{"id":354170,"date":"2025-05-20T10:09:49","date_gmt":"2025-05-20T13:09:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354170"},"modified":"2025-05-20T13:40:58","modified_gmt":"2025-05-20T16:40:58","slug":"perto-de-lancar-seu-quarto-livro-escritora-poe-as-cartas-na-mesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/perto-de-lancar-seu-quarto-livro-escritora-poe-as-cartas-na-mesa\/","title":{"rendered":"Perto de lan\u00e7ar seu quarto livro, escritora p\u00f5e as cartas na mesa"},"content":{"rendered":"<p>Betine Daniel, nascida em 1981, no Rio de Janeiro, onde vive, \u00e9 formada em Letras e servidora p\u00fablica. Publicou os livros \u2018Uma casa perto de um vulc\u00e3o\u2019 (Patu\u00e1, 2018), \u2018Ainda ancora o infinito\u2019 (Moinhos, 2019), \u2018Corpo-esconderijo\u2019 (Libertinagem, 2024) e est\u00e1 lan\u00e7ando \u2018Harpia harpyja\u2019 (Caravana, 2025). \u00c9 tamb\u00e9m autora da plaquete \u2018Irmana\u00e7\u00f5es (ou) Po\u00e9ticas Fractais\u2019 (Primata, 2024), escrita em parceria com seu irm\u00e3o, Teofilo Tostes Daniel. J\u00e1 teve poemas publicados em antologias e revistas impressas e digitais.<\/p>\n<p>Em uma conversa \u00edntima e reveladora, a poeta compartilha conosco sua trajet\u00f3ria pessoal, marcada pela sensibilidade e pela busca por express\u00e3o. Leva-nos em uma jornada pelas p\u00e1ginas de sua vida, revelando os momentos que a moldaram como escritora e como pessoa. Com uma voz aut\u00eantica e afetuosa, ela nos convida a entrar em seu mundo, onde a poesia \u00e9 uma extens\u00e3o de sua alma.<\/p>\n<p><strong>Como a inf\u00e2ncia influenciou sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p>Minha inf\u00e2ncia n\u00e3o foi um territ\u00f3rio narrado \u2014 foi uma geografia primitiva, feita de chuva e fragmentos, de r\u00e1dios acesos, novelas das oito, vozes ecoando pelas paredes finas de um quase conjugado no Flamengo. Um quarto s\u00f3 \u2014 minha m\u00e3e, meu irm\u00e3o e eu dividindo o escuro \u2014 TV em preto e branco, Gal cantando ao fundo, o rock nacional em alta.<\/p>\n<p>Perdi meu pai \u2014 poeta \u2014 aos quatro anos. Convivemos pouco, mas fui formada por esse vazio mineral, esse continente ausente. A inf\u00e2ncia se assentou sobre ele como terra depois de uma chuva longa.<\/p>\n<p>Aos oito, vivi um ano em Belo Horizonte. As montanhas me deram contorno. As ladeiras, descidas e subidas no banco de tr\u00e1s do Fusca do v\u00f4 Fernando. A Terrinha \u2014 um s\u00edtio em Itabirito \u2014 com c\u00f3rrego, cavalo, encostas verdes. Pedra e lama. Mesmo depois, segui passando as f\u00e9rias de fim de ano l\u00e1, saboreando antes o cheiro da comida da v\u00f3 Olga \u2014 nome que quase foi o meu.<\/p>\n<p>Morei tamb\u00e9m nove anos em Cabo Frio (dos nove aos dezoito): o mar que tamb\u00e9m me impregnou. Colecionava pedras e cartas \u2014 modos de reten\u00e7\u00e3o. Nada se perdia sem antes passar pela m\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o escrevo sobre a inf\u00e2ncia, mas a partir das camadas que ela deixou: terra antiga, mar incessante, vagalumes imagin\u00e1rios. Como no poema que abre meu primeiro livro, ela \u00e9 um terreno de suturas, de galhos partidos, de oceanos que nos olham de longe. A inf\u00e2ncia \u00e9 paisagem: observa\u00e7\u00e3o, relevo, sedimento. Um lugar de onde a linguagem brota \u2014 infiltrada.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea acredita que a poesia possa transformar a sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o acredito na instrumentaliza\u00e7\u00e3o da poesia. N\u00e3o espero que ela explique, conven\u00e7a ou resolva. Mas confio no tipo de deslocamento que ela produz \u2014 na maneira como desfaz automatismos, reconfigura sentidos, contamina o olhar com outra vibra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A poesia interfere na linguagem \u2014 e, ao fazer isso, interfere no mundo. Ela interrompe continuidades, rompe com o repetido, atrasa o passo da norma. Isso, para mim, \u00e9 pol\u00edtico. N\u00e3o como discurso, mas como altera\u00e7\u00e3o de ritmo, como desarranjo m\u00ednimo e duradouro.