{"id":354091,"date":"2025-05-18T12:10:08","date_gmt":"2025-05-18T15:10:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354091"},"modified":"2025-05-18T12:34:00","modified_gmt":"2025-05-18T15:34:00","slug":"entre-a-dor-a-escrita-e-o-direito-de-existir-fora-das-grades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/entre-a-dor-a-escrita-e-o-direito-de-existir-fora-das-grades\/","title":{"rendered":"Entre a dor, a escrita e o direito de existir fora das grades"},"content":{"rendered":"<p>As tr\u00eas cr\u00f4nicas que apresento aqui \u201cOs boletos tamb\u00e9m choram\u201d, \u201cManual de sobreviv\u00eancia para cora\u00e7\u00f5es desastrosos\u201d e \u201cComo quase enlouqueci no campo (mas sa\u00ed com dados incr\u00edveis)\u201d n\u00e3o nasceram de um plano liter\u00e1rio, mas de uma travessia pessoal, pol\u00edtica e existencial. Elas foram escritas entre um campo de pesquisa em hospital psiqui\u00e1trico, uma tese de doutorado nas Ci\u00eancias Sociais e o colapso emocional de quem teve que reconstruir a pr\u00f3pria vida em meio ao luto de um div\u00f3rcio, \u00e0 press\u00e3o acad\u00eamica e \u00e0 solid\u00e3o de uma mulher que escreve para n\u00e3o ser internada em si mesma.<\/p>\n<p>Esses textos se colocam no mundo como testemunhos ficcionalizados, h\u00edbridos entre cr\u00f4nica, relato de campo e desabafo. S\u00e3o peda\u00e7os de mim e de muitas outras que, como eu, andam beirando o limite o da sanidade, o da conta banc\u00e1ria, o da paci\u00eancia, o da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Escolhi lan\u00e7\u00e1-los neste m\u00eas porque neste domingo, 18 de maio, \u00e9 mais que uma data no calend\u00e1rio: \u00e9 uma bandeira que precisa continuar sendo levantada. O Dia da Luta Antimanicomial marca um posicionamento \u00e9tico: ningu\u00e9m deve ser privado de liberdade pelo seu sofrimento ps\u00edquico. E, no entanto, todos os dias seguimos produzindo novas formas de encarceramento simb\u00f3licas ou literais para quem sente &#8220;demais&#8221;. A escrita, ent\u00e3o, torna-se um grito l\u00facido, um gesto de rebeldia diante de um mundo que insiste em patologizar as dores leg\u00edtimas da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Essas cr\u00f4nicas foram feitas para rir e pensar. Para provocar inc\u00f4modo e al\u00edvio. S\u00e3o textos que misturam Foucault com forr\u00f3, Goffman com boleto vencido, CAPS com poesia. Porque eu sou essa mistura: pesquisadora e sobrevivente, escritora e paciente, cientista social e mulher que um dia pensou que n\u00e3o sairia viva do pr\u00f3prio campo de pesquisa.<\/p>\n<p>Meu objetivo, ao escrev\u00ea-las, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 compartilhar uma experi\u00eancia singular, mas evidenciar como a linha entre quem estuda a loucura e quem \u00e9 chamada de louca \u00e9 fin\u00edssima \u2014 e, \u00e0s vezes, inexistente. E mais: quero lembrar que a literatura tamb\u00e9m pode ser ferramenta antimanicomial. Pode ser cuidado, den\u00fancia, reconstru\u00e7\u00e3o. Pode ser o lugar onde pessoas despeda\u00e7adas se reconhecem inteiras.<\/p>\n<p>Se essas palavras encontrarem abrigo nas p\u00e1ginas de alguma revista, j\u00e1 ter\u00e3o cumprido sua fun\u00e7\u00e3o: mostrar que a escrita ainda \u00e9 a forma mais bonita que encontrei de n\u00e3o enlouquecer completamente \u2014 e de lembrar aos outros que n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3s.<\/p>\n<p><strong>(I) Eu, louca? S\u00f3 quando respiro<\/strong><br \/>\nFui fazer pesquisa de campo num hospital psiqui\u00e1trico e acabei pesquisando a mim mesma. N\u00e3o foi intencional. Juro que entrei de jaleco, prancheta, caderno de anota\u00e7\u00f5es e o cl\u00e1ssico ar de quem vai observar. Mas bastaram duas semanas para eu come\u00e7ar a confundir o som da chave da enfermaria com o som da minha pr\u00f3pria ang\u00fastia. Fui ouvir os silenciados, mas foi o meu sil\u00eancio que gritou primeiro.