{"id":354113,"date":"2025-05-19T09:15:35","date_gmt":"2025-05-19T12:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354113"},"modified":"2025-05-19T09:18:06","modified_gmt":"2025-05-19T12:18:06","slug":"brasil-vive-crise-de-anestesia-social-esfacelada-onde-tudo-pode-e-se-aceita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-vive-crise-de-anestesia-social-esfacelada-onde-tudo-pode-e-se-aceita\/","title":{"rendered":"Brasil vive crise de anestesia social esfacelada onde tudo pode e se aceita"},"content":{"rendered":"<p>A pol\u00eamica dos beb\u00eas reborn, bonecas hiper-realistas tratadas como rec\u00e9m-nascidos, escancarou algo muito maior do que o inusitado das cenas compartilhadas nas redes sociais. N\u00e3o se trata apenas de gente adulta dando mamadeira para pl\u00e1stico. Trata-se de uma desconex\u00e3o crescente com a realidade, uma esp\u00e9cie de del\u00edrio consentido, onde a fantasia passa a exigir legitimidade social e at\u00e9 institucional.<\/p>\n<p>Ver pessoas saindo \u00e0s ruas com suas bonecas no colo, comprando carrinhos, contratando bab\u00e1s e at\u00e9 exigindo atendimento priorit\u00e1rio em filas de supermercado ou postos de sa\u00fade j\u00e1 seria suficiente para provocar espanto. Mas o espanto virou costume. E, como tudo o que viraliza, bastou repetir o suficiente para que o absurdo se tornasse paisagem.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem diga que tudo isso \u00e9 terap\u00eautico, que n\u00e3o devemos julgar o que ajuda o outro a lidar com o luto, a aus\u00eancia, a solid\u00e3o. E sim, o acolhimento tem seu lugar. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a clara entre respeitar o simb\u00f3lico e participar coletivamente de uma encena\u00e7\u00e3o, onde todos fingem que uma boneca \u00e9 um beb\u00ea. O problema n\u00e3o \u00e9 o afeto direcionado ao objeto, o problema \u00e9 a cobran\u00e7a de que todos ao redor participem da ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse comportamento revela um cansa\u00e7o do mundo real, que cobra, que d\u00f3i, que exige. \u00c9 mais f\u00e1cil viver uma fantasia que n\u00e3o contraria, que n\u00e3o adoece, que n\u00e3o se frustra. Um beb\u00ea de vinil n\u00e3o chora \u00e0 noite, n\u00e3o adoece, n\u00e3o cresce. E justamente por isso, talvez, seja mais desejado que o real.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o chegou ao Congresso, claro, e como n\u00e3o chegaria? H\u00e1 sempre quem queira transformar sintomas em normas. Agora discute-se multa para quem tentar passar uma boneca por beb\u00ea. Mas o problema n\u00e3o \u00e9 o projeto de lei, \u00e9 o fato de precisarmos de um. O centro do absurdo n\u00e3o est\u00e1 na pol\u00edtica, mas no que ela passou a regulamentar, del\u00edrios individuais transformados em conflitos coletivos.<\/p>\n<p>Estamos vivendo uma esp\u00e9cie de anestesia social, onde tudo pode, tudo se aceita, e qualquer tentativa de trazer racionalidade \u00e0 conversa \u00e9 recha\u00e7ada como intoler\u00e2ncia. A fronteira entre o dist\u00farbio e o h\u00e1bito est\u00e1 sendo corro\u00edda pelo medo de parecer insens\u00edvel.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o que realmente importa, as crian\u00e7as reais, as fam\u00edlias reais, os problemas reais, vai ficando em segundo plano. O l\u00fadico, que deveria ocupar o espa\u00e7o do conforto \u00edntimo e simb\u00f3lico, est\u00e1 invadindo a arena p\u00fablica, exigindo reconhecimento, legisla\u00e7\u00e3o e respeito compuls\u00f3rio.<\/p>\n<p>Se um dia nos perguntarem em que momento a sociedade come\u00e7ou a trope\u00e7ar nas pr\u00f3prias fantasias, talvez a resposta venha com a imagem de um adulto disputando lugar preferencial no \u00f4nibus com uma boneca no colo. Porque o mais triste n\u00e3o \u00e9 quem acredita, \u00e9 quem para de achar estranho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00eamica dos beb\u00eas reborn, bonecas hiper-realistas tratadas como rec\u00e9m-nascidos, escancarou algo muito maior do que o inusitado das cenas compartilhadas nas redes sociais. N\u00e3o se trata apenas de gente adulta dando mamadeira para pl\u00e1stico. 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