{"id":354054,"date":"2025-05-17T09:43:16","date_gmt":"2025-05-17T12:43:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354054"},"modified":"2025-05-17T09:48:03","modified_gmt":"2025-05-17T12:48:03","slug":"em-busca-do-sentido-para-alem-do-dialogo-niilista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/em-busca-do-sentido-para-alem-do-dialogo-niilista\/","title":{"rendered":"Em busca do sentido para al\u00e9m do di\u00e1logo niilista"},"content":{"rendered":"<p>Este pequeno texto sobreveio de uma necessidade de refletir sobre como o amor, para mim, tornou-se o farol que ilumina a estrada da minha vida. O amor pelas minhas av\u00f3s (in memoriam), pelos meus pais, marido, irm\u00e3os, filhos caninos, e a arte de lecionar me impulsionam neste desejo de viver. E voc\u00ea, j\u00e1 encontrou o sentido da sua vida? Ofere\u00e7o uma pequena reflex\u00e3o abaixo sobre o tema.<\/p>\n<p>J\u00e1 se deu conta de que a maior parte dos seres humanos usa o tempo de maneira larga e vazia? Vive como se, de fato, tivesse alguma certeza de que, pela ordem natural do universo, os seus (incluindo de terceiros) \u00f3bitos somente lhe suceder\u00e3o quando idosos? Tanto \u00e9 assim, que o homem aspira, a todo custo, como o objetivo principal do seu presente, acumular riqueza, com olhos habituados no futuro, a fim de desfrutar da sua exist\u00eancia quando n\u00e3o mais apresentar uma idade produtiva e sob o custo de deixar de viver uma vida que valer-se-ia por ela mesma. Ao mesmo tempo que, quando doentes, \u201cest\u00e3o preparados para gastar todos os seus bens para viver, tamanha \u00e9 a confus\u00e3o dos seus sentimentos.\u201d (S\u00caNECA, p. 44).<\/p>\n<p>Certo \u00e9 que a vida se bem empregada transcorrer\u00e1, desassociada do momento de sua cessa\u00e7\u00e3o, de maneira suficientemente longa, ao passo que ser\u00e1 classificada como curta se for desperdi\u00e7ada uma grande parte dela (S\u00caNECA, p. 26), ainda que, porventura, se escute com frequ\u00eancia a seguinte frase: \u201cele completou 90 anos, j\u00e1 viveu muito.\u201d Contudo, nem todos souberam cultivar a arte da viver como forma de express\u00e3o m\u00e1xima do exerc\u00edcio da liberdade pessoal.<\/p>\n<p>Segundo Viktor Frankl, neuropsiquiatra austr\u00edaco, sobrevivente de quatro dos diferentes campos de concentra\u00e7\u00e3o nazista durante a Segunda Guerra Mundial, sua experi\u00eancia de vida como prisioneiro ratificou a import\u00e2ncia da \u00faltima das liberdades humanas: a liberdade da consci\u00eancia individual. A pris\u00e3o, a falta de sono, a alimenta\u00e7\u00e3o deficiente, o excesso de trabalho, estresses mentais e a constante imin\u00eancia da morte n\u00e3o foram capazes de afastar a sua autodetermina\u00e7\u00e3o, em escolher suportar todo este seu sofrimento com coragem, honra e abnega\u00e7\u00e3o. A sua for\u00e7a interior foi capaz de elev\u00e1-lo acima de seu aparente destino (p. 89). E veja-se: num mundo de sucesso material, como o \u00e9 em circunst\u00e2ncias normais, tal sacrif\u00edcio \u2013 por ter, no seu eu interior, livremente optado, n\u00e3o obstante encarcerado, em manter a esperan\u00e7a, ainda que tudo viesse a dar errado e a luta fosse dada como perdida \u2013 indubitavelmente, iria parecer in\u00fatil para a maior parte das pessoas que n\u00e3o haviam descoberto um prop\u00f3sito na vida.