{"id":354432,"date":"2025-05-23T10:00:54","date_gmt":"2025-05-23T13:00:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354432"},"modified":"2025-05-23T10:26:37","modified_gmt":"2025-05-23T13:26:37","slug":"quando-a-noite-cai-sobre-a-cidade-nos-traz-os-sons-que-pulsam-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-a-noite-cai-sobre-a-cidade-nos-traz-os-sons-que-pulsam-vida\/","title":{"rendered":"Quando a noite cai sobre a cidade nos traz os sons que pulsam vida"},"content":{"rendered":"<p>A noite cai por sobre a cidade, minha equipe se retirou e o escrit\u00f3rio est\u00e1 quase vazio, exceto por mim, na mesa de trabalho sob uma luz fraca e amarela. Todas as outras l\u00e2mpadas se encontram apagadas e eu, sozinho, no meu canto azul, tendo ao lado um velho r\u00e1dio ligado numa esta\u00e7\u00e3o que traz not\u00edcias de um lugar distante e, sobre ele, a foto de Augusto Frederico Schmidt, meu poeta preferido, tomando um cafezinho, com olhos que parecem me convidar a uma conversa \u00edntima.<\/p>\n<p>Como fa\u00e7o quase sempre, desligo o ar-condicionado e abro as grandes janelas de vidro para deixar entrar o ru\u00eddo que vem da rua. Esse ru\u00eddo, que at\u00e9 aqui chega d\u00e9bil, \u00e9 o testemunho da vida que pulsa por a\u00ed, alheia a mim por completo. Milhares e milhares de seres, buscando o caminho de volta a casa ap\u00f3s um dia de trabalho, ou saindo, ainda, para as obriga\u00e7\u00f5es restantes. Quase ningu\u00e9m me conhece, sou um an\u00f4nimo, embora l\u00e1 fora, misturados aos outros seres desta avenida imensa, deste bairro imenso, desta cidade imensa nesse pa\u00eds imenso, alguns h\u00e1 aos quais tenho o privil\u00e9gio de contabilizar entre meus leitores.<\/p>\n<p>\u00c9 a estes que me dirijo a esta hora, pensando em escrever umas poucas linhas que lhes sejam \u00fateis \u2013 seja promovendo um pouco de distra\u00e7\u00e3o, um breve refrig\u00e9rio em meio \u00e0 faina di\u00e1ria, ou apenas proporcionando uma reflex\u00e3o aleat\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei, exatamente, qual \u00e9 o alcance dos meus textos. Em meu suposto of\u00edcio de escritor e poeta, me legitimo mais sendo lido do que escrevendo. E, mesmo se ningu\u00e9m lesse, eu continuaria deitando sobre o papel essas vagas linhas que me aliviam o cora\u00e7\u00e3o e o pensamento.<\/p>\n<p>Lembro-me do que comentava outro dia com um amigo, o poeta Guilherme de Queiroz C. da Rocha, enquanto recebia uma dedicat\u00f3ria no seu excelente livro \u201cEsta leitura \u00e9 gratuita\u201d, nos jardins do Pal\u00e1cio do Catete: na minha idade, Schmidt j\u00e1 havia escrito cerca de oito relevantes livros de poesia. Eu ainda estou pensando no meu segundo. N\u00e3o almejo, \u00e9 claro, a posi\u00e7\u00e3o que teve o meu poeta amado \u2013 e ele mesmo confessava ter conseguido muito menos do que almejava \u2013 mas \u00e9 sempre bom saber que deixaremos algo para a posteridade nas p\u00e1ginas de um livro de poemas. Vaidade? N\u00e3o sei. A insist\u00eancia em permanecer e ser eterno, mesmo quando ausente, \u00e9 uma teoria mais prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Gostaria de escrever bem mais do que consigo, tanto em poesia quanto em prosa, esta \u00faltima na forma dos meus contos e cr\u00f4nicas que, de vez em quando, saem aqui em <strong>Notibras<\/strong>. Mas nem sempre a inspira\u00e7\u00e3o vem me dar seu afago generoso.<\/p>\n<p>Por s\u00f3 escrever de vez em quando e se estou inspirado, n\u00e3o me considero um autor profissional. Para escrever por obriga\u00e7\u00e3o, j\u00e1 me basta o que fa\u00e7o na minha pr\u00e1tica de advogado. Nesse of\u00edcio, escrever n\u00e3o se trata de nenhum sacrif\u00edcio. Na grande maioria das vezes, basta sentar-me em frente \u00e0 tela e o texto vem, flu\u00eddo, f\u00e1cil, brota na mente e passa pelos dedos \u00e1geis sobre o teclado \u2013 no trabalho, invariavelmente escrevo no computador \u2013 por vezes t\u00e3o extenso, que preciso me conter, resumir, suprimir alguns par\u00e1grafos. E estive pensando sobre isso. Consigo escrever muito mais sobre o problema dos outros, sobre direitos, sobre conflitos humanos, sobre insatisfa\u00e7\u00f5es com decis\u00f5es judiciais, onde raramente residem poesia ou beleza, enquanto, por vezes, fico semanas sem conceber um verso, um par\u00e1grafo de prosa aproveit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Escrever poesia e outros textos, tampouco se constitui em sacrif\u00edcio. Mas n\u00e3o \u00e9 frequente, n\u00e3o \u00e9 di\u00e1rio.<\/p>\n<p>Fiz um pacto com a escrita. Eu n\u00e3o desisto dela, e ela n\u00e3o desiste de mim. \u00c9 tudo uma quest\u00e3o de nos encontrarmos, como se encontra, ao acaso, um amigo na rua, estando-se a caminho de um compromisso importante, ou quando, caminhando-se no meio de uma floresta densa e soturna, olhamos de repente para o alto e, percebendo-nos numa clareira, vislumbramos um c\u00e9u de inigual\u00e1vel beleza, povoado de nuvens tingidas por raios t\u00eanues de um generoso sol que nos enche de inspira\u00e7\u00e3o, ternura e gratid\u00e3o pela vida.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 autor de A Verdade nos Seres, livro de poemas que pode ser adquirido diretamente atrav\u00e9s do e-mail danielmarchiadv@gmail.com<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite cai por sobre a cidade, minha equipe se retirou e o escrit\u00f3rio est\u00e1 quase vazio, exceto por mim, na mesa de trabalho sob uma luz fraca e amarela. 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