<\/p>\n<p>Michel Foucault me acompanhava como um santo de bolso. &#8220;Hist\u00f3ria da Loucura&#8221; era minha novena acad\u00eamica. Ele dizia que a loucura era uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, uma categoria moldada pelo poder e pela medicina. Mas o livro n\u00e3o te avisa como se proteger quando a constru\u00e7\u00e3o te engole. N\u00e3o te avisa que o barulho da chave trancando a porta pode disparar mem\u00f3rias que voc\u00ea nem sabia que estavam l\u00e1, quietas, no fundo do seu inconsciente e da sua inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lembro da paciente que me disse: &#8220;Aqui, ou voc\u00ea finge que melhorou ou voc\u00ea nunca sai&#8221;. Eu anotei como uma boa cientista. Mas depois fiquei noites em claro pensando se isso tamb\u00e9m n\u00e3o era v\u00e1lido para o lado de c\u00e1 da grade. Quantos de n\u00f3s fingimos estar bem, fingimos produtividade, fingimos estabilidade emocional s\u00f3 para sair da cama? A fronteira entre sanidade e desespero \u00e9 muito mais fr\u00e1gil do que o jaleco sugere.<\/p>\n<p>Na segunda visita, chorei escondida no banheiro da ala feminina. N\u00e3o pelas hist\u00f3rias das pacientes. Mas porque vi a mim mesma em cada uma delas. Em seus surtos contidos, nas perguntas repetidas, nas cartas nunca enviadas. A pesquisa estava dando certo. Os dados eram \u00f3timos. Eu \u00e9 que estava desmoronando.<\/p>\n<p>Foi ali que escrevi, com a caneta azul da enfermaria, em meus pr\u00f3prios bra\u00e7os: &#8220;N\u00e3o quero esquecer que sou humana&#8221;. Parecia dram\u00e1tico na hora. Hoje, virou trecho de cr\u00f4nica. A dor foi transcrita, decupada, literaturizada. O que era um colapso silencioso virou material de resist\u00eancia simb\u00f3lica. Foucault explicaria como um ato de insubmiss\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica disciplinar. Eu chamo de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o fui internada. Mas quase. E talvez devesse ter sido. Ou talvez o mundo \u00e9 que precise de uma interna\u00e7\u00e3o coletiva. O que aprendi ali \u00e9 que a loucura \u00e9 menos um diagn\u00f3stico e mais um espelho: n\u00f3s, os ditos normais, \u00e9 que estamos sempre \u00e0 beira de um colapso, mascarado por boletos, deadlines e fingimentos di\u00e1rios.<\/p>\n<p>A pesquisa rendeu um cap\u00edtulo inteiro. Mas quem me salvou mesmo foi a escrita. Desde ent\u00e3o, n\u00e3o parei mais. Cr\u00f4nica virou meu rem\u00e9dio. Literatura, meu laudo. E a cada texto, uma alta simb\u00f3lica. Porque, afinal, n\u00e3o h\u00e1 cura para quem escreve. Mas talvez haja al\u00edvio.<\/p>\n<p>E eu, louca? S\u00f3 quando respiro. E \u00e9 por isso que continuo escrevendo.<\/p>\n<p><strong>(II) Manual de sobreviv\u00eancia<\/strong><br \/>\nAviso logo: esse manual n\u00e3o tem bula, nem contraindica\u00e7\u00e3o. Foi escrito em dias de choro no box do banheiro, com a toalha de estima\u00e7\u00e3o no pesco\u00e7o, ouvindo Caetano e falando sozinha como quem faz etnografia do pr\u00f3prio abismo.<\/p>\n<p>Minha tese de doutorado foi escrita entre rompantes emocionais, or\u00e7amentos estourados e crises de identidade. Erving Goffman bem que tentou me avisar: a vida \u00e9 uma encena\u00e7\u00e3o, e cada um representa um papel. O problema \u00e9 quando voc\u00ea est\u00e1 nos bastidores da pr\u00f3pria vida e ningu\u00e9m te entrega o roteiro.<\/p>\n<p>Me separei no meio da tese. Sim, E-MEIO. N\u00e3o recomendo. Um dia eu estava escrevendo sobre sofrimento simb\u00f3lico e desigualdades estruturais, no outro dia estava no cart\u00f3rio dividindo cafeteira e cust\u00f3dia emocional de cachorro. A \u00fanica estrutura que me sustentava era a da ABNT.<\/p>\n<p>A dor virou par\u00e1grafo. A raiva virou cita\u00e7\u00e3o de Foucault. O luto, uma nota de rodap\u00e9. Comecei a escrever como quem grita para n\u00e3o enlouquecer e n\u00e3o fui a \u00fanica. Quantos de n\u00f3s estamos usando o Word como terapia e o Google Scholar como confidente?<\/p>\n<p>Nesse manual de sobreviv\u00eancia, n\u00e3o tem m\u00e1gica. Tem caf\u00e9 requentado, tem texto recusado, tem crise de choro em grupo de pesquisa e tem aquele momento em que voc\u00ea se olha no espelho e diz: &#8220;Eu sou cientista social, n\u00e3o vidente, mas previ esse colapso&#8221;.