{"id":354769,"date":"2025-05-28T12:40:17","date_gmt":"2025-05-28T15:40:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=354769"},"modified":"2025-05-28T12:55:30","modified_gmt":"2025-05-28T15:55:30","slug":"o-silencio-do-mundo-diante-da-dor-numa-roda-que-nao-para-de-girar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-silencio-do-mundo-diante-da-dor-numa-roda-que-nao-para-de-girar\/","title":{"rendered":"O sil\u00eancio do mundo diante da dor numa roda que n\u00e3o para de girar"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias em que o mundo parece uma m\u00e1quina de lavar roupa em ciclo eterno. Gira, gira, gira\u2026 e n\u00e3o para, mesmo quando do lado de fora algu\u00e9m est\u00e1 sangrando. A vida, com seus compromissos inadi\u00e1veis, boletos autom\u00e1ticos e stories patrocinados, continua. Mas h\u00e1 um ru\u00eddo inc\u00f4modo nesse funcionamento todo: o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Foi no mesmo fim de semana em que Mujica nos deixou em forma de saudade e legado, que um ataque foi frustrado num show da Lady Gaga, enquanto crian\u00e7as refugiadas, de olhos imensos e bocas caladas, buscavam algum canto do mundo que as aceitasse como se fossem humanas. No Complexo da Mar\u00e9, o tiroteio foi a trilha sonora do caf\u00e9 da manh\u00e3 de uma m\u00e3e que, entre balas perdidas e esperan\u00e7as minguadas, insistia em colocar a\u00e7\u00facar no caf\u00e9 como quem ado\u00e7a a vida \u00e0 for\u00e7a.<\/p>\n<p>E o mundo? Girando.<\/p>\n<p>Como se o luto de um ex-presidente fil\u00f3sofo e campon\u00eas n\u00e3o dissesse nada. Como se o som de tiros no sub\u00farbio carioca fosse parte da paisagem sonora da cidade. Como se o p\u00e2nico evitado num show pop fosse s\u00f3 mais uma linha de rodap\u00e9 nos notici\u00e1rios. Como se a dor de quem foge da guerra fosse menos urgente do que o pre\u00e7o da gasolina.<\/p>\n<p>A empatia, essa palavra bonita que aprendemos a dizer no Instagram, \u00e9 seletiva. O sofrimento, quando n\u00e3o \u00e9 nosso ou de algu\u00e9m parecido conosco, ganha o status de \u201cproblema alheio\u201d. A antropologia j\u00e1 nos ensinou que nos mobilizamos mais por quem identificamos como \u201cn\u00f3s\u201d do que por quem chamamos, consciente ou inconscientemente, de \u201coutros\u201d. E o \u201coutro\u201d, historicamente, sempre foi o lugar da invisibilidade, da dor ignorada, do lamento que n\u00e3o encontra ouvidos.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso ou tr\u00e1gico que o mesmo mundo que faz barulho por tudo, silencie diante daquilo que mais grita: a dor. E n\u00e3o qualquer dor. A dor do pobre, do preto, do refugiado, do perif\u00e9rico, do estrangeiro, do corpo que n\u00e3o habita os centros de decis\u00e3o e privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio do mundo \u00e9 c\u00famplice.<\/p>\n<p>Mas ele n\u00e3o \u00e9 absoluto. Porque h\u00e1 quem escreva. H\u00e1 quem resista com palavras, com arte, com mem\u00f3ria. H\u00e1 quem fa\u00e7a da cr\u00f4nica um grito, da poesia um protesto. H\u00e1 quem decida n\u00e3o passar batido pelas dores dos outros. Porque, no fundo, sabemos: o mundo gira, sim, mas ele tamb\u00e9m chora. E \u00e0s vezes, tudo que ele precisa \u00e9 que algu\u00e9m tenha a coragem de<br \/>\nescutar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 dias em que o mundo parece uma m\u00e1quina de lavar roupa em ciclo eterno. Gira, gira, gira\u2026 e n\u00e3o para, mesmo quando do lado de fora algu\u00e9m est\u00e1 sangrando. A vida, com seus compromissos inadi\u00e1veis, boletos autom\u00e1ticos e stories patrocinados, continua. 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