{"id":354247,"date":"2025-05-21T12:05:29","date_gmt":"2025-05-21T15:05:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354247"},"modified":"2025-05-21T12:23:17","modified_gmt":"2025-05-21T15:23:17","slug":"o-luto-da-escrita-e-da-leitura-despido-de-ilusoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-luto-da-escrita-e-da-leitura-despido-de-ilusoes\/","title":{"rendered":"O luto da escrita e da leitura, despido de ilus\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 uma atividade solit\u00e1ria, eu sempre tenho dito. Mas, enquanto nos isolamos para darmos vida \u00e0s personagens e cen\u00e1rios de nossa escrita, um mundo absolutamente rico, povoado de muitas hist\u00f3rias, sensa\u00e7\u00f5es e ideias nasce e se amplia dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m permanece como era antes de ler uma hist\u00f3ria. Seja um romance, um conto, um poema \u2013 absolutamente sem a inten\u00e7\u00e3o de fazer hierarquia entre essas formas de express\u00e3o liter\u00e1ria \u2013 aquilo pode nos tocar de uma forma particular e, por vezes, nem notamos enquanto estamos lendo ou acabamos de ler. Dias depois, uma paisagem, uma palavra dita, uma ideia nascida ao acaso, e evocamos o que hav\u00edamos lido num par\u00e1grafo aleat\u00f3rio, num volume j\u00e1 repousando na estante, numa estrofe perdida.<\/p>\n<p>O efeito da leitura pode n\u00e3o ser imediato, mas nos chega, mais cedo ou mais tarde. Sempre chega.<\/p>\n<p>Como qualquer outro leitor, quando me dedico \u00e0 leitura de uma obra de fic\u00e7\u00e3o, costumo \u201cmergulhar de cabe\u00e7a\u201d na hist\u00f3ria. Sou absorvido de tal forma pelo enredo, que costumo fazer pausas em que pesquiso o contexto hist\u00f3rico do livro, a biografia de seu autor, e at\u00e9 a \u00e9poca em que o drama se passa. \u00c9 sempre uma experi\u00eancia enriquecedora, especialmente quando conhe\u00e7o um autor novo, ou a fic\u00e7\u00e3o \u00e9 ambientada num tempo ou regi\u00e3o que desconhe\u00e7o.<\/p>\n<p>Maravilhei-me com as agruras e belezas da Idade M\u00e9dia quando li, de Umberto Eco, \u201cBaudolino\u201d. Revisitei as paisagens mineiras e as tramas familiares quando, pela primeira vez, folheei \u201cBa\u00fa de Ossos\u201d, de Pedro Nava. Integrei-me ao quotidiano de uma grande e soturna fazenda de caf\u00e9, e com secretas ang\u00fastias que ela guardava, ao me deparar com \u201cA Menina Morta\u201d, de Corn\u00e9lio Pena. Recentemente, tive um prazer aut\u00eantico ao viajar pelo panorama mental de Paulo, no \u201cS. Bernardo\u201d de Graciliano Ramos. Senti o sobressalto da aventura e o asco pelas baratas quando, de capa a capa, vivenciei a longa viagem que J.A. Leite Moraes nos relata nos seus \u201cApontamentos de Viagem\u201d. Minha vida tem sido uma intermin\u00e1vel viagem atrav\u00e9s de livros.<\/p>\n<p>E, ao fechar a capa e dar a leitura por encerrada, uma sensa\u00e7\u00e3o estranha se apodera de mim, como se estivesse vivenciando um per\u00edodo de luto. Luto por tantas pessoas que existiam concretamente em minha mente e jamais irei rever, a n\u00e3o ser que fa\u00e7a releituras, as quais, invariavelmente, levar\u00e3o a novas ideias e novas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>No of\u00edcio de escritor \u00e9 assim tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Criamos personagens, mergulhamos em seu mundo interno e externo, damos vida \u00e0s suas ideias, falas, comportamentos. Como os antigos deuses, por puro capricho, podemos lev\u00e1-los \u00e0 gl\u00f3ria ou \u00e0 dana\u00e7\u00e3o, apenas movendo a caneta ou digitando as teclas diante da tela do computador. E, de repente, a hist\u00f3ria chega ao final. Conclui-se. Alcan\u00e7a-se o fim pretendido.<\/p>\n<p>Para que mundo secreto ir\u00e3o essas personagens, cheias de vida e consci\u00eancia, \u00e0s vezes dotadas de comportamentos quase aut\u00f4nomos ou surpreendentes, mesmo para n\u00f3s que, escrevendo, temos a ilus\u00e3o de control\u00e1-los, ao passo em que, n\u00e3o raro, s\u00e3o eles que nos conduzem?<\/p>\n<p>Eu, que nunca me aventurei a escrever no g\u00eanero romance, sinto nostalgia das personagens e cen\u00e1rios de meus pequenos contos. O que teria sido se a hist\u00f3ria se desenvolvesse um pouco mais, ou se aprofundasse o car\u00e1ter psicol\u00f3gico da trama e dos que a vivenciaram?<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, vem-me a vontade de retomar certas hist\u00f3rias, o que eventualmente fiz, apenas para continuar do ponto de partida, dar-lhes uma sobrevida ou uma segunda chance, a possibilidade de corrigir atitudes ou a puni\u00e7\u00e3o devida, repensarem a pr\u00f3pria exist\u00eancia, vista com a estranheza de concluir como um personagem que inventamos pode ser, de n\u00f3s, t\u00e3o diferente.<\/p>\n<p>Lembro quando, em 2004, ainda no princ\u00edpio de minha vida profissional, me tornei personagem do romance \u201cDespido de Ilus\u00f5es\u201d, do meu amigo Eduardo Mart\u00ednez.<\/p>\n<p>Fui um de seus primeiros leitores, e li-o de um f\u00f4lego, durante a madrugada, assim como, na adolesc\u00eancia, costumava fazer com uma nova hist\u00f3ria de Sherlock Holmes ou Hercule Poirot.<\/p>\n<p>N\u00e3o previa, ali, os la\u00e7os liter\u00e1rios que, anos mais tarde, me uniriam ainda mais ao meu amigo.<\/p>\n<p>Terminar aquele livro foi me despedir de uma vida paralela, de aventuras que, como advogado, jamais alcancei. Mas sinto, \u00e0s vezes, como se um outro \u201ceu\u201d estivesse ali, por entre as p\u00e1ginas do livro fechado, espreitando, apenas \u00e0 espera de uma segunda chance para sair por a\u00ed e viver tudo diferente do que tenho feito.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrever \u00e9 uma atividade solit\u00e1ria, eu sempre tenho dito. Mas, enquanto nos isolamos para darmos vida \u00e0s personagens e cen\u00e1rios de nossa escrita, um mundo absolutamente rico, povoado de muitas hist\u00f3rias, sensa\u00e7\u00f5es e ideias nasce e se amplia dentro de n\u00f3s. Ningu\u00e9m permanece como era antes de ler uma hist\u00f3ria. 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