{"id":353673,"date":"2025-05-11T02:35:10","date_gmt":"2025-05-11T05:35:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353673"},"modified":"2025-05-10T19:30:13","modified_gmt":"2025-05-10T22:30:13","slug":"nostalgia-sugere-que-o-amor-esta-ali-na-esquina-a-nossa-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nostalgia-sugere-que-o-amor-esta-ali-na-esquina-a-nossa-espera\/","title":{"rendered":"Nostalgia sugere que o amor est\u00e1 ali na esquina, \u00e0 nossa espera"},"content":{"rendered":"<p>(<em>O amor ali na foto&#8230;<\/em>)<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>Madrugada quente. A Ilha est\u00e1 um panel\u00e3o dos infernos. Sem a m\u00ednima possibilidade de encontrar o sono, remexo o velho \u00e1lbum de fotografias. Nele encontro antigas fotografias amareladas pelo tempo. L\u00e1 est\u00e3o M\u00e1rio\/Motinha e Nair\/Nha&#8217;Fia. As fotos foram tiradas nos anos 40, na cidade de S\u00e3o Paulo. Era o tempo do r\u00e1dio. Da r\u00e1dio Bandeirantes, PRK 9, a mais importante e famosa emissora paulista daquela \u00e9poca. Em sua maioria, s\u00e3o registros de situa\u00e7\u00f5es reais vividas nas sess\u00f5es do programa de audit\u00f3rio criado pela dupla: Na serra da Mantiqueira. Ali encontro uma transversal do tempo aprisionada pela lente da m\u00e1quina, pelo filme e pelo olhar atento e sens\u00edvel de um fot\u00f3grafo an\u00f4nimo de quem n\u00e3o tenho refer\u00eancias nem registro. Lamento, por um instante, o fato de sermos t\u00e3o displicentes para com a hist\u00f3ria. As leituras recentes de Tark\u00f3vski parecem mexer comigo em forma e conte\u00fado muito al\u00e9m do que suponho. &#8220;Quem volta ao passado quer ver o tempo&#8221;.<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e3o, ao lado de nossos pais ainda bem jovens, parentes\/artistas conhecidos (Tio Bigu\u00e1, Cascatinha e Nhana, Capit\u00e3o Furtado, Laureano, Jo\u00e3o Pac\u00edfico e outros tantos) e pessoas an\u00f4nimas do cast da r\u00e1dio. H\u00e1 tamb\u00e9m flagrantes do audit\u00f3rio sempre cheio de gente. E o incr\u00edvel \u00e9 que o programa era ao vivo e -pasmem!- \u00e0s cinco horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Deixo-me levar pela nostalgia de um tempo que n\u00e3o vivi, mas que percebi suas pistas atrav\u00e9s das narrativas de nossos pais. Percebo que aprendi -e apreendi- algumas coisas delicadas e fundamentais para um ser vivente. Por exemplo, que o fato de a fotografia lidar necessariamente com o real faz com que seja tratada como algo sem import\u00e2ncia, como se n\u00e3o decorresse de uma ordena\u00e7\u00e3o de linguagem, como sendo um simples registro viabilizado por processos tecnol\u00f3gicos que permitem o aprisionamento do tempo, nada mais. Mas onde ficar\u00e3o outros potenciais de indaga\u00e7\u00e3o ou de surpresa? Se estivermos lidando com o real roubado ao tempo, o que vivencio nesta madrugada mormacenta \u00e9 uma sucess\u00e3o de magias e de mist\u00e9rios, fragmentos de um verdadeiro exerc\u00edcio de esculpir o tempo.<\/p>\n<p>Viro mais uma p\u00e1gina e l\u00e1 est\u00e3o eles. Motinha e Nha&#8217; Fia em plena a\u00e7\u00e3o. No amplo palco, junto ao enorme microfone de pedestal, a dupla se olha com cumplicidade e a fotografia tem um certo movimento, como se dan\u00e7asse junto com os artistas. N\u00e3o sei o que est\u00e3o cantando -nunca perguntei a eles e creio que mesmo eles n\u00e3o saberiam dizer exatamente detalhes assim. O que depreendo \u00e9 o clima de intensa integra\u00e7\u00e3o, de celebra\u00e7\u00e3o, de alegria. Penso em Dion\u00edsio e suas andan\u00e7as vagando pelas cidades, levando a orgia\/festa e a loucura\/del\u00edrio aos quatro cantos do mundo. Pois \u00e9 assim que conheci essa dupla &#8220;do barulho&#8221;; talvez, muito antes de perceb\u00ea-los como meus pais.