{"id":354276,"date":"2025-05-22T04:15:12","date_gmt":"2025-05-22T07:15:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354276"},"modified":"2025-05-22T04:15:12","modified_gmt":"2025-05-22T07:15:12","slug":"evelina-e-rodrigo-como-eduardo-e-monica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/evelina-e-rodrigo-como-eduardo-e-monica\/","title":{"rendered":"Evelina e Rodrigo, como Eduardo e M\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p>Era ali, \u00e0 sombra daquelas \u00e1rvores, que os namoros mais ousados se davam nos idos de 1963. N\u00e3o foi diferente com os da minha rua, que, atrevidos, tentavam de todas as formas marcar presen\u00e7a, nem que fosse para esculpir um cora\u00e7\u00e3o no tronco sob a copa, com o pr\u00f3prio nome e o da amada. Para completar, uma flecha que varava a obra de arte.<\/p>\n<p>Nunca agredi caule de \u00e1rvores, apesar de ter tido alguns amores plat\u00f4nicos, bem como, naqueles idos, levar um providencial canivete no bolso de tr\u00e1s da bermuda surrada. Na verdade, mesmo que naquela \u00e9poca possu\u00edsse dentes fortes, usava a l\u00e2mina para descascar e fatiar mangas, como se fosse um h\u00e1bil ca\u00e7ador ind\u00edgena. \u00c9 engra\u00e7ado como a mente adolescente \u00e9 permeada de devaneios infantis.<\/p>\n<p>A primeira vez que a vi foi como se algo me dissesse que nossa hist\u00f3ria n\u00e3o se resumiria apenas \u00e0quele encontro fortuito na fila da padaria em um final de tarde de ver\u00e3o. A garota me lan\u00e7ou um olhar como se estivesse desvendando meus mist\u00e9rios, enquanto eu, repleto de inseguran\u00e7as, abaixei os olhos e os fixei sobre meus gastos chinelos de dedo. Nem sei se ela percebeu o encardido dos meus p\u00e9s encardidos da terra vermelha, t\u00e3o caracter\u00edstica de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Evelina, aos 15 anos, j\u00e1 possu\u00eda a apar\u00eancia de mulher. Quanto a mim, n\u00e3o passava de um ser disforme, cheio de espinhas, que pipocavam pelo rosto marcado de incertezas. Eram n\u00edtidas as discrep\u00e2ncias entre n\u00f3s, ainda mais quando, talvez duas semanas ap\u00f3s o nosso primeiro contato visual, t\u00ea-la visto de m\u00e3os dadas a um rapaz pouco mais velho, caminhando para aquelas \u00e1rvores. Nem sei se ela percebeu quando passou por mim, creio que n\u00e3o, ainda mais porque parecia t\u00e3o interessada no namorado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei quanto tempo exatamente levou de 1963 a 1970, quando, por acaso, encontrei novamente a Evelina. Tempo \u00e9 algo complexo, pois o que pode parecer ligeiro para alguns, n\u00e3o raro, \u00e9 uma eternidade para outros. Seja como for, esse per\u00edodo foi generoso comigo, mesmo n\u00e3o tendo me transformado em Alain Delon. Ao menos, meu rosto n\u00e3o ficou marcado por tantas erup\u00e7\u00f5es adolescentes. Tamb\u00e9m ganhei um pouco de corpo, apesar da magreza, heran\u00e7a de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Ela havia se mudado para o Rio de Janeiro, onde passou boa parte do tempo livre contemplando o mar. Com o desquite dos pais, retornou para a capital do pa\u00eds com a m\u00e3e, para o mesmo apartamento, na mesma quadra, justamente a que eu nunca havia sa\u00eddo. Para mim, era como se Evelina tivesse rodado o mundo, enquanto eu continuava enfurnado na provinciana cidade do Cerrado.<\/p>\n<p>Nos meses seguintes, acabamos nos aproximando. Apenas amizade mesmo, apesar dos pensamentos que me empurravam para outro desfecho. Gente, como aquela mulher me encantava! Todavia, preferia n\u00e3o arriscar algo que, a meu ver naqueles idos, seria como jogar fora a companhia da minha amada.<\/p>\n<p>\u2014 Rodrigo, conhece o Leonardo?<\/p>\n<p>\u2014 O que mora na \u00faltima casa da rua?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, ele mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 E o que tem ele?<\/p>\n<p>\u2014 Estamos saindo.<\/p>\n<p>O namoro com o tal Leonardo, para meu al\u00edvio, n\u00e3o durou mais do que duas ou tr\u00eas semanas. Entretanto, n\u00e3o tardou, Evelina se envolveu com outros rapazes, mas nenhum pareceu se encaixar ao seu modo de ver a vida.<\/p>\n<p>No in\u00edcio de 1971, fui estudar em Belo Horizonte, onde me formei advogado. Retornei para Bras\u00edlia no in\u00edcio de 1975 carregando na mala um canudo e um monte de esperan\u00e7as. E foi justamente na primeira semana de volta \u00e0 capital que esbarrei novamente com a minha paix\u00e3o plat\u00f4nica. Um encontro caloroso, cheio de sorrisos francos.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje me pergunto o que aconteceu, mas, do nada, um convite inesperado escapuliu da minha boca.<\/p>\n<p>\u2014 Evelina, quer sair comigo?<\/p>\n<p>Ela olhou para mim, sorriu e me deu um breve beijo nos l\u00e1bios.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 que enfim, Rodrigo! Pensei que voc\u00ea nunca iria me chamar pra sair.<\/p>\n<p>J\u00e1 faz 50 anos que aquela mo\u00e7a bonita aceitou o meu convite. E, desde ent\u00e3o, continuamos de m\u00e3os dadas. Qualquer dia desses, crio coragem, e a levo para debaixo de uma daquelas \u00e1rvores. Quem sabe, at\u00e9, fa\u00e7o um cora\u00e7\u00e3o com nossos nomes em um dos troncos? Cora\u00e7\u00e3o imagin\u00e1rio, \u00e9 claro, mas abarrotado de paix\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro 57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/15.0.3\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era ali, \u00e0 sombra daquelas \u00e1rvores, que os namoros mais ousados se davam nos idos de 1963. 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