{"id":354374,"date":"2025-05-23T04:25:35","date_gmt":"2025-05-23T07:25:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354374"},"modified":"2025-05-23T04:25:35","modified_gmt":"2025-05-23T07:25:35","slug":"meu-caro-amigo-a-coisa-por-aqui-ta-preta-mas-a-gente-vai-levando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/meu-caro-amigo-a-coisa-por-aqui-ta-preta-mas-a-gente-vai-levando\/","title":{"rendered":"&#8216;Meu caro amigo, a coisa por aqui t\u00e1 preta, mas a gente vai levando&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>O portugu\u00eas \u00e9 um idioma falado em cinco continentes. Cheia de pegadinhas e at\u00e9 contradi\u00e7\u00f5es, a l\u00edngua \u00e9 uma das mais ricas em express\u00f5es, em figuras de linguagem e tamb\u00e9m em frases aparentemente desconexas, mas de resultado l\u00f3gico. Por exemplo, quem nunca comeu gato por lebre? Quem nunca segurou uma batata quente nas m\u00e3os? E quem nunca descascou um abacaxi fict\u00edcio, encheu lingui\u00e7a, chorou as pitangas ou comeu o p\u00e3o que o diabo amassou? Acho que todos os viventes j\u00e1 passaram do ponto, comeram mingau pelas beiradas, cozinharam o galo em banho maria e deram a m\u00e3o \u00e0 palmat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os que j\u00e1 engoliram sapo e nunca tiveram necessidade de vender um peixe inexistente certamente jamais conseguiriam encher o papo de gr\u00e3o em gr\u00e3o ou fazer uma omelete sem quebrar os ovos da galinha, da pata ou os do pato. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de sem\u00e2ntica. N\u00e3o custa lembrar que s\u00f3 metendo a m\u00e3o na massa \u00e9 que descobriremos que a rapadura \u00e9 doce, mas n\u00e3o \u00e9 mole. E n\u00e3o adianta estar com a faca e o queijo na m\u00e3o. Afinal, para pirar na batatinha basta pisar nos tomates, viajar na maionese e enfiar o p\u00e9 na jaca.<\/p>\n<p>Sou do tempo do arco da velha, da Maria Cachucha e da \u00e9poca em que chovia a potes. Por isso, sei que, \u00e0s vezes, nem com reza forte conseguimos atingir o Nirvana ou recuperar o leite derramado. A\u00ed \u00e9 caix\u00e3o e vela preta. Macacos me mordam, mas melhor ficar a ver navios do que chorar l\u00e1grimas de crocodilo ou esperar a galinha criar dentes. Tenho mem\u00f3ria de elefante, mas n\u00e3o me lembro se foi \u00e0 sombra da bananeira ou com a cabe\u00e7a na lua que aprendi que, \u00e0 noite, todos os gatos s\u00e3o pardos<\/p>\n<p>Como n\u00e3o nasci com o rabo virado para a lua, desde o ber\u00e7o aprendi a puxar a brasa para minha sardinha, mas n\u00e3o a tirar o tapete de ningu\u00e9m, pois sempre achei que afobado come cru e que n\u00e3o h\u00e1 nada como um dia atr\u00e1s do outro. Ainda menino, descobri que a carne \u00e9 fraca e que todos somos farinha do mesmo saco. Por essa raz\u00e3o, com a calma de um jabuti, percebi que o pepino era s\u00f3 meu. Informado de que pensando morreu um burro, mesmo sem a necessidade de trocar alhos por bugalhos, fui \u00e0 luta para engrossar meu caldo. Eu sabia que ningu\u00e9m iria enxertar minha empada com azeitonas frescas.<\/p>\n<p>Ao longo da vida, sempre soube que quem n\u00e3o arrisca n\u00e3o petisca. Da\u00ed, juntei a fome com a vontade de comer, transformei o imposs\u00edvel em algo prov\u00e1vel, exatamente como procurar agulhas no palheiro e, como quem tem boca vai a Roma, todos os meus dias passaram a ser dia santo. N\u00e3o tenho e jamais tive os olhos maiores do que a barriga. O que tenho \u00e9 a pulga atr\u00e1s da orelha. N\u00e3o meto o bedelho na sopa quente de ningu\u00e9m. Entretanto, se houver necessidade, mando tudo \u00e0s favas e respondo com cobras e lagartos.<\/p>\n<p>Vivo no Brasil colonizado pelos portugueses. N\u00e3o cuspo no prato que comi, mas onde fui amarrar meu bode. J\u00e1 me deu vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Pensei duas vezes e conclui que n\u00e3o deixo meu pa\u00eds nem que a vaca tussa. Os portugas n\u00e3o sabem da missa \u00e0 metade, mas o Brasil de hoje n\u00e3o \u00e9 sopa no mel. Por aqui, dar o bra\u00e7o a torcer n\u00e3o \u00e9 nada diante dos \u201cpatriotas\u201d de meia tigela, para os quais pimenta nos olhos dos outros \u00e9 refresco. Eles fazem ouvidos de mercador, passam o dia pensando na morte da bezerra ou se fingem de morto somente para comer a rabada do coveiro. A maioria deles pegou o bonde andando e j\u00e1 quer se sentar na janelinha. Deixa pra l\u00e1, porque, para eles, est\u00e1 chegando a hora H. \u00c9 s\u00f3 aguardar o frigir dos ovos.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O portugu\u00eas \u00e9 um idioma falado em cinco continentes. 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