<\/p>\n<p>Para mim eles sempre foram tantos, muitos, infinitos. No circo-teatro, a cada noite, eles poderiam surgir no palco como her\u00f3is, vil\u00e3os, bruxas, palha\u00e7os, b\u00eabados, reis, ot\u00e1rios, Jesus Cristo, Judas, prefeito, senhor de engenho, negro de senzala, mocinha ing\u00eanua das pe\u00e7as de amor ou nas tardes de domingo como lobo mau, ca\u00e7ador, chapeuzinho vermelho ou vovozinha. Mas os meus personagens preferidos sempre foram \u00fanicos: Motinha e Nha&#8217;Fia. Neles, eu sempre me reconheci.<\/p>\n<p>\u00c9 incr\u00edvel como a fotografia lida -o tempo todo- com o corriqueiro e o preexistente, comprometidos com a constante reinven\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os e com a constru\u00e7\u00e3o de uma po\u00e9tica do banal. Observo o \u00e1lbum e uma pequena foto esquecida no canto da p\u00e1gina me chama aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 incr\u00edvel, mas n\u00e3o me lembro de t\u00ea-la percebido antes. E olha que j\u00e1 folheei esse \u00e1lbum um milh\u00e3o de vezes. O movimento aprisionado na foto \u00e9 impressionante. Intenso.<\/p>\n<p>A fotografia \u00e9 de 1949 e foi tirada na cidade paulista de Mogi-Mirim, segundo o registro escrito com a letra de nossa m\u00e3e. O cen\u00e1rio \u00e9 uma rua da cidade tendo M\u00e1rio e Nair ao lado de um belo carro -talvez deles? N\u00e3o sei!- Homens de terno conversam na cal\u00e7ada enquanto um menino negro, de cal\u00e7as curtas, prepara-se para atravessar o campo de vis\u00e3o da c\u00e2mera.<\/p>\n<p>H\u00e1 um movimento incomum roubado nessa foto. M\u00e1rio veste um p\u00e1reo &#8211; palet\u00f3 diferente da cal\u00e7a e sem gravata &#8211; e traz pendurada no pesco\u00e7o uma enorme m\u00e1quina fotogr\u00e1fica. E faz pose de artista. Nair tem um len\u00e7o prendendo os cabelos loiros e cacheados, bem ao estilo das atrizes de Hollywood daquela \u00e9poca-, vestido estampado at\u00e9 abaixo dos joelhos, bolsa de viagem e um detalhe: carrega um barriguinha saliente, o que permite supor que nossa m\u00e3e estava gr\u00e1vida de nosso primeiro irm\u00e3o que n\u00e3o chegou a vingar. O fato \u00e9 que a foto aprisionou aquele momento de intensa felicidade. Est\u00e1 ali eternizado.<\/p>\n<p>Amanhecia quando decidi guardar o \u00e1lbum. Mas aquela fotografia -ou talvez a emo\u00e7\u00e3o que vivi pelo inesperado, pelo imponder\u00e1vel-, jamais deixar\u00e1 de fazer parte de mim. N\u00e3o sei dos detalhes da hist\u00f3ria. O que sei \u00e9 que assim como um dia eles se encontraram, se amaram e foram felizes para sempre, eu e o mano M\u00e1rio seguiremos pela vida cultivando a certeza de que o amor \u00e9 a \u00fanica forma de n\u00e3o enlouquecer. \u00c9 o anti-suic\u00eddio existencial, embora nos deixe sempre apaixonadamente malucos.<\/p>\n<p>Os dois ali, pai e m\u00e3e, juntos num tempo est\u00e1tico, petrificado pelo instante da foto; de um lugar improv\u00e1vel apontam para a necessidade cada vez mais fundamental de aceitarmos que, talvez, o amor e o verdadeiro sentido da vida podem estar ali na esquina, \u00e0 nossa espera!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(O amor ali na foto&#8230;) &#8230;&#8230;&#8230;.. Madrugada quente. A Ilha est\u00e1 um panel\u00e3o dos infernos. Sem a m\u00ednima possibilidade de encontrar o sono, remexo o velho \u00e1lbum de fotografias. Nele encontro antigas fotografias amareladas pelo tempo. 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