{"id":354107,"date":"2025-05-19T08:57:49","date_gmt":"2025-05-19T11:57:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354107"},"modified":"2025-05-19T08:59:37","modified_gmt":"2025-05-19T11:59:37","slug":"brasil-precisa-resgatar-identidade-e-acabar-a-violencia-contra-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-precisa-resgatar-identidade-e-acabar-a-violencia-contra-negros\/","title":{"rendered":"Brasil precisa resgatar identidade e acabar a viol\u00eancia contra negros"},"content":{"rendered":"<p>Atualmente, mais de 122 milh\u00f5es de brasileiros, 56% de uma popula\u00e7\u00e3o de 218,5 milh\u00f5es, se consideram pretos ou pardos. Com esse n\u00famero, o pa\u00eds tem o maior n\u00famero de pessoas de ascend\u00eancia africana fora da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Sua influ\u00eancia permeia todos os aspectos da vida social e cultural, moldando o que \u00e9 reconhecido como a pr\u00f3pria ess\u00eancia do Brasil moderno.<\/p>\n<p>Na m\u00fasica, ritmos como samba, bossa nova, maracat\u00fa, ax\u00e9 e funk t\u00eam ra\u00edzes profundamente afro-brasileiras. Na gastronomia, pratos como o acaraj\u00e9 e a feijoada s\u00e3o testemunhos vivos da mistura cultural que os povos africanos trouxeram consigo.<\/p>\n<p>Pr\u00e1ticas como o Candombl\u00e9 e a Umbanda mant\u00eam viva a espiritualidade ancestral no \u00e2mbito religioso.<\/p>\n<p>Mesmo durante o Carnaval, a festa mais emblem\u00e1tica do pa\u00eds sul-americano, a import\u00e2ncia das escolas de samba afro-brasileiras \u00e9 ineg\u00e1vel.<\/p>\n<p>No entanto, essa heran\u00e7a de riqueza cultural coexiste com uma hist\u00f3ria de dor. O Brasil foi o destino de mais de quatro milh\u00f5es de africanos escravizados, o maior n\u00famero nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Do s\u00e9culo XVI ao XIX, homens, mulheres e crian\u00e7as foram retirados \u00e0 for\u00e7a de suas terras para construir, com sangue e suor, a riqueza de uma na\u00e7\u00e3o que, ainda hoje, enfrenta as consequ\u00eancias dessa viol\u00eancia fundadora.<\/p>\n<p>As marcas dessa hist\u00f3ria est\u00e3o profundamente inscritas na estrutura social. Os afrodescendentes, apesar de suas imensas contribui\u00e7\u00f5es, continuam enfrentando enormes desigualdades.<\/p>\n<p>Persistem lacunas significativas no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao mercado de trabalho e aos servi\u00e7os de sa\u00fade. O racismo estrutural permeia todos os n\u00edveis da sociedade, e a viol\u00eancia policial continua a ter como alvo principalmente jovens negros.<\/p>\n<p>Em entrevista exclusiva ao Esc\u00e1ner, a renomada historiadora Ana Paula Vianna Zaquieu afirma que reconhecer as contribui\u00e7\u00f5es dos afrodescendentes e denunciar a discrimina\u00e7\u00e3o racial s\u00e3o tarefas urgentes.<\/p>\n<p>Como chefe do Centro de Educa\u00e7\u00e3o do Museu da Rep\u00fablica, Vianna Zaquieu trabalha para integrar narrativas negras \u00e0s mem\u00f3rias oficiais do Brasil.<\/p>\n<p>Localizada no hist\u00f3rico Pal\u00e1cio do Catete, no Rio de Janeiro, a galeria de arte \u00e9 um s\u00edmbolo eloquente da mem\u00f3ria seletiva que tentou apagar a presen\u00e7a africana na hist\u00f3ria nacional.<\/p>\n<p>Constru\u00edda em 1857 por um bar\u00e3o do caf\u00e9 que enriqueceu com o tr\u00e1fico de escravos, a propriedade serviu posteriormente como sede da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, de 1897 a 1960.<\/p>\n<p>Sua arquitetura neocl\u00e1ssica reflete o fasc\u00ednio da elite brasileira pelos valores europeus, que eram ent\u00e3o considerados o modelo de um pa\u00eds que aspirava ser reconhecido como civilizado.<\/p>\n<p>No interior, a aus\u00eancia de representa\u00e7\u00f5es de povos negros e ind\u00edgenas revela um projeto consciente de branqueamento e exclus\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Vianna Zaquieu destaca que essa tentativa de apagar a mem\u00f3ria afrodescendente fica evidente no circuito expositivo de longa dura\u00e7\u00e3o do museu.<\/p>\n<p>Os objetos, decora\u00e7\u00f5es, retratos e textos refor\u00e7am a imagem de uma na\u00e7\u00e3o europeia, branca e moderna, ocultando deliberadamente a diversidade racial que a constitui.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia, ele explica a Esc\u00e1ner, n\u00e3o foi casual nem inocente, mas sim parte de um mecanismo sofisticado de constru\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional que relegou os afrodescendentes \u00e0 invisibilidade.<\/p>\n<p>Inspirado no pensamento do psiquiatra e te\u00f3rico anticolonial Frantz Fanon, ele argumenta que esse processo n\u00e3o apenas subordinou os afrodescendentes em termos econ\u00f4micos ou sociais, mas tamb\u00e9m operou em um n\u00edvel mais profundo: o da subjetividade.