<\/p>\n<p>Creio que a poesia n\u00e3o transforma a sociedade de fora para dentro \u2014 mas por dentro. Atua nos modos de sentir, perceber, existir. N\u00e3o muda o mundo como um manifesto, mas como algo que desarranja o plano e abre outras sa\u00eddas. E quando isso se espalha, j\u00e1 \u00e9 caminho em andamento.<\/p>\n<p><strong>Sua obra explora temas como corpo, identidade e espiritualidade. Como voc\u00ea define a rela\u00e7\u00e3o entre esses conceitos em sua poesia?<\/strong><\/p>\n<p>Minha poesia nasce de um corpo insone \u2014 um organismo que recusa o repouso, que pulsa mesmo quando a cidade silencia. Corpo, identidade e espiritualidade n\u00e3o aparecem como temas isolados: eles perpassam, criando interfer\u00eancias e lugares de aten\u00e7\u00e3o sens\u00edvel.<\/p>\n<p>Acredito numa escrita que recuse as cis\u00f5es entre pensamento e sensa\u00e7\u00e3o, entre o vivido e o formulado. No gesto po\u00e9tico, pensar \u00e9 sentir com acuidade, e sentir \u00e9 pensar com o corpo. O poema, ent\u00e3o, \u00e9 organismo inst\u00e1vel \u2014 feito de nervos, espectros e camadas de linguagem.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o se expressa de modos distintos ao longo da minha obra. Meus tr\u00eas primeiros livros \u2014 \u2018Uma casa perto de um vulc\u00e3o\u2019 (Patu\u00e1, 2018), \u2018Ainda ancora o infinito\u2019 (Moinhos, 2019) e \u2018Corpo-esconderijo\u2019 (Libertinagem, 2024) \u2014 formam uma esp\u00e9cie de trilogia po\u00e9tica que investiga a escuta sens\u00edvel, a mem\u00f3ria e a presen\u00e7a encarnada. No primeiro, a materialidade afetiva aparece como vest\u00edgio geogr\u00e1fico, ligado \u00e0s inf\u00e2ncias e \u00e0 casa \u2014 um rastro permeado por ancestralidade, pertencimento e deslocamento. No segundo, a identidade se esgar\u00e7a em camadas de sil\u00eancio e tempo; uma dilata\u00e7\u00e3o sonora estrutura o poema, e o canto se dissolve num espa\u00e7o meditativo, entre o vis\u00edvel e o intang\u00edvel. J\u00e1 no terceiro, o territ\u00f3rio retorna como zona pol\u00edtica e espiritual, abrigo e ru\u00edna, atitude de resist\u00eancia e reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em \u2018Harpia harpyja\u2019 (Caravana, 2025), meu livro mais recente, essa rela\u00e7\u00e3o se torna ainda mais aguda. A escrita aqui \u00e9 mais febril, densa \u2014 feita de m\u00fasculo e reflexo. A harpia n\u00e3o \u00e9 apenas met\u00e1fora, e sim, postura de voo e vig\u00edlia. A espiritualidade ent\u00e3o se expressa como perman\u00eancia no limiar: n\u00e3o como transcend\u00eancia, mas como mergulho. O texto se constr\u00f3i como espa\u00e7o ritual entre o que se vive e o que se resiste \u2014 entre o que o corpo sabe e o que ainda n\u00e3o pode dizer.<\/p>\n<p>Isso se relaciona diretamente com minha maneira de estar no mundo. Meu corpo \u00e9 neurodivergente, o que molda uma identidade ao mesmo tempo fluida e dissonante. A experi\u00eancia autista, para mim, \u00e9 compositiva, r\u00edtmica. Escrevo com aten\u00e7\u00e3o intensificada ao detalhe, ao som, \u00e0 vibra\u00e7\u00e3o das palavras e \u00e0 densidade (in)vis\u00edvel.<\/p>\n<p>A espiritualidade, nesse contexto, faz-se mais de presen\u00e7a radical do que de eleva\u00e7\u00e3o ou cren\u00e7a. Quase pag\u00e3, um tanto m\u00edstica, intensamente material \u2014 voltada ao que escorre pelas frestas. Expressa-se por meio da fisicalidade e molda uma identidade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as principais influ\u00eancias liter\u00e1rias e filos\u00f3ficas que moldaram sua escrita?