<\/p>\n<p>Aprendi com as doidas do CAPS, com as amigas do grupo de mulheres, com Concei\u00e7\u00e3o Evaristo e com minha pr\u00f3pria av\u00f3: sobreviver \u00e9 um of\u00edcio, e \u00e0s vezes a gente precisa ser rid\u00edcula para seguir viva. \u00c0s vezes, a vergonha \u00e9 a \u00fanica companhia fiel. Mas a escrita \u00e9 o lugar onde a gente faz as pazes com o que n\u00e3o teve fim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se voc\u00ea estiver de ressaca emocional, cobrando produtividade, chorando em frente ao boleto ou se perguntando se o amor ainda existe: respira. Reaquece o caf\u00e9.<\/p>\n<p>E escreve. Mesmo que seja errado, mesmo que ningu\u00e9m leia. Porque a literatura \u00e9 o lugar onde cora\u00e7\u00f5es desastrosos encontram abrigo.<\/p>\n<p>E se um dia algu\u00e9m te disser que voc\u00ea escreve demais sobre si, diga com orgulho: &#8220;\u00c9 que minha vida \u00e9 t\u00e3o ca\u00f3tica que virou fonte prim\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n<p><strong>(III) Como quase enlouqueci no campo<\/strong><br \/>\nA primeira li\u00e7\u00e3o de uma pesquisa de campo \u00e9 simples: nunca subestime o campo. A segunda \u00e9 mais cruel: o campo sempre subestima voc\u00ea.<\/p>\n<p>Entrei num hospital psiqui\u00e1trico com o crach\u00e1 da universidade e o sonho rom\u00e2ntico de observar, registrar e analisar. Sa\u00ed com os nervos em frangalhos, tr\u00eas di\u00e1rios de campo encharcados de l\u00e1grima e a impress\u00e3o de que a \u00fanica pessoa em surto era eu. Foucault me sussurrava: \u201cO manic\u00f4mio \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o\u201d. E eu gritava de volta: \u201cPois a minha raz\u00e3o est\u00e1 em frangalhos, Michel!\u201d.<\/p>\n<p>Fiz amizade com as internas. Comi bolo com elas, dancei forr\u00f3 nas tardes de sol, ouvi hist\u00f3rias que nenhum artigo teve coragem de publicar. Uma delas me disse: \u201cVoc\u00ea escreve bonito, mas t\u00e1 com o olho triste. Cuidado, sen\u00e3o eles te internam tamb\u00e9m\u201d. A risada foi coletiva, mas a pulga ficou atr\u00e1s da minha orelha por semanas.<\/p>\n<p>Goffman chamaria aquilo de \u201cinstitui\u00e7\u00e3o total\u201d. Eu chamei de \u201ccolapso existencial com base emp\u00edrica\u201d. Enquanto anotava as rotinas, os sil\u00eancios, as portas trancadas e os olhares perdidos, algo em mim tamb\u00e9m se trancava. Tinha dias que eu voltava pra casa em sil\u00eancio absoluto, como quem carrega fantasmas no ombro. E escrevia. Sempre escrevia. Nos bra\u00e7os, nos cadernos, no bloco de notas do celular, nos guardanapos de padaria. A escrita virou minha forma de n\u00e3o surtar completamente.<\/p>\n<p>E quando a orientadora perguntou como eu estava, eu menti. Disse que tudo \u00f3timo. Que os dados estavam \u201cbrotando\u201d. E estavam. Mas estavam brotando de uma rachadura imensa que se abriu dentro de mim. O campo me atravessou como faca sem cabo. E ainda assim, a antropologia, essa ci\u00eancia apaixonada por gente esquisita, me salvou de mim mesma.<\/p>\n<p>No fim, o hospital n\u00e3o me internou, mas a tese quase me enterra. Quase. Porque toda vez que eu pensei em desistir da tese, da vida, da escrita uma cr\u00f4nica nascia. Uma poesia me chamava. Uma paciente me dizia: \u201cEi, escreve isso a\u00ed, doutora. Mas escreve bonito\u201d.<\/p>\n<p>E eu escrevi.<\/p>\n<p>Porque quando tudo falta, a escrita \u00e9 a \u00faltima l\u00e2mpada acesa no hosp\u00edcio da nossa exist\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As tr\u00eas cr\u00f4nicas que apresento aqui \u201cOs boletos tamb\u00e9m choram\u201d, \u201cManual de sobreviv\u00eancia para cora\u00e7\u00f5es desastrosos\u201d e \u201cComo quase enlouqueci no campo (mas sa\u00ed com dados incr\u00edveis)\u201d n\u00e3o nasceram de um plano liter\u00e1rio, mas de uma travessia pessoal, pol\u00edtica e existencial. 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