{"id":353838,"date":"2025-05-13T08:26:52","date_gmt":"2025-05-13T11:26:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=353838"},"modified":"2025-05-13T08:59:19","modified_gmt":"2025-05-13T11:59:19","slug":"a-corrida-do-centenario-e-o-paradoxo-da-caipirinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-corrida-do-centenario-e-o-paradoxo-da-caipirinha\/","title":{"rendered":"A Corrida do Centen\u00e1rio e o paradoxo da caipirinha"},"content":{"rendered":"<p>Ainda mantenho o saud\u00e1vel h\u00e1bito de correr\/caminhar, mas h\u00e1 alguns anos, tal atividade era uma parte mais do que central na minha vida cotidiana.<\/p>\n<p>Eu praticava o chamado &#8220;jogging&#8221; (denomina\u00e7\u00e3o inglesa adotada no Brasil nos anos 70 para sofisticar a corrida de rua) no m\u00ednimo tr\u00eas vezes por semana. Todos os meses eu tamb\u00e9m participava de pelo menos uma corrida de rua &#8211; dessas tipo &#8220;S\u00e3o Silvestre&#8221;, sem o glamour da mesma &#8211; e, sempre que poss\u00edvel, tamb\u00e9m curtia participar do internacional e tradicional\u00edssimo evento esportivo paulistano de fim de ano.<\/p>\n<p>Evidentemente, como todo corredor amador, as minhas ambi\u00e7\u00f5es no evento se limitavam a cruzar a linha de chegada, receber a medalha de participa\u00e7\u00e3o e, se poss\u00edvel, melhorar o tempo de corrida. Assim, preservava a sa\u00fade, mantinha a boa forma e ainda curtia a emo\u00e7\u00e3o do desafio.<\/p>\n<p>Quando comecei a praticar a atividade, tive a sorte de conhecer um casal j\u00e1 experiente na lide corrid\u00edstica: Beatriz e Beto. Eles j\u00e1 eram corredores &#8220;amadores-profissionais&#8221; h\u00e1 algum tempo e, a cada corrida que faz\u00edamos juntos, mais orienta\u00e7\u00f5es e dicas valiosas me passavam.<\/p>\n<p>Ambos s\u00e3o professores universit\u00e1rios da \u00e1rea de humanas e, em fun\u00e7\u00e3o dessa e de outras afinidades, ficamos amigos de frequentar a casa uns dos outros.<\/p>\n<p>Em algumas ocasi\u00f5es, antes do dia terminar, enfrent\u00e1vamos mini-maratonas com as pernas e, \u00e0 noite, complet\u00e1vamos maratonas inteiras com a mente, discutindo e dissecando quest\u00f5es pol\u00edticas-filos\u00f3ficas-liter\u00e1rias pautadas pela conjuntura do momento.<\/p>\n<p>Naquela semana, est\u00e1vamos nos preparando para a corrida &#8220;Desafio Mizuno\/10 milhas&#8221; que aconteceria no entorno do Parque Ibirapuera.<\/p>\n<p>Esse, para n\u00f3s, seria um evento ainda mais especial do que os outros, porque selaria a marca de cem corridas da Bia e do Beto e, por coincid\u00eancia, a metade disso para mim, ou seja, cinquenta conquistas no meu ainda modesto curr\u00edculo de corredor.<\/p>\n<p>Entrementes, o destino me colocou em uma sinuca de bico. No s\u00e1bado que antecedia o domingo da &#8220;corrida centen\u00e1ria&#8221;, estava marcada em minha agenda a comemora\u00e7\u00e3o do anivers\u00e1rio do Marcelo, meu chefe e amigo.<\/p>\n<p>Faltar, nem pensar!<\/p>\n<p>Mas eu tamb\u00e9m sabia que n\u00e3o poderia demorar muito tempo na festan\u00e7a, caso quisesse estar em condi\u00e7\u00f5es de enfrentar o desafio da Mizuno \u00e0s oito horas da manh\u00e3 do dia seguinte, juntamente com meus queridos amigos.<\/p>\n<p>Planejei chegar bem no in\u00edcio do n\u00edver, \u00e0s 22 horas, dar um abra\u00e7o no Marcelo, tomar uma coca-cola com gelo e lim\u00e3o, bater um r\u00e1pido papo com os amigos e, logo depois, cair fora \u00e0 francesa. Mas, quis o diabo que a estrela da festa fosse o meu ponto fraco: caipirinha de vodka, a melhor que eu j\u00e1 tinha tomado, em fun\u00e7\u00e3o da irresist\u00edvel insist\u00eancia do Marcelo. A\u00ed minha concentra\u00e7\u00e3o estoica estatelou-se no ch\u00e3o e n\u00e3o teve disciplina espartana que resistisse \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, bebi a primeira, a segunda, outra, depois mais uma&#8230; e, quando me dei conta, j\u00e1 em estado de semi-consci\u00eancia, eram duas horas da madrugada.