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 um ponto de partida \u00fanico, mas um campo de interfer\u00eancias cont\u00ednuas. O que molda minha escrita n\u00e3o \u00e9 um conjunto fixo de nomes, mas o modo como certas vozes insistem, desaparecem, retornam, deslocam o eixo da aten\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes mais do que influ\u00eancias, s\u00e3o choques de dic\u00e7\u00e3o \u2014 encontros que provocam uma tor\u00e7\u00e3o no olhar, uma reconfigura\u00e7\u00e3o s\u00fabita do pensamento.<\/p>\n<p>A poesia portuguesa ocupa um lugar pulsante, sobretudo com Herberto Helder, cuja obra transforma a combust\u00e3o verbal num impulso alqu\u00edmico. Seus poemas n\u00e3o pedem decifra\u00e7\u00e3o \u2014 exigem febre. A palavra se torna jardim em chamas.<\/p>\n<p>Entre o abismo e o corpo, leio Pizarnik, Ungaretti, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Audre Lorde, Maura Lopes Can\u00e7ado, Beckett\u2026 Escritas que n\u00e3o buscam estabilidade, mas transmuta\u00e7\u00e3o. Que percorrem o excesso, o sil\u00eancio, a desmontagem \u2014 em paisagens onde a linguagem treme. Essas vozes n\u00e3o tratam o corpo como tema, mas como limite sens\u00edvel da palavra, como dobra entre o dizer e o indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>Dois nomes fundadores da poesia brasileira permanecem vivos para mim: Murilo Mendes, com sua imagina\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica e mutante; e Carlos Drummond, cuja versatilidade tensiona o cotidiano com m\u00faltiplas camadas de sensibilidade e cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Na poesia contempor\u00e2nea, acompanho autoras e autores que desfiguram o real com delicadeza ou ferocidade: Mar Becker, Miriam Alves, Ana Estaregui, Raquel Gaio, Wanda Monteiro, Mariana Bas\u00edlio, Carlos Orfeu, Marcelo Ariel\u2026 Poetas da observa\u00e7\u00e3o e da animalidade \u2014 onde o simb\u00f3lico, o urbano e o espiritual se dobram e se contaminam.<\/p>\n<p>Na poesia argentina e americana, destaco Cecilia Pav\u00f3n, Eileen Myles e Mary Oliver \u2014 tr\u00eas modos radicais de nomear o mundo. Pav\u00f3n mostra o amor e o fracasso com ironia e lirismo. Myles inscreve o desejo com f\u00faria e impureza. Oliver apreende a terra, o vento, o bicho \u2014 com uma aten\u00e7\u00e3o feita de pele e musgo.<\/p>\n<p>Na filosofia, leio autores que n\u00e3o tratam a linguagem como meio, mas como instabilidade viva. Muitas vezes \u00e9 a escrita que me leva a eles: um poema me coloca diante de um impasse, e ent\u00e3o procuro uma voz que me ajude a habitar o intervalo. Como se a teoria viesse depois do gesto.<\/p>\n<p>S\u00e3o especialmente pr\u00f3ximos Merleau-Ponty e Bachelard, ao iluminar a sensibilidade como instrumento de percep\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o; Blanchot, que nomeia o fora do texto como espessura e risco; Deleuze, com sua filosofia em fuga, em vibra\u00e7\u00e3o; e Michaux \u2014 onde ato e texto se confundem. Sua presen\u00e7a entre os fil\u00f3sofos n\u00e3o \u00e9 acaso: ele mostra que pensamento e poesia podem nascer do mesmo del\u00edrio controlado, do mesmo impulso de err\u00e2ncia.<\/p>\n<p>J\u00e1 Derrida, ao se debru\u00e7ar sobre o intervalo e o rastro, empurra o discurso para as bordas \u2014 e, por isso mesmo, a mant\u00e9m viva.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-354172 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/fc97d114-9f5e-4bd2-88b5-ef8de6b7c401-300x256.jpg\" alt=\"\" width=\"491\" height=\"419\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/fc97d114-9f5e-4bd2-88b5-ef8de6b7c401-300x256.jpg 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/fc97d114-9f5e-4bd2-88b5-ef8de6b7c401.jpg 712w\" sizes=\"auto, (max-width: 491px) 100vw, 491px\" \/><\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea desenvolve o processo de cria\u00e7\u00e3o de uma obra po\u00e9tica? O que vem primeiro: a ideia, a imagem ou a palavra?