio de Janeiro, ent\u00e3o munic\u00edpio neutro da corte, em 5 de agosto de 1881, Jo\u00e3o do Rio, pseud\u00f4nimo que o consagrou, foi o primeiro grande cronista da cidade que ainda n\u00e3o era chamada de maravilhosa. Al\u00e9m disso, desenvolveu atividade jornal\u00edstica, de tradu\u00e7\u00e3o, escreveu romance e teatro.<\/p>\n<p>Filho de um professor do Col\u00e9gio Pedro II, come\u00e7ou no jornalismo ainda com 17 anos, celebrizando-se, no limiar do s\u00e9culo 20, com uma s\u00e9rie de reportagens-cr\u00f4nicas que fez para a Gazeta de Not\u00edcias sobre \u201cAs religi\u00f5es do Rio\u201d, compiladas em livro em 1904.<\/p>\n<p>Fico aqui pensando se a cr\u00f4nica da vida social que ele fazia teria lugar no jornalismo de hoje, e creio que, infelizmente, a resposta \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>O texto dele, nos dias atuais, precisaria ser mais f\u00e1cil, mais palat\u00e1vel para o p\u00fablico em geral, e n\u00e3o descambar para o puramente liter\u00e1rio, como acontecia demais. Uma linguagem meio empolada, que n\u00e3o \u00e9 mais apreciada, embora ainda tenha seus cultores.<\/p>\n<p>O s\u00e9culo 21 exige que os escritores cheguem mais direto ao ponto.<\/p>\n<p>Enquanto escrevo, tenho aqui em m\u00e3os, retirado de uma parte pouco utilizada da minha estante, um volume chamado \u201cRio de Janeiro em Prosa e Verso\u201d, compilado por ningu\u00e9m menos que Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, por ocasi\u00e3o do 4.\u00ba Centen\u00e1rio do Rio, em 1965. \u00c9 uma colet\u00e2nea interessant\u00edssima, com textos escritos entre os s\u00e9culos 16 e 20 sobre a cidade-mar-montanha-c\u00e9u-azul que \u00e9 o purgat\u00f3rio da beleza e do caos. Jo\u00e3o do Rio, por \u00f3bvio, n\u00e3o poderia faltar. Tenho, tamb\u00e9m, a c\u00e9lebre antologia de nosso retratado feita por Luis Martins, que lhe traz uma curta, mas detalhada biografia.<\/p>\n<p>Mergulhar nos par\u00e1grafos de Jo\u00e3o do Rio \u00e9 participar da realidade de uma cidade \u2013 e um mundo \u2013 que n\u00e3o existem mais. Fascinante e, ao mesmo tempo, assustador, como as barreiras sociais de ent\u00e3o se mostram t\u00e3o demarcadas, sem poupar os integrantes das camadas mais populares de preconceitos e estigmas. No entanto, se compararmos os textos de Jo\u00e3o do Rio aos seus contempor\u00e2neos, podemos ver que ele n\u00e3o exagerava nesses tra\u00e7os da sociedade urbana daquele tempo.<\/p>\n<p>Melhor podemos ver o que afirmo acima nos textos \u201cVelhos Cocheiros\u201d e \u201cOs Livres Acampamentos da Mis\u00e9ria\u201d.<\/p>\n<p>Na fic\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o do Rio escreveu textos memor\u00e1veis. O melhor deles, na opini\u00e3o de muitos, da qual partilho, \u00e9 \u201cO beb\u00ea de tarlatana rosa\u201d. Que hist\u00f3ria l\u00edrica e, ao mesmo tempo, cruel! Ser\u00e1 pura imagina\u00e7\u00e3o, ou alguma foli\u00e3 de carnaval pode ser encontrada naquela situa\u00e7\u00e3o exasperante? Mais n\u00e3o digo para n\u00e3o estragar a surpresa dos que forem ler o conto pela primeira vez. Foi considerado um dos melhores contos brasileiros de todos os tempos.<\/p>\n<p>Perceba, leitor, que acabo por me levar pela admira\u00e7\u00e3o que tenho pelo autor Jo\u00e3o do Rio \u2013 igualmente \u00e0 que nutro por qualquer escritor de boa literatura \u2013 e amenizo-lhe o perfil. Onde est\u00e1 o lado B do homem, voc\u00ea poder\u00e1 me perguntar.<\/p>\n<p>Pois bem, aqui afirmo que, se como autor, Jo\u00e3o do Rio pagou pela novidade que representava, como pessoa humana tamb\u00e9m foi controverso.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma unanimidade nos c\u00edrculos sociais pelos quais andava. Por alguns, foi considerado grosseiro e inconveniente. Relata-nos Luis Martins o que Ant\u00f4nio Torres disse sobre ele: \u201cfoi uma das criaturas mais vis, um dos caracteres mais baixos, uma das larvas mais nojentas que eu tenho conhecido\u201d. Ribeiro Couto classificava-o como um \u201csenhor quase desagrad\u00e1vel\u201d.<\/p>\n<p>Mas, continua Martins, teve admiradores e amigos fi\u00e9is, dentre os quais o grande Gilberto Amado, que viria a ser o reconhecido diplomata brasileiro, cujas \u201cafeta\u00e7\u00f5es e pacholices, t\u00e3o naturais em Jo\u00e3o do Rio\u201d, faziam sorrir, n\u00e3o passando de \u201chistrionices de artista que se exibe para receber aplausos\u201d, resultantes de sua \u201cgenuinidade e da sua ingenuidade, inapto para compreender a maldade humana\u201d, que o surpreendia como um fen\u00f4meno absurdo.<\/p>\n<p>Concluo que, tivesse detratores ou amigos fi\u00e9is, muitos foram eclipsados pela fama perene de Jo\u00e3o do Rio, que continua por a\u00ed, vivo, nos meios mais suspeitos e menos can\u00f4nicos da sociedade carioca, parecendo que em qualquer esticada bo\u00eamia ou passeio noturno iremos encontr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Afinal, Jo\u00e3o do Rio segue, e permanece como representante de uma ra\u00e7a quase extinta de rep\u00f3rteres e cronistas.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 81, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em chamada de v\u00eddeo com o Edu Mart\u00ednez, nosso editor-executivo, ele me dizia que uma das autoras retratadas aqui na coluna havia feito uma pequena reclama\u00e7\u00e3o. Eu escrevi, em seu perfil, uma frase que ela considerou \u201c\u00e1cida\u201d. 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