<\/p>\n<p>Cheguei em casa de t\u00e1xi, lutando contra uma proverbial ressaca e um imenso complexo de culpa. Como perguntaria L\u00eanin &#8211; o que fazer agora?<\/p>\n<p>Dormir e depois tentar acordar na hora necess\u00e1ria? Tomar um caf\u00e9 e ficar acordado? Desistir da corrida? Sem muita convic\u00e7\u00e3o, optei por uma solu\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria pouco cient\u00edfica: tomar um caf\u00e9, colocar o despertador para as seis horas e apagar sentado no sof\u00e1. Havia combinado com Bia e Beto que eles passariam no meu pr\u00e9dio \u00e0s sete horas para me buscar.<\/p>\n<p>Lembro vagamente de calar o despertador quando ele tocou e, logo depois, ter voltado a dormir. Acordei novamente mais tarde com o toque do celular. Era Bia avisando que ela e Beto j\u00e1 estavam em frente ao pr\u00e9dio me aguardando.<\/p>\n<p>Falei para ela que n\u00e3o estava passando bem e que n\u00e3o poderia correr naquele dia. Com seu habitual tiroc\u00ednio mais que certeiro, Bia, que sabia da minha agenda na noite anterior, entendeu tudo. Ela disse &#8211; em tom que n\u00e3o admitia r\u00e9plica &#8211; que eles n\u00e3o iriam sem mim e que estavam subindo para me buscar.<\/p>\n<p>Contrariando heroicamente a minha vontade de voltar a dormir, consegui com imenso esfor\u00e7o vestir a indument\u00e1ria de corrida.<\/p>\n<p>Tomei mais um fort\u00edssimo caf\u00e9 e comi uma suculenta torrada, ambos preparados pela amiga. Ainda relutante, reuni for\u00e7as para acompanhar o casal at\u00e9 o carro. Lembro que o Beto mandou eu tomar uma bebida energ\u00e9tica de sua lavra, garantindo que isso iria me ressuscitar em minutos.<\/p>\n<p>Quando dei por mim, ainda meio zonzo, estava com o casal amigo na linha de largada da corrida. Eles falaram que era para eu ir devagar, que iriam ficar ao meu lado o tempo todo e que, mesmo que isso demorasse, cruzar\u00edamos os tr\u00eas juntos a linha de chegada.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se foi a auto indigna\u00e7\u00e3o com a besteira que fiz no anivers\u00e1rio do Marcelo, o medo de passar vergonha e dar vexame na frente dos amigos, a minha gen\u00e9tica &#8220;metade \u00edndia&#8221;, a for\u00e7a espiritual de Hermes (o mensageiro dos deuses) ou a infus\u00e3o-energ\u00e9tica do Beto, o fato \u00e9 que, dada a largada com a tradicional sirene soando majestosamente nos ouvidos da multid\u00e3o de corredores, senti uma inacredit\u00e1vel energia c\u00f3smica tomar conta de todo o meu ser. Parecia que os meus p\u00e9s tinham asas e que a dor de outras corridas, inerente ao esfor\u00e7o de mover as pernas cont\u00ednua e rapidamente, n\u00e3o passava de uma lembran\u00e7a distante.<\/p>\n<p>Surpresos, Bia e Beto tiveram que se desdobrar para acompanhar meu ritmo durante o trajeto. E n\u00e3o \u00e9 que alcan\u00e7amos a linha de chegada em tempo recorde em rela\u00e7\u00e3o a nossas marcas anteriores?!<\/p>\n<p>Terminada a aventura com aquele surpreendente final feliz, fomos merecidamente receber as medalhas de participa\u00e7\u00e3o no evento, recompensa reservada para quem conclui a prova em um determinado tempo m\u00e1ximo estipulado pela organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 com o precioso trof\u00e9u no pesco\u00e7o, nos entreolhamos um tanto incr\u00e9dulos e, para a curiosidade dos outros corredores que estavam em volta, come\u00e7amos a rir copiosamente ap\u00f3s Beto afirmar que o segredo do meu excepcional desempenho n\u00e3o devia ser o caf\u00e9 forte da Bia e nem o \u201credbull\u201d que ele me deu, mas sim a irresist\u00edvel caipirinha do Marcelo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda mantenho o saud\u00e1vel h\u00e1bito de correr\/caminhar, mas h\u00e1 alguns anos, tal atividade era uma parte mais do que central na minha vida cotidiana. 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