<\/strong><\/p>\n<p>Quase nunca h\u00e1 uma ideia definida no in\u00edcio. O que surge \u00e9 um ru\u00eddo, um inc\u00f4modo, algo que vibra como uma frequ\u00eancia ainda sem forma. \u00c0s vezes, uma palavra que irrompe sem que eu compreenda de imediato seu sentido. Ou ent\u00e3o uma imagem se instala \u2014 exige tradu\u00e7\u00e3o. Registro, ent\u00e3o, n\u00e3o para afirmar algo, mas para descobrir o que pulsa ali.<\/p>\n<p>Os poemas se constroem como colagem \u2014 n\u00e3o s\u00f3 no sentido visual, mas como m\u00e9todo: fragmentos, cortes, sons internos, intensidades. Mat\u00e9ria porosa ao que o mundo emite. Mais vulner\u00e1vel \u2014 e por isso mesmo mais receptivo ao que escapa \u00e0 forma.<\/p>\n<p>Outras linguagens permeiam esse processo com a mesma for\u00e7a que a palavra. Os filmes de David Lynch e Jean-Luc Godard me ensinaram a lidar com o inconsciente coletivo como zona de montagem \u2014 onde as imagens perturbam, arranham o real, deslocam o sentido. A banda Stereolab, que venho ouvindo com frequ\u00eancia, dentro de um retr\u00f4-futurismo, atua em mim como uma coreografia de batidas, frases em franc\u00eas que tento compreender.<\/p>\n<p>Louise Bourgeois e Pina Bausch, cada uma a seu modo, mostram que o movimento visual ou corporal tamb\u00e9m pode ser forma de escrita: cortar, sobrepor, ferir, remontar.<\/p>\n<p>Barthes dizia que a escrita \u00e9 um palimpsesto. Ferrante fala em capturar o que escapa. Eu talvez diga que o poema tenta fixar o que est\u00e1 \u00e0 beira do apagamento \u2014 ou aquilo que ainda n\u00e3o nasceu, mas j\u00e1 vibra.<\/p>\n<p>Escrevo ap\u00f3s o expediente, depois da cidade me esgotar. A escrita, para mim, n\u00e3o \u00e9 discurso \u2014 \u00e9 excesso. Um ac\u00famulo de for\u00e7as e falhas que transborda no acontecimento liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>E h\u00e1 tamb\u00e9m o barro. A Senhora D., de Hilda, acompanha-me como um arqu\u00e9tipo insurgente: h\u00edbrida, furiosa. Irm\u00e3 da harpia, parente de Ians\u00e3 e da B\u00fafala, mas tamb\u00e9m vegetal \u2014 feita de ciclos tempestuosos e mat\u00e9ria invis\u00edvel. Ela grafa, invade. Reinventa a carne e a palavra como regi\u00f5es de reincid\u00eancia e feiti\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem algum ritual ou h\u00e1bito que ajude a manter a criatividade fluindo?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho um ritual no sentido tradicional. Estou no registro tenso entre v\u00edscera e vig\u00edlia \u2014 talvez esse seja o modo pr\u00f3prio do po\u00e9tico. Mas h\u00e1 din\u00e2micas que s\u00e3o recorrentes.<\/p>\n<p>Anoto no bloco de notas do celular, no meio da rua, no \u00f4nibus, em filas. J\u00e1 tracei frases com o dedo no box do banheiro, desenhando palavras no vapor \u2014 frases que s\u00f3 existiram por instantes.<\/p>\n<p>Ando escrevendo. Literalmente. Caminho com frases reverberando junto ao passo, como se o ritmo do caminhar convocasse a cad\u00eancia do verso.<\/p>\n<p>Gosto de digitar em movimento, mas tamb\u00e9m parada em pra\u00e7as, jardins, pontos de \u00f4nibus. Lugares em que o mundo comum se mostra em pequenas falhas: ru\u00eddos, hesita\u00e7\u00f5es. O poema, muitas vezes, acontece-me ali \u2014 entre a presen\u00e7a que se espera e o mundo que excede. H\u00e1 algo de muito f\u00edsico nesse processo, e tamb\u00e9m de n\u00e3o-dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Temple Grandin fala de pensar em imagens como quem v\u00ea um filme interno. \u00c0s vezes, a poesia me chega assim: como uma sequ\u00eancia que precisa ser traduzida antes que se apague.