<\/p>\n<p>Natural da Martinica, Fanon (1925-1961) analisou como o colonizador imp\u00f5e uma imagem de inferioridade que o colonizado internaliza, levando-o a negar sua pr\u00f3pria identidade e humanidade. Essa ferida ps\u00edquica ainda d\u00f3i no Brasil, onde a desumaniza\u00e7\u00e3o do negro continua se manifestando de m\u00faltiplas formas.<\/p>\n<p><strong>Depoimentos de Ana Paula Vianna Zaquieu<\/strong><br \/>\nO papel do Estado brasileiro na perpetua\u00e7\u00e3o do racismo \u00e9, para Vianna Zaquieu, ineg\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por meio de suas institui\u00e7\u00f5es, suas pol\u00edticas p\u00fablicas (ou a falta delas) e seu aparato de seguran\u00e7a, o Estado historicamente contribuiu para refor\u00e7ar as desigualdades raciais.<\/p>\n<p>Essa perpetua\u00e7\u00e3o se expressa atualmente em formas de racismo religioso, ambiental e institucional. Mas entre todas as express\u00f5es de viol\u00eancia racial, o acad\u00eamico destaca uma que \u00e9 particularmente dolorosa: o genoc\u00eddio da juventude negra.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o assustadores: a cada 23 minutos, um jovem negro \u00e9 assassinado no Brasil. Essa realidade, que deveria causar choque nacional, passa quase despercebida.<\/p>\n<p>A naturaliza\u00e7\u00e3o dessas mortes demonstra o grau de desumaniza\u00e7\u00e3o a que os afrodescendentes foram submetidos.<\/p>\n<p>Vianna Zaquieu, como m\u00e3e de um jovem negro, vivencia essa amea\u00e7a pessoal e diariamente.<\/p>\n<p>Ele lembra Scanner, em especial, do caso de Jo\u00e3o Pedro, um adolescente de 14 anos morto em 2020 durante uma opera\u00e7\u00e3o policial no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Pedro estava jogando em casa quando foi baleado nas costas. Os policiais envolvidos foram absolvidos em 2024, sem sequer serem julgados por um tribunal popular.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio ilustra como o sistema judici\u00e1rio tamb\u00e9m contribui para a impunidade e a manuten\u00e7\u00e3o do racismo estrutural.<\/p>\n<p>Apesar da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, o Brasil tenta estabelecer pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o. Desde 2012, cotas raciais foram implementadas em universidades p\u00fablicas, buscando ampliar o acesso ao ensino superior para pessoas de ascend\u00eancia africana.<\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m exige a inclus\u00e3o da hist\u00f3ria e cultura africana e afro-brasileira nos curr\u00edculos escolares.<\/p>\n<p>No entanto, a implementa\u00e7\u00e3o e os resultados dessas pol\u00edticas continuam sendo alvo de cr\u00edticas e debates.<\/p>\n<p>A resist\u00eancia das comunidades afro-brasileiras continua sendo vital para a constru\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds mais justo e diverso.<\/p>\n<p>Manter vivas as ra\u00edzes africanas, os conhecimentos ancestrais e as pr\u00e1ticas culturais n\u00e3o \u00e9 apenas uma afirma\u00e7\u00e3o de identidade, mas tamb\u00e9m um ato pol\u00edtico de resist\u00eancia contra a opress\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Ser afrodescendente no Brasil simboliza resist\u00eancia, manter a mem\u00f3ria viva, construir alternativas e exigir justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m significa carregar a dor da perda e o medo cotidiano, como Vianna Zaquieu descreve: \u201cEnquanto os jovens brancos correm o risco de perder seus celulares ou seus t\u00eanis, os jovens negros, como meu filho, correm o risco de perder suas vidas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atualmente, mais de 122 milh\u00f5es de brasileiros, 56% de uma popula\u00e7\u00e3o de 218,5 milh\u00f5es, se consideram pretos ou pardos. Com esse n\u00famero, o pa\u00eds tem o maior n\u00famero de pessoas de ascend\u00eancia africana fora da \u00c1frica. Sua influ\u00eancia permeia todos os aspectos da vida social e cultural, moldando o que \u00e9 reconhecido como a pr\u00f3pria [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":354108,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[95],"class_list":["post-354107","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil","tag-capa"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=354107"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":354110,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354107\/revisions\/354110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/354108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=354107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=354107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=354107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}