<\/p>\n<p>O autor retromencionado faz quest\u00e3o de sempre citar as palavras de Friedrich Nietzsche: \u201cquem tem um porqu\u00ea para viver, suporta quase qualquer como\u201d (p. 97). Trazendo para a constru\u00e7\u00e3o da arquitetura do seu pensamento, a t\u00edtulo de exemplo, tanto aqueles que se encontram desempregados, quanto os doentes terminais, porquanto em ambos os contextos, deixam-se abalar em suas for\u00e7as vitais ( leia-se: liberdade de escolha mental de sucumbir \u00e0 tristeza, ainda quando n\u00e3o se \u00e9 capaz de mudar uma situa\u00e7\u00e3o, ou abra\u00e7ar com coragem toda a carga de sofrimento, desafiando-se a mudar a si mesmo), onde os primeiros passam a n\u00e3o mais visualizar o fim de sua situa\u00e7\u00e3o de desemprego (embora provis\u00f3ria), e os segundos passam a n\u00e3o apresentar a capacidade de enxergar o sofrimento e a morte como partes irrevog\u00e1veis da vida, a despeito de uma prov\u00e1vel priva\u00e7\u00e3o de um futuro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>N\u00e3o resta d\u00favida de que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio sofrer para encontrar sentido (p. 122), mas deve-se aceitar o fato de que, se algu\u00e9m sofre, tal sofrimento ser\u00e1 uma \u201cmiss\u00e3o pessoal, exclusiva e singular\u201d (p. 98), ningu\u00e9m poder\u00e1 padecer em seu lugar.<\/p>\n<p>A sustenta\u00e7\u00e3o da liberdade da consci\u00eancia individual nas profundezas da alma humana, muitas vezes dilacerada pelos percal\u00e7os, dores, tormentos, amarguras da exist\u00eancia e, at\u00e9 mesmo, nas compara\u00e7\u00f5es de hist\u00f3ria de vida com os demais membros da sociedade (intensificada pelas redes sociais), se perfaz na busca de um sentido concreto para existir, seja na realiza\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o\/obra, da viv\u00eancia\/encontro de um amor, e o modo pelo qual se responde ao sofrimento imposto por ela (p. 120).<\/p>\n<p>Toda delibera\u00e7\u00e3o racional sobre os rumos da pr\u00f3pria vida recai na responsabilidade que se tem sobre as consequ\u00eancias daquela liberdade pessoal (interna\/moral). Entretanto, ela se torna muito mais florida quando se \u00e9 capaz de transcender em dire\u00e7\u00e3o aos outros, distanciando-se do objetivo ego\u00edstico de apenas procurar ostentar poderio econ\u00f4mico, seja com carro do ano, cord\u00f5es de ouro, roupa de marca, celular novo, apartamento de luxo e outros.<\/p>\n<p>Afinal de contas, como \u201ca vida que vale a pena a ser vivida\u201d \u00e9 somente a sua, n\u00e3o despreze a maior parte dela sem desfrutar dos seus valores imateriais (eis que toda a riqueza se esvair\u00e1 com a morte), sob pena do vazio existencial condenar a sua exist\u00eancia a conservar-se oscilando entre a \u00e2nsia de ter e o t\u00e9dio de possuir (Schopenhauer, p. 37).<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>BIBLIOGRAFIA: FRANKL, Viktor. Em busca de sentido: edi\u00e7\u00e3o para jovens leitores. 2\u00ba ed. Campinas: S\u00e3o Paulo, Ed. Auster, 2023. SCHOPENHAUER, Arthur. Dores do mundo. O amor. A morte. A arte. A moral. A religi\u00e3o. A pol\u00edtica. O homem e a sociedade. S\u00e3o Paulo: Edipro, 2014. S\u00caNECA, L\u00facio Anneo. Sobre a brevidade da vida. Porto Alegre: L&amp;PM, 2022.<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Sandra J. M. Villaverde (Instagram: @profsandra.villaverde) \u00e9 professora universit\u00e1ria e advogada criminalista no Rio de Janeiro \u2013 RJ.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este pequeno texto sobreveio de uma necessidade de refletir sobre como o amor, para mim, tornou-se o farol que ilumina a estrada da minha vida. O amor pelas minhas av\u00f3s (in memoriam), pelos meus pais, marido, irm\u00e3os, filhos caninos, e a arte de lecionar me impulsionam neste desejo de viver. 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