<\/p>\n<p><strong>Sua obra aborda quest\u00f5es de g\u00eanero e feminilidade. Como voc\u00ea v\u00ea a representatividade feminina na literatura brasileira atual?<\/strong><\/p>\n<p>Vejo com alegria o fato de haver mais mulheres publicando, sendo lidas, editando livros, organizando eventos, participando das conversas liter\u00e1rias. Mas essa alegria n\u00e3o \u00e9 sem vigil\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ainda persiste um certo enquadramento sobre o que se espera da escrita de uma mulher: como se ela devesse ser \u00edntima, confessional, pedag\u00f3gica. Como se o corpo feminino s\u00f3 pudesse aparecer de modo decifr\u00e1vel, domesticado \u2014 e, muitas vezes, rent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Acredito na pot\u00eancia de outras linguagens: a do simb\u00f3lico, do on\u00edrico, da cr\u00edtica que se manifesta em poema \u2014 e que n\u00e3o se submete \u00e0 l\u00f3gica da coer\u00eancia discursiva. A escrita de uma mulher n\u00e3o precisa explicar a mulher. Pode sugeri-la, desmont\u00e1-la, tra\u00ed-la, fugir dela. Pode fazer do feminino um campo de multiplica\u00e7\u00e3o \u2014 ou de sombra.<\/p>\n<p>Na minha escrita, a quest\u00e3o de g\u00eanero aparece tamb\u00e9m como fluidez e desvio. N\u00e3o me interesso por categorias fixas. Trabalho com choques entre mat\u00e9ria viva e o verbo, com intensidades que n\u00e3o obedecem ao regime bin\u00e1rio. \u00c0s vezes \u00e9 a pele que pensa; \u00e0s vezes, \u00e9 a linguagem que age.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia autigender \u2014 esse modo de ser em que o g\u00eanero se constr\u00f3i a partir de uma percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o neurot\u00edpica \u2014 tem me atravessado. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o normativa com o corpo, com o desejo, com os afetos. E isso ressoa na forma como o poema se organiza \u2014 e escapa.<\/p>\n<p>Por isso me interessam figuras h\u00edbridas. A harpia, por exemplo: mulher, ave, mito, sombra. N\u00e3o cabe num molde. Tem garras, vis\u00e3o, voa. \u00c9 forma que ultrapassa. Real porque simb\u00f3lica, simb\u00f3lica porque encarnada.<\/p>\n<p>G\u00eanero, aqui, n\u00e3o \u00e9 identidade est\u00e1vel \u2014 \u00e9 movimento entre signos, entre o animal e o menino, entre a carne e o del\u00edrio.<\/p>\n<p>Quem cria a partir dessa travessia ainda precisa resistir a silenciamentos, inclusive os mais sutis. Recorro \u00e0 linguagem para n\u00e3o repetir o que esperam. Para desfiar o contorno da voz. Para habitar, com palavras, o pr\u00f3prio limiar que h\u00e1 nelas.<\/p>\n<p><strong>De que forma sua poesia busca desafiar ou refor\u00e7ar estere\u00f3tipos sobre mulheres?<\/strong><\/p>\n<p>Acredito que o enfrentamento aos estere\u00f3tipos n\u00e3o se d\u00e1 s\u00f3 por nega\u00e7\u00e3o frontal, mas por desvio. N\u00e3o aciono a linguagem para explicar. Formulo a partir de uma l\u00f3gica outra \u2014 de deriva, de tens\u00e3o, de n\u00e3o acomoda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Formulo com o vital, sim \u2014 mas n\u00e3o sobre ele como superf\u00edcie, apenas. Elaboro a partir de uma dobra, de uma tens\u00e3o entre o que se sente, o que se imagina, o que se diz e o que se cala.<\/p>\n<p>Talvez minha escrita desafie estere\u00f3tipos justamente ao recusar a resposta. Ao n\u00e3o tentar definir o que \u00e9 ser mulher, mas encenar suas (im)possibilidades.<\/p>\n<p>A harpia, como disse antes, \u00e9 figura dessa travessia. J\u00e1 foi concha, mar, tempo feito de desmoronamento e alegria. J\u00e1 foi a morte enquanto simulacro do eterno. Ela n\u00e3o representa uma feminilidade poss\u00edvel \u2014 ela se desloca numa dura\u00e7\u00e3o. E s\u00f3 a\u00ed se transfigura.