{"id":354682,"date":"2025-05-27T07:10:05","date_gmt":"2025-05-27T10:10:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354682"},"modified":"2025-05-27T07:35:25","modified_gmt":"2025-05-27T10:35:25","slug":"chico-e-o-avo-cada-um-no-seu-quadrado-mas-um-deles-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/chico-e-o-avo-cada-um-no-seu-quadrado-mas-um-deles-vivo\/","title":{"rendered":"Chico e o av\u00f4, cada um no seu quadrado (mas um deles, vivo)"},"content":{"rendered":"<p>\u201c<em>Pela primeira vez compreendi que aquele olhar fixo e sem l\u00e1grimas [&#8230;] que tinha minha m\u00e3e desde a morte da minha av\u00f3, estava detido naquela incompreens\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o da lembran\u00e7a e do nada. [&#8230;] Mas sobretudo, logo que a vi entrar com o seu manto de crepe, apercebi-me [&#8230;] que n\u00e3o era mais a minha m\u00e3e que eu tinha diante de meus olhos, mas a minha av\u00f3.<\/em>\u201d Marcel Proust, Sodoma e Gomorra, volume 4 de Em busca do tempo perdido.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a do protagonista do filme O sexto sentido, Chico via gente morta. Come\u00e7ara na inf\u00e2ncia, com a bisav\u00f3 rec\u00e9m-falecida. Quando percebeu que os pais n\u00e3o viam o que ele via, retraiu-se, tratou de disfar\u00e7ar, e em boa medida conseguiu. Teve uma adolesc\u00eancia miser\u00e1vel, povoada de fantasmas. Ao chegar \u00e0 idade adulta, havia se tornado um expert no que chamava, brincando (mas s\u00f3 consigo mesmo) de mortologia.<\/p>\n<p>Chico percebeu que os morrentes \u2013 em oposi\u00e7\u00e3o a viventes \u2013 preenchiam diversos nichos do al\u00e9m-t\u00famulo. Havia os que n\u00e3o se resignavam a partir, apegados a algum evento traumatizante, e fantasmavam. Ele sentia uma pena infinita desses abantesmas, em sua maioria condenados a reviver o instante da pr\u00f3pria morte. \u201cTadinhos. N\u00e3o por acaso, soltam uivos e lamentos de cortar o cora\u00e7\u00e3o\u201d, pensava sempre.<\/p>\n<p>Mas esses eram minoria. Influenciados pela religi\u00e3o que adotavam em vida, os rec\u00e9m-falecidos costumavam ir pro c\u00e9u ou pro inferno. Quer dizer, criavam para si pr\u00f3prios o que imaginavam ser esses dois planos opostos, e ficavam bestamente tocando harpa junto a anjinhos rechonchudos, ou pior, infligiam a si mesmos castigos atrozes.<\/p>\n<p>\u201cImbecis\u201d, repetia Chico. \u201cSe dissessem \u2018hora de ir para outro plano\u2019, os do suposto c\u00e9u evoluiriam. E os do inferno, ent\u00e3o? Se dissessem apenas \u2018basta!\u2019, seus tormentos cessariam na hora\u201d.<\/p>\n<p>Havia um pequeno grupo cujas cren\u00e7as admitiam formas variadas de evolu\u00e7\u00e3o espiritual. Esses partiam, n\u00e3o felizes (a frase \u201cpartir desta para melhor\u201d \u00e9 mais que um absurdo sem nome, \u00e9 um esc\u00e1rnio), mas resignados. Para onde? Chico n\u00e3o sabia e n\u00e3o fazia a menor quest\u00e3o de conhecer esses mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>E havia um \u00faltimo grupo, o dos mortos que n\u00e3o queriam morrer. Ou melhor, n\u00e3o queriam partir, ansiavam pela exist\u00eancia p\u00e1lida, pela vida diminu\u00edda dos morrentes, e apegavam-se com unhas e dentes \u2013 unhas sujas e dentes podres \u2013 ao simulacro ao seu alcance. Para isso, manipulavam a culpa e a saudade dos parentes, iam conquistando posi\u00e7\u00f5es e, certo dia, repartiam a carne com o vivente.<\/p>\n<p>No caso do Chico, cujos pais haviam falecido cedo, o morrente recalcitrante foi o av\u00f4. Chico acompanhou as manobras do velho para ocupar um canto da casa, bem quieto, at\u00e9 acumular for\u00e7as para investir contra ele. Pensou em um parasita que envolve uma \u00e1rvore e suga-lhe a seiva. Mas ele n\u00e3o era uma \u00e1rvore, tinha consci\u00eancia do que se passava.<\/p>\n<p>Lembrou a seguir como Proust descreve, no romance Em busca do tempo perdido, a transforma\u00e7\u00e3o de sua m\u00e3e, enlouquecida pela dor, na av\u00f3 morta. \u201cEra assim mesmo\u201d, pensou. \u201cMesmo pessoas bon\u00edssimas, como a av\u00f3 do romancista segundo sua descri\u00e7\u00e3o, tornam-se ap\u00f3s a morte parasitas preocupados apenas em sobreviver a qualquer pre\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p>Quando a sombra do av\u00f4, um pouco menos esmaecida, conseguiu aproximar-se dele, Chico deu-lhe um safan\u00e3o e berrou:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1 pra outro plano, seu morto de bosta!<\/p>\n<p>O morrente deu um grito de susto e afastou-se, choramingando, de volta para seu cantinho.<\/p>\n<p>Desde esse dia, os dois repartem a casa. Chico at\u00e9 sente alguma saudade do velho, que o criou. Mas controla esse sentimento, pois sabe que servir\u00e1 de apoio ao falecido para galgar posi\u00e7\u00f5es em seu psiquismo e, quem sabe, algum dia, cravar-lhe unhas sujas e dentes podres, partilhando n\u00e3o a casa, mas seu corpo, sua for\u00e7a vital. Enquanto o novo momento de confronto n\u00e3o chega, neto e av\u00f4, o da vida plena e o da exist\u00eancia esmaecida, v\u00e3o bem, obrigado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPela primeira vez compreendi que aquele olhar fixo e sem l\u00e1grimas [&#8230;] que tinha minha m\u00e3e desde a morte da minha av\u00f3, estava detido naquela incompreens\u00edvel contradi\u00e7\u00e3o da lembran\u00e7a e do nada. 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