<\/p>\n<p>Essa figura metamorfoseada \u2014 essa deusa suja, essa ave, ge\u00f3grafa, ge\u00f4metra \u2014 carrega os verbos interditos. Uma falange de Hildas e Navalhas. Vozes que falam dos cantos escuros e, ainda assim, ressuscitam.<\/p>\n<p>N\u00e3o escrevo sobre a mulher. Experi\u00eancia que n\u00e3o se reduz, desfaz o molde, que exige linguagem em estado de vertigem. Que sopra: vaza, caudalosa.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o pr\u00f3ximo projeto liter\u00e1rio que voc\u00ea est\u00e1 desenvolvendo? Pode nos dar um vislumbre?<\/strong><\/p>\n<p>Neste momento, \u2018Harpia harpyja\u2019 est\u00e1 em pr\u00e9-venda. \u00c9 uma obra que surgiu calcada nesta figura do animal \u2014 em vig\u00edlia \u2014 olhos abertos mesmo no escuro. A rapina que a percorre n\u00e3o \u00e9 met\u00e1fora, mas estado de alerta, linguagem em rasgo. O texto se constr\u00f3i em fragmentos, viv\u00eancias depuradas na ru\u00edna.<\/p>\n<p>Mas Harpia \u00e9 anterior \u00e0 pandemia: gestada num tempo de pressentimento, quando o esgotamento ainda n\u00e3o tinha nome. Foi escrita antes do colapso, mas j\u00e1 carregava algo do que viria \u2014 como se vigilante de um abismo que se anunciava. Ao redor dela, agora, nascem textos que pertencem ao presente: respostas brutas ou delicadas; sensoriais, escritas depois do susto, do nomeado.<\/p>\n<p>H\u00e1 um tr\u00e2nsito de tempos nesse processo: algo entre a mem\u00f3ria de uma luz violenta e uma linguagem mais sussurrada, mais c\u00f3smica. Esses outros escritos tenho desenvolvido com cad\u00eancias distintas, pensando nas influ\u00eancias das divindades e dos fatos hist\u00f3ricos como territ\u00f3rios de inven\u00e7\u00e3o \u2014 espelhos de zonas de rebenta\u00e7\u00e3o. Tenho mais dois livros prontos, que ainda n\u00e3o sei quando v\u00e3o sair. Penso que, depois desses, venha um hiato. Talvez, poesia em prosa.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia o impacto de sua obra na comunidade liter\u00e1ria e nos leitores?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, o que importa s\u00e3o os v\u00ednculos que a escrita acende \u2014 mesmo que de modo breve, subterr\u00e2neo ou intermitente.<\/p>\n<p>Muita coisa me afeta no ritmo alucinado da vida: o trabalho, as urg\u00eancias, as faltas. E \u00e9 nesse mesmo ritmo que os retornos chegam \u2014 \u00e0s vezes como resposta direta, outras como reverbera\u00e7\u00e3o lenta. S\u00e3o retornos que v\u00eam tanto de amizades formadas pelas redes quanto de encontros em oficinas, leituras, coletivos que tamb\u00e9m me formam: Fazia Poesia, Margem, Escreviventes, a turma do Clipe Poesia de 2023.<\/p>\n<p>Chamadas liter\u00e1rias, oficinas, saraus e encontros s\u00e3o, para mim, centros de respira\u00e7\u00e3o \u2014 espa\u00e7os onde a palavra circula como presen\u00e7a, troca, impacto. N\u00e3o vejo a literatura como algo que se lan\u00e7a em busca de resposta, mas como corrente viva: escrita com os outros, atravessada pelo mundo, devolvida em formas inesperadas.<\/p>\n<p>Esses retornos tamb\u00e9m me comp\u00f5em. Abre caminho, um tom que antes n\u00e3o havia. \u00c0s vezes, um poema nasce disso \u2014 do que voltou como fa\u00edsca.<\/p>\n<p><strong>Que pergunta voc\u00ea gostaria de ter recebido e eu n\u00e3o te fiz?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez: qual \u00e9 o ritmo da tua escrita? Ou ainda: com que ritmo ela sonha? Porque o ritmo, para mim, \u00e9 o que sustenta o poema. \u00c9 o que d\u00e1 corpo \u00e0 linguagem \u2014 seu f\u00f4lego, seu trope\u00e7o, sua vibra\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes, o poema chega como sussurro; outras, como pancada. A cad\u00eancia antecede o sentido. Penso o ritmo tamb\u00e9m como tempo \u2014 e, como diz Leda Maria Martins, o tempo n\u00e3o \u00e9 linha, mas espiral. Escrevo nesse tempo espiralado, onde passado e porvir se tocam. Marie Curie, mesmo ap\u00f3s a morte, teve seu corpo preservando tra\u00e7os de radia\u00e7\u00e3o. Acho que a escrita tamb\u00e9m: continua emitindo sinais, mesmo em sil\u00eancio. Por isso, mais do que \u201csobre o que \u00e9 o livro?\u201d, me interessa a pergunta: como ele pulsa? ou com que ritmo ele sonha? Porque talvez a\u00ed esteja a resposta mais viva \u2014 na frequ\u00eancia do poema.<\/p>\n<p><strong>Deixe algumas palavras finais aos leitores&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o em especial a voc\u00ea, Daniel Marchi, pela generosidade e pela paci\u00eancia em me acompanhar ao longo deste percurso \u2014 especialmente pela espera diante dos lapsos, da perda das perguntas, das posterga\u00e7\u00f5es que a vida imp\u00f5e (e reinventa). Aos poss\u00edveis leitores desta longa entrevista, tamb\u00e9m agrade\u00e7o pela escuta atenta \u2014 ou mesmo entrecortada. Esta conversa, que termina com perguntas alternativas e, por isso mesmo, reorganiza seus eixos, parece traduzir algo do que me move na escrita: a chance de pensar o deslocamento n\u00e3o como desvio, mas como forma leg\u00edtima de constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Obrigada ao <strong>Notibras<\/strong> pelo espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>Os livros da autora podem ser adquiridos pelos links abaixo ou diretamente com ela:<\/p>\n<p>* Harpia harpyja (pr\u00e9-venda)<\/p>\n<p>Brasil: <a href=\"https:\/\/caravanagrupoeditorial.com.br\/produto\/harpia-harpyja\">https:\/\/caravanagrupoeditorial.com.br\/produto\/harpia-harpyja<\/a><\/p>\n<p>Portugal: <a href=\"https:\/\/mercadoreditorial.pt\/product\/harpia-harpyja\">https:\/\/mercadoreditorial.pt\/product\/harpia-harpyja<\/a><\/p>\n<p>* corpo-esconderijo<br \/>\nDispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.editoralibertinagem.com\/product-page\/corpo-esconderijo-de-roberta-tostes-daniel\">https:\/\/www.editoralibertinagem.com\/product-page\/corpo-esconderijo-de-roberta-tostes-daniel<\/a><\/p>\n<p>* ainda ancora o infinito<br \/>\nDispon\u00edvel diretamente com a autora.<\/p>\n<p>* Uma casa perto de um vulc\u00e3o<br \/>\nEsgotado.<\/p>\n<p>Para adquirir exemplares, solicitar trocas ou informa\u00e7\u00f5es sobre a plaquete e demais publica\u00e7\u00f5es, entre em contato:<\/p>\n<p>E-mail: betinebdaniel@gmail.com<br \/>\nInstagram: @oabrirme | @betinedaniel<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Betine Daniel, nascida em 1981, no Rio de Janeiro, onde vive, \u00e9 formada em Letras e servidora p\u00fablica. Publicou os livros \u2018Uma casa perto de um vulc\u00e3o\u2019 (Patu\u00e1, 2018), \u2018Ainda ancora o infinito\u2019 (Moinhos, 2019), \u2018Corpo-esconderijo\u2019 (Libertinagem, 2024) e est\u00e1 lan\u00e7ando \u2018Harpia harpyja\u2019 (Caravana, 2025). \u00c9 tamb\u00e9m autora da plaquete \u2018Irmana\u00e7\u00f5es (ou) Po\u00e9ticas Fractais\u2019 (Primata, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":354171,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-354170","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=354170"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354170\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":354196,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354170\/revisions\/354196"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/354171"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=354